Histórias da Ditadura

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África
02
jul
2020

África Brasil: do Continente ao País e do País ao Continente


Se existe um disco que pode sintetizar as maiores influências e significâncias da música do carioca Jorge Duílio Lima Menezes, é o clássico África Brasil, lançado pela Philips em 1976. Não é nele que aparecem as primeiras influências africanas de Jorge Ben: o carioca traz a África em seu sangue; é filho de uma etíope (Sílvia Saint Ben Lima) e herdou mais que o sobrenome da mãe.

No aclamado A Tábua de esmeralda, lançado em 1974 pela mesma gravadora, Ben já passeia pelo misticismo, pela religiosidade e pela cultura africana em canções como Zumbi (aludindo às relações entre os africanos enviados e escravizados no Brasil e as culturas negras que resistiram no país), Menina mulher da pele preta e Os Alquimistas estão chegando. Também existem gravações nesse mundo afro-brasileiro em 1975, no disco Ogum Xangô feito em dueto com o baiano Gilberto Gil, onde os grandes destaques são os clássicos Taj Mahal e Filhos de Gandhi. Mas é no disco que apresento aqui que, apesar da pouca duração (apenas 40’17), encontramos um quadro artístico sobre a África e sobre os elementos mais aclamados da música do carioca ‘plebeu’.

O disco foi gravado em meados dos anos 1970, sob as influências de Chuck- Berry, os arranjos de Roberto Bertrami (Azymuth) e o espírito guitarrista do próprio Ben Jor. O disco é norteado por dois essenciais elementos temáticos: África e Futebol. Isso já é evidente na primeira canção do disco, Ponta de Lança (Umbabarauma), uma levada sobre o mítico jogador de futebol africano Babaraum que Jorge assistiu jogar quando esteve na França. O Misticismo, a religiosidade e a filosofia aparecem na segunda canção Hermes Trismegisto escreveu; uma continuação da primeira canção Hermes Trismegisto e a sua celeste Tábua de esmeralda, lançada no disco de 1974. Essa canção faz uma referência ao Deus/Faraó Toth egípcio, que na cultura grega foi denominado Hermes e que esteve relacionado aos ciclos lunares, cujas fases expressam a harmonia do universo. Esse elemento existencial segue o disco na terceira canção O Filósofo.

Nas faixas 4 e 5 do disco, Jorge persegue o universo social das dificuldades sociais e financeiras do Brasil, muitas delas enfrentadas pela parcela negra e decorrentes das ações perversas da escravidão no país. Meus filhos, Meu tesouro e O Plebeu são retratos de uma sociedade desigual, influenciada pela falta de oportunidade e pelo preconceito com as classes sociais de baixa renda no país.

Regravada nesse disco (originalmente lançada em 1975, no disco Oxum Xangô), a canção Taj Mahal é um dos carros-chefes do disco. A canção narra a história de amor do príncipe mongol Shah-Jahan pela princesa Mumtaz Mahal (a joia do palácio), que ao ver sua amada falecer no parto do 14º filho constrói um dos mais belos palácios da humanidade: o Taj Mahal. É considerada uma das maiores provas de amor da história. Cavaleiro do Cavalo Imaculado e A História de Jorge são mais duas canções ligadas diretamente a rituais religiosos afro-brasileiros que relacionam São Jorge e seu cavalo ao orixá Ogum. O disco também traz uma gravação da canção Xica da Silva, feita sob encomenda para o filme homônimo de Cacá Diegues. Ben Jor musicou parte do texto lido para ele por Cacá, uma história onde uma escrava passa à condição de mulher do fidalgo João Fernandes e que passa a ter de ser aceita socialmente:

Muito rica e invejada, temida e odiada, pois com as suas perucas, cada uma de uma cor joias, roupas exóticas das Índias, Lisboa e Paris a negra era obrigada a ser recebida como uma grande senhora da Corte do Rei Luís.

Xica da Silva (1976), filme de Cacá Diegues


As duas músicas finais do disco não terminam a história dele. O disco se dispõe a ser como a história afro-brasileira: plural, mestiça e polifônica. Camisa 10 da Gávea é canção feita para um dos grandes craques do futebol carioca: Zico, o maior ‘meia’ do Flamengo, um time que é caracterizado justamente pela grande torcida oriunda de classes baixas e com a presença maciça de negros. O maior time do país é aclamado pelo cantor, flamenguista declarado. Zumbi (África Brasil) não foi eleita para fechar o disco por acaso. O maior líder negro do país representa a resistência africana e a força da etnia negra no país. As raízes negras que ajudaram a dar força ao tronco nacional; as religiões, comidas, músicas. Todos esses valores resistentes africanos e que hoje estão presentes no corpo do Brasil são representados pela figura do líder dos Palmares na derradeira faixa dessa obra.

O disco é uma obra-prima mista de Brasil e África. Do continente ao país e do país ao continente; das histórias africanas, religiões ao futebol e à paixão nacional, Ben Jor, que nesse disco ainda se chamava Jorge Bem, produz uma amálgama que transcende elementos pontuais. O disco é África e Brasil de forma inseparável, de fusão plena, de riqueza artística, histórica e cultural.

Salve Simpatia!

Ivan Lima é historiador e colunista do site História da Ditadura.



Referências:

ALBIN, Ricardo Cravo. Dicionário Houass ilustrado: Música Popular Brasileira. Rio de Janeiro: Paracatu, 2006.

http://www.jorgebenjor.com.br

BEN, Jorge. África Brasil, Philips; 1976.

BEN, Jorge. A Tábua de Esmeralda, Philips; 1974.


Crédito da imagem destacada: Divulgação