Histórias da Ditadura

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07
abr
2018

7 conselhos a todo estudante de História


 

1. NÃO FAÇA FACULDADE DE HISTÓRIA

Calma, não é bem isso. Quando me propus a escrever este texto, perguntei a vários colegas os conselhos que eles dariam a um jovem estudante de História e muitos me responderam francamente, falando de seus arrependimentos, expondo suas angústias e ansiedades em atuar nessa área. Não pude deixar de ignorar essas falas. A situação é a seguinte: tem muita gente fazendo História. Não tem emprego bom para todo mundo. Não tem sequer emprego para todo mundo. Não disponho de nenhum dado concreto, mas no meu “olhômetro”, bota aí que 7 de cada 10 colegas que se formaram comigo não estão trabalhando com História. Alguns não acharam emprego, outros não aguentaram os salários e as condições de trabalho e outros simplesmente descobriram que não tinham vocação para dar aula. Importante: abandone a ilusão de que você não vai dar aula. Historiadores vivem de dar aulas. Daqui pra frente, considere-se um historiador/professor. Assim como na maioria das áreas do mercado de trabalho, há uma dificuldade do novato em se inserir e em se posicionar. O primeiro emprego é o mais difícil de todos e as perspectivas não são boas. A conclusão: se for para entrar na área, que seja de corpo e alma. Indecisos não se criam na História. Vá com tudo. Entre 100% ou não entre! Aliás, isso serve para tudo na sua vida.

 

2. APRENDA COM OS MAIS VELHOS

Cerca de 80% deste texto foi feito com a colaboração de vários colegas de profissão, muitos deles mais velhos. Um professor não está 100% pronto após a graduação. Ao contrário, aprendi ainda estagiando que, nessa profissão, ouvir os colegas mais velhos, aceitar conselhos, se beneficiar das experiências deles é fundamental. É nessa hora que você começa a aprender que a gratidão e a generosidade são pilares da profissão. Dizem que vivemos hoje na sociedade do compartilhamento, o fato é que os professores já fazem isso há pelo menos alguns séculos. A beleza da profissão é a busca do outro, do diálogo com o outro. Somos comunicadores. Escrevemos e falamos para os outros. Quem está fazendo isso há mais tempo que você com certeza acumulou um conhecimento prático que não é ensinado nas universidades. É uma profissão na qual muito se aprende com os mais antigos. Tenha a humildade e a disposição para aprender com eles. Seu trabalho é colecionar boas práticas e misturá-las com toda sua bagagem para criar seu próprio caminho, tanto na pesquisa historiográfica quanto na sala de aula.

 

3. LEIA COMO SE NÃO HOUVESSE AMANHÃ!

No meu primeiro dia da faculdade de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o falecido professor Afonso Carlos dos Santos nos falou da importância da leitura. Depois dele, praticamente todos os outros professores repetiram a mesma coisa. Para a enorme maioria dos alunos, a recomendação “entrou” por um ouvido e saiu pelo outro. O Afonso ainda deu um conselho bem prático: para ser um historiador razoável são necessárias 4 horas de leitura por dia. Todos os calouros riram: “4 horas? Todo dia? Esse cara tá louco…” Ele ainda disse que aquela faculdade era para quem gostava de ler. Certíssimo. Se você não gosta de ler (muito), não faça História. Faculdade de História pode ser resumida em leitura e discussão de textos (muitas vezes) e prova. O desafio é conciliar essa necessidade com todas as outras demandas da vida. Muitos alunos trabalham para pagar suas contas e/ou ajudar a família. Se você não leu, vai ficar com uma bela cara de paisagem durante a aula. Fiz disciplinas em que apenas 20% dos alunos liam os textos. Quem não leu, empobreceu demais o próprio curso. Talvez esse seja um vício dos excessos de aulas expositivas a que todos fomos submetidos na educação básica. Demonstre um mínimo de interesse pelo curso. Curta a faculdade. Isso não significa tomar cerveja todo dia, mas sim aproveitá-la de verdade. Leia todos os clássicos. Leia os textos legais, os chatos, os grandes, os pequenos e não seja preguiçoso. Dá trabalho mesmo, cansa mesmo! Aproveite a era digital para ler com um dicionário online do seu lado. Pesquise o significado das palavras que você não entende. Use também os aplicativos de audiolivros. Amplie seu vocabulário e sua capacidade de abstração. Não espere entender de cara todos os textos herméticos que vão cair no seu colo. O trabalho é de formiguinha mesmo. Mais leituras, mais discussões com os professores, tudo isso vai abrir os seus horizontes e você finalmente vai entender alguma coisa de Pierre Bourdieu.

