Histórias da Ditadura

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07
jul
2020

A palavra é meu domínio sobre o mundo I


O que mais dizer sobre Clarice Lispector (1920-1977) que já não tenha sido dito?

A autora ocupa lugar central nos estudos literários brasileiros desde os anos 1960 e hoje sua obra circula sob o título de clássico universal em vários países. O projeto editorial em torno de seus livros, levado em frente pela editora Rocco, é um dos mais bem sucedidos na história editorial brasileira, garantindo à autora lugar fixo na lista dos mais vendidos.

As traduções no exterior, por sua vez, iniciadas já nos anos 1950 na França, ganharam novo fôlego com a publicação em inglês da biografia escrita por Benjamin Moser há pouco mais de dez anos. De fato, entre tapas e beijos, também não lhe faltam biógrafos e biógrafas: o próprio Moser, Nádia Gotlib e Olga Borelli são os mais citados.

Intelectuais eruditos, em sua maioria homens, escreveram ao menos um artigo sobre a autora: Sérgio Milliet, Álvaro Lins, Antonio Cândido, Gilda de Melo e Sousa, Luiz Costa Lima, Affonso Romano de Sant’anna, Sérgio Buarque de Hollanda, Roberto Schwarz, Eduardo Portella. Entre aqueles que escreveram trabalhos de maior fôlego estão Olga de Sá e Benedito Nunes, referências incontornáveis.

O que mais dizer, então, sobre Clarice Lispector, que já não tenha sido dito?

Além da óbvia defesa da livre e infinita interpretação do objeto literário, talvez pensar no que se escreveu sobre o que ela escreveu seja uma resposta interessante.


Benedito Nunes, crítico literário paraense, divide a recepção brasileira dos textos de Clarice Lispector em três momentos. O primeiro configura-se entre 1943, publicação do primeiro romance, Perto do coração selvagem, e 1959, quando a escritora vive ainda no exterior, acompanhando o marido diplomata. Neste intervalo de tempo, a recepção a seus textos fica restrita aos críticos literários, que publicam nos jornais, e aos escritores com gosto mais vanguardista.

Já o livro Laços de Família, coletânea de contos de 1960,“conquistou o público universitário e despertou interesse pelos outros romances da autora”, aliado ao fato de Lispector ser nesta época cronista do Jornal do Brasil, e à “mágica atração que se desprendia da figura humana da ficcionista, na qual o encanto feminino, guardado o traço eslavo de sua origem russa, combinou-se a uma personalidade esquiva, tímida e altiva, mais solitária do que independente”[1]. Este trecho anuncia uma das marcas utilizadas pelo marketing em torno da autora: a valorização da sua beleza, adornada por um ar de mistério e exotismo.

Uma terceira fase da recepção se dá após a morte da autora em 1977, a partir da publicação de A hora da estrela e Um sopro de vida, justamente por estes livros ultrapassarem as definições de romance e de ficção. Em termos editoriais, poderíamos ainda acrescentar uma quarta fase, marcada pelo projeto editorial da Rocco, que popularizou Clarice Lispector no Brasil nos últimos trinta anos.

Mas não fiquemos no Brasil. Afinal, como disse Clarice Lispector certa vez ao falar da língua portuguesa: “o que recebi de herança não me chega”; e mais à frente: “eu nasci para escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo”[2].

Nos anos 1990, surgiram os primeiros estudos sobre a internacionalização da obra de Clarice Lispector. Hoje conhecemos com propriedade sua circulação e alguns aspectos da recepção em língua inglesa (Estados Unidos e Grã Bretanha), na Alemanha, França, Espanha, Portugal. Dentre estes diversos contextos, gostaria de destacar dois que, a meu ver, trazem elementos originais para pensarmos as relações entre gênero, literatura e sociedade.


Comecemos por Portugal[3], origem do nosso complexo freudiano favorito.

Clarice Lispector passou por Lisboa em 1944, onde não deixou de divulgar seu primeiro romance, Perto do coração selvagem. Ainda que, à época, o círculo restrito em torno do diplomata e escritor brasileiro Rui Ribeiro Couto tenha apreciado a leitura, o romance não teve grande alcance em Portugal. Aliás, nem com a primeira edição portuguesa, de 1961, nada demais aconteceu. Lispector continuou restrita a um círculo estreito de intelectuais e universitários interessados no Brasil; lembrando que, até hoje, o espaço dedicado à literatura brasileira no sistema universitário português é extremamente reduzido e marginal[4].

A coisa mudou de figura no momento em que a Relógio D’Água, editora de tamanho modesto, mas muito importante no contexto editorial português, passou a comprar os direitos de publicação da obra da autora em 1990, mesma época em que a Rocco a publica no Brasil. Hoje, ambas trabalham as publicações em paralelo, constituindo um projeto lusófono em torno de Clarice Lispector.

