Histórias da Ditadura

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Curió
06
Maio
2020

Curió, Bolsonaro e o “bastão” da defesa pública da ditadura


Ao receber Sebastião Curió no Palácio do Planalto ontem, Bolsonaro talvez tenha se dado conta de que o ato parecia simbolizar a concretização de um desejo antigo do coronel responsável por dezenas de mortes nas matas do Araguaia. Em 1986, quando o nome do atual presidente veio a público pela primeira vez por meio de um artigo de opinião na revista Veja, Curió, à época deputado federal pelo PDS, identificou naquele jovem e indisciplinado capitão um futuro