Histórias da Ditadura

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culpa
19
jun
2020

Gêneros e feminismos | Para além da culpa


Tinha planejado começar esta coluna com outro tema. Nesses tempos embotados, um sentido de urgência, porém, tornou quase todo o resto desimportante. Enquanto me preparo para escrever, leio os jornais e vejo que o sonho genocida do ex-deputado que virou presidente se concretiza, por motivo outro, mas com precisão macabra: o Brasil registra, em 6 de junho de 2020, 35.211 mortes por Covid-19.

Os números – assim, em absoluto – descarnam, esquecem cada um dos lutos, dissipam em uma névoa os nomes, os rostos. As cores. Em números, as tais comorbidades, fragilidades prévias dos corpos, podem parecer contingências. Mas não há nada de fortuito, se essa asfixia toma, sistematicamente, corpos negros e corpos que se deslocam das periferias como seus alvos preferenciais. “O diagnóstico é político e não médico”, na formulação de Debora Diniz.

A distribuição desigual das vulnerabilidades e das oportunidades de viver e morrer, bem anterior à pandemia, se acirrou com ela. Os corpos já expostos ao que Achille Mbembe chama de brutalismo – processo de “fraturação”, fissura, perfuração, que entrega a matéria viva dos sujeitos ao “esgotamento físico e a todo tipo de risco biológico” – encontraram em um novo vírus um obstáculo a mais ao exercício do direito universal à respiração. São corpos negros e periféricos os que mais se arriscam, em meio à maior crise sanitária do século, para não terem interrompidos os precários direitos de comer, de morar.

De casa, distantes, protegidos, corpos brancos como o meu acompanham uma torrente de notícias sobre aqueles que perecem, que se lançam à rua e ao risco para sobreviver e não conseguem, ou que, mesmo em casa, não têm nela abrigo suficiente. Aqueles a quem falta ar, aqueles que não tiveram a mesma sorte que pessoas como eu. Sorte? Como destino ou fortuna? Ou como condição e privilégio? Porque não é o acaso que direciona balas para colidirem com corpos negros, que posiciona joelhos brancos em pescoços negros, transformando a violência racial em modalidade de síndrome respiratória aguda grave, como observou Sueli Carneiro. Não é mero infortúnio a negligência que conduz à morte um pequeno corpo negro.

Se escrevi que números despersonificam, também se prestam ao esvaziamento os pronomes que usei logo acima. Falo, então, de nomes próprios: Mirtes Renata Souza e seu filho, Miguel Otávio Santana da Silva. Mirtes, uma trabalhadora doméstica negra, trabalhadora do cuidado, corpo em trânsito, corpo em risco, a quem o direito de isolamento social foi negado. Negado pelo Estado, que deveria, taxativamente, retirar essa categoria profissional da lista de atividades essenciais durante a pandemia e garantir sua subsistência. E pela patroa, Sarí Gaspar Côrte Real, cor e sobrenome que presentificam nosso passado colonial. Sob a responsabilidade de Sarí, cujas unhas uma manicure pintava, enquanto Mirtes passeava com o cachorro, Miguel, procurando a mãe, entrou em um elevador de serviço e, depois, caiu do nono andar. Miguel, cinco anos, sonhos ao chão. Sarí, de volta à casa, após uma fiança de 20 mil reais, responderá em liberdade por homicídio culposo (quando não há intenção de matar). Um Silva e uma Côrte Real. Narro como um conto horripilante? Ou o Brasil que é brutal de mais, literal de mais, terra onde as metáforas se rendem ao peso do real?

Fricção, não ficção. Além de dor, é de tensionamento, resistência, que a história da população negra se fez, se faz neste país. É um constante estar nas ruas, para defender o direito à vida negra contra a desumanização. Uma luta cotidiana para erodir o mito da democracia racial, castelo de areia para apaziguar consciências brancas e dissimular o racismo estrutural. Enfim, um trabalho exaustivo, redobrado, como ouvi certa vez de uma professora negra, quando se pede aos sujeitos negros que tenham paciência e tolerância para explicar aos sujeitos brancos o que eles não entendem, ou não querem entender.

O que brancas/os como eu costumamos não entender? Do que nos esquivamos? De uma professora branca ouvi, há poucos dias, que se dar conta da própria branquitude era como perceber-se no existir de um homem branco. Brancas/os desviamo-nos de confrontar nossa inscrição violenta no mundo. Com nossas palavras-facas. Com nossos silêncios cúmplices. Atravessamos o quanto podemos a calçada, para adiarmos a descoberta de um “eu” perpetrador. E o processo desconfortável de desarranjo da consciência, da nossa autoimagem, quando ocorre – se ocorre –, não é fruto de uma autocrítica, como bem lembrou Debora Diniz. Essa desestabilização do ego acontece por força de interpelações, dá-se de fora para dentro, pelas urgências do mundo.

Branquitude culpada, no entanto, não basta, não serve. É o que argumentou Djamila Ribeiro, em sua coluna de 4 de junho, na Folha de S. Paulo. Também sobre o tema, Grada Kilomba, evocando Paul Gilroy, discute em Memórias da plantação os “mecanismos distintos de defesa do ego pelos quais o sujeito branco passa a fim de ser capaz de ‘ouvir’”, ou seja, de se tornar consciente de sua branquitude. Primeiro a negação, depois a vergonha, a culpa. Etapas insuficientes, vaidade atormentada, maquinações do ego, que demandam passos além: o reconhecimento e a reparação. Apenas com a combinação de uma consciência alerta e de ações estruturais é possível reparar o mal provocado pelo racismo. É preciso às/aos brancas/os aprendermos a ouvir. Desfazermo-nos das máscaras de silêncio que tentamos impor aos sujeitos negros. Identificarmos a racialização branca, em vez de camuflá-la como lugar de enunciação universal. Aprofundarmos uma socialização antirracista e, fundamentalmente, abdicar de privilégios, espoliações de direitos de outros indivíduos e coletividades, que tomamos – não inocentemente – como prerrogativas.

Voltando à privação de ar, aos sufocados pelo vírus, pela violência policial, pela barbárie colonial, vou terminando esta coluna com um trecho de Mbembe, no ensaio O direito universal à respiração:

Antes deste vírus, a humanidade já estava ameaçada de asfixia. Se houver guerra, portanto, ela não será contra o vírus em particular, mas contra tudo o que condena a maior parte da humanidade à cessação prematura da respiração, tudo o que ataca sobretudo as vias respiratórias, tudo que, durante a longa duração do capitalismo, terá reservado a segmentos de populações ou raças inteiras, submetidas a uma respiração difícil e ofegante, uma vida penosa.


Digo de outro modo: batalhemos por reparação, por mudanças estruturais. É o que dizia, também de outro modo, uma menina negra de olhos flamejantes, em passeata nos Estados Unidos: “sem justiça, não há paz”. Mas que seus pequeninos ombros não precisem carregar todo o peso do mundo, que lhe seja garantido, além do direito universal à respiração, o direito ao lúdico, à infância.

Nathália Sanglard é historiadora e colunista do site História da Ditadura.



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