O alcance é impressionante. A escritora aparece frequentemente nos principais jornais portugueses, e teses e dissertações são publicadas cada vez mais, especialmente em estudos de literatura comparada. Mais importante, contudo: Clarice Lispector entrou para a lista do Plano Nacional de Leitura, dedicado aos estudantes do ensino regular público no país.  

O sucesso, neste sentido, não se resume ao esforço da Relógio d’Água. Ele se dá por conta de uma política conjunta, através do financiamento bilateral de publicações no exterior, investimentos do governo brasileiro em eventos como as Feiras do Livro, por conta de políticas educacionais que envolvem a prática da leitura, além da organização de exposições, colóquios e à incansável iniciativa de professores e de pesquisadores universitários. Não podemos esquecer, neste sentido, que o professor português, Carlos Mendes de Sousa, titular da Universidade do Minho, é um dos mais importantes especialistas contemporâneos da obra de Clarice Lispector[5].

Obviamente, o ideal seria que muitas outras autoras e autores brasileiros pudessem circular dessa mesma forma no exterior, mas eu gostaria de destacar um último aspecto que acho importante nessa circulação e recepção: certo discurso que muitas vezes o acompanha.

Em 2013, quando do “Ano do Brasil em Portugal”, a respeitada Fundação Calouste Gulbenkian recebeu em Lisboa a exposição “Clarice Lispector: a Hora da Estrela”, que já tinha circulado em São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro e Bogotá, e atraído mais de 500.000 pessoas.

No catálogo proposto aos visitantes, o presidente da Fundação compara Clarice Lispector ao escritor português Fernando Pessoa, uma vez que ambos são “donos da mesma língua e do mesmo gênio”. E afirma mais à frente: “No caso de Clarice Lispector, o que interessa não é o local de nascimento, a nacionalidade, ou o sítio onde habita, é a língua com a qual se exprime que a motiva, que a transforma na escritora que foi”[6].

Este é um argumento-chave, que seduz o público português: Clarice Lispector merece ser conhecida e lida porque escreve em língua portuguesa e é esta língua que a transforma na autora que foi. Aqui, a herança basta e não é a palavra, mas a língua que convoca o domínio sobre o mundo.

A força do argumento pode ser ainda mais bem compreendida quando pensamos no contexto da “Lusofonia”. Segundo o linguista brasileiro Carlos Alberto Faraco, esta é uma palavra controversa. Ela é utilizada para fazer referência a todos os lusófonos e lusófonas do mundo – querendo, então, dizer “população lusófona”. Mas também há utilizações bem marcadas sob o plano da política. A lusofonia é apresentada, por exemplo, como nome representativo de uma comunidade idealizada de sentimentos e tradições[7].

Neste sentido, o argumento em torno de Clarice Lispector como autora comparável a Fernando Pessoa; grande escritora porque transformada pela língua portuguesa, fornece uma nova leitura para a trajetória da obra clariceana.

Mas outro caso também nos parece interessante.

No próximo mês, conversaremos sobre alguns aspectos da circulação de Clarice Lispector na França, onde uma parte da recepção se constrói em torno dos diversos projetos feministas franceses da década de 1970. Prepare-se para conhecer, além de uma escritora lusófona, uma Clarice Lispector “feminista revolucionária”… até lá!

Natália de Santanna Guerellus é historiadora e colunista do site História da Ditadura.



Notas:

[1] Benedito Nunes, “Clarice Lispector ou o Naufrágio da Introspecção”, in Colóquio/Letras, nov. 70, 1982, p. 13-22.

[2] Lispector, Clarice, «Declaração de amor », Jornal do Brasil, 11/05/1968, p. 2.

[3] Para mais detalhes, ver meu artigo : Guerellus, Natália de Santanna, « La parole est mon domaine sur le monde » : circulation et réception de l’œuvre de Clarice Lispector au Portugal », Les Cahiers de Framespa, 33 | 2020, Disponível em : http://journals.openedition.org/framespa/7284 ; DOI : https://doi.org/10.4000/framespa.7284.

[4] Ver o primeiro capítulo do livro de Abel Barros Baptista. O livro agreste. Campinas: Unicamp, 2005.

[5] Ver: Carlos Mendes de Sousa, Clarice Lispector. Figuras da Escrita, Rio de Janeiro, Instituto Moreira Salles, 2012.

[6] Clarice Lispector: a hora da estrela, curadoria de Ferreira Gullar e Júlia Peregrino, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2013, p. 06.

[7] Faraco, CA. Lusofonia: utopia ou quimera? Língua, história e política. In Lobo, T., Carneiro, Z., Soledade, J., Almeida, A., and Ribeiro, S., orgs. Rosae: linguística histórica, história das línguas e outras histórias [online]. Salvador : EDUFBA, 2012, pp. 31-50.


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