Histórias da Ditadura

Artigos

A Resistência
05
jun
2018

Da resistência e outras ficções


 

Um menino adotado em meio à ditadura argentina. Uma família que migra de uma ditadura para outra, tornando-se maior no Brasil. E o narrador que tenta recuperar ao menos três histórias sobrepostas: a reclusão do irmão em seu quarto, a militância dos pais ainda em Buenos Aires e a consequente dúvida sobre permanecer ou partir. O romance de Julián Fuks se processa entre cisões que dizem tanto de uma memória íntima e cotidiana, quanto de outra, coletiva, que remonta ao passado nefasto de duas nações vizinhas.

A narração investe em digressões ensaísticas sobretudo a respeito da cartografia familiar, dos ideais políticos arrefecidos e do desejo de escrever um romance. O narrador tenciona falar do irmão adotivo, mas instala um procedimento de escritura que contesta as próprias incursões e confecciona um texto precário, em crise, com mais interrogações do que certezas a colocar. Um texto em que “a indistinção entre realidade e ficção lança a especificidade da literatura para uma zona em que as elucubrações sobre ela valem mais pelo que dizem com respeito a questões existenciais ou conflitos sociais” (GARRAMUÑO, 2014, p. 22).

Neste sentido, A resistência produz-se eticamente no não-lugar em que interessa o encontro, o fazer na fronteira, o desbordamento de meios. Ele rasura o romance com “R” maiúsculo e mobiliza o “real” para elaborar um espaço outro, um espaço que é literatura, porém fora de si. Os capítulos curtos e ensaísticos são investimentos de sentido sobre a memória, e presentificam poeticamente o passado na esteira dos ditos romance-anotação:

 

Em lugar da caracterização densa dos personagens, da continuidade tramada dos fatos, nos (não)romance-anotação encontramos a encenação do eu autoral e a valorização do incidental, do episódico, formando pequenos grumos narrativos, que valorizam o aleatório em detrimento da coerência sequencial e infiltram a desconfiança sobre o caráter literário da narração. (AZEVEDO, 2017, p. 54)

 

A resistência do irmão em sentar-se à mesa confunde-se com a anterior resistência dos pais ao regime argentino e, talvez, com a própria resistência da linguagem em fazer-se literária. Autor e narrador embaralham-se, duvidam do que contam, e expõem o desejo de romance sem terem muito mais do que suas entradas ficcionais na memória. A voz narrativa não é onisciente, pelo contrário: tem ciência de muito pouco.

 

Na noite passada meus pais leram o livro que lhes enviei […]. É claro que não podem fazer observações meramente literárias, ambos ressalvam como se quisessem se desculpar, durante toda leitura sentiram uma insólita duplicidade, sentiram-se partidos entre leitores e personagens, oscilaram ao infinito entre história e história. É estranho, minha mãe diz, você diz mãe e eu vejo meu rosto, você diz que eu digo e eu ouço minha voz, mas logo o rosto se transforma e a voz se distorce, logo não me identifico mais. (FUKS, 2015, p. 134-135)

 

O não-romance de Fuks traça algumas rotas para alcançar o irmão possível, linhas que terminam por desarranjar a continuidade, a progressão, a distensão e, portanto, o próprio literário. Por suas incursões ensaísticas e poéticas, desbordando para fora de si, o texto transforma o “real” numa coisa outra, num tablado instável onde as cenas parecem subjuntivas. Um trabalho denso e complexo, difícil de falar sobre, no qual percebe-se a preocupação do autor em refletir sobre a literatura enquanto a exerce.

 

Rafael Gurgel é crítico literário.

 


Referências:

 

Luciene Azevedo. A inespecificidade do romance e a anotação. In: AZEVEDO, Luciene; PEREIRA, Antônio Marcos (Org.). Palavras da crítica contemporânea. Salvador: Boto-cor-de-rosa livros, arte e café / paraLeLo 13s, 2017, p. 49-67.

Julián Fuks. A resistência. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

Florencia Garramuño. Frutos estranhos: sobre a inespecificidade na estética contemporânea. Trad. Carlos Nougué. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.