 

4. SEJA CURIOSO.

O historiador deve ser antes de tudo um curioso. Literatura, filmes, música, museus, centros culturais, séries, dança, esportes, todos esses são assuntos de historiador. Um historiador é um apaixonado pela cultura e pela arte em todas as suas formas. Seu trabalho somente ganhará maturidade a partir da mescla caótica de vários desses elementos. Historiador precisa de vivência. Seja um consumidor voraz de cultura. Cultura pop, de massa, erudita, beba em todas as fontes. Fazer isso vai ser extremamente prazeroso. E se não for, pense em uma outra profissão. Toda inspiração vem daquilo que a gente viu. Muito importante: é desejável aprender uma língua estrangeira, ela enriquece a sua formação cultural e te ajuda se você pretende fazer mestrado. O domínio de duas línguas estrangeiras será ainda mais importante se você pretende o doutorado.

 

5. ESCREVA!

Matemática, Física, Química, Biologia. Todas ficaram para trás. Parabéns, você venceu. As pteridófitas e o logaritmo estão fadados ao esquecimento. Ainda assim, o Português continua fundamental. Além de ler muito, estude gramática, faça exercícios e escreva. O domínio passa por escrever. Treino, treino, treino. 1000 palavras por dia seria ótimo. Escreva qualquer coisa, faça um diário, poesia, contos, pequenos textos. Aproveite o uso das redes sociais para treinar, logicamente evitando vícios, pq si vc escrever assim naum adianta nada. Blz? Aprenda cada vez mais a arte da revisão e edição de textos. Essa é provavelmente uma das maiores falhas na faculdade: a prática da escrita histórica. Vão te ensinar muito pouco sobre o processo da escrita. Procure livros sobre o assunto. Se der, faça cursos. Peça a opinião de outras pessoas sobre seus textos.

 

6. ENSINE!

Quando um historiador escreve um trabalho, ele pressupõe que alguém o irá ler. Quando um professor dá uma aula, ele está buscando a comunicação com alguém. Já falamos aqui sobre a arte de compartilhar. Falamos também sobre o seu futuro papel de professor. Sendo assim, entre numa sala de aula imediatamente! Só se aprende a dar aulas dando aulas. Quanto mais cedo você começar, melhor. Mais uma vez: treino, treino, treino. Para estudantes, existe uma ótima possibilidade de desenvolvimento nos pré-vestibulares comunitários. Eu fui voluntário por 4 anos nessas instituições. Fazendo isso, você está cumprindo com a função social das universidades, devolvendo um pouco para a sociedade. Aprendi demais e ajudei um pouco a outras pessoas realizarem seus objetivos. Fiz muitos amigos e vi até alunos virando novos colegas. Ensinar é estar disponível para o outro. Olhando para trás, essa experiência foi determinante na minha formação, tanto humana quanto profissional. Ajude os outros e ainda receba o benefício de se desenvolver profissionalmente. Mais uma vez: é justamente no compartilhamento que nos enriquecemos. Os pedagogos já chegaram à conclusão de que ensinar é uma das mais altas categorias de nosso processo cognitivo. Quem ensina está criando, avaliando, analisando, aplicando, compreendendo e relembrando. Ensinar enriquece tanto o aprendiz quanto o professor.

 

7. NÃO FECHE PORTAS!

Faça tudo que lhe chamarem para fazer. Mais do que isso, procure atividades para fazer. Ainda está muito cedo na sua carreira para dizer não. Esse é o período da sua vida em que você mais vai mudar e se conhecer. Seja voluntário em pré-vestibular comunitário, pesquisador de iniciação científica (com ou sem bolsa), monitor em escolas, intercambista. O intercâmbio é simplesmente uma das melhores experiências possíveis para uma pessoa. Eu não fiz e me arrependo disso. Não conheço uma só pessoa que tenha feito e voltado falando que não valeu a pena, que perdeu tempo, etc. O intercâmbio te coloca em contato com outra língua, outra cultura, novas experiências, graus de responsabilidade. O crescimento pessoal e intelectual é simplesmente imensurável.

 

Um último aviso importante: não deixe de fazer a licenciatura. Se eu te contar a quantidade de gente que encheu a boca pra dizer “Nunca darei aula!” e depois se arrependeu amargamente…

Afinal, ainda é válido fazer a faculdade de História? Numa sociedade tão utilitarista como a nossa, remar contra a maré é um bom negócio? Na era dos programadores, ainda são necessários intérpretes do passado e formadores de novas gerações? Penso que sim. Mais do que nunca. Porém, não tenha dúvidas: adentrar a História é navegar mares revoltos, mas tudo vale a pena se a alma não é pequena.

 

Daniel Accioly é historiador e professor de História.

 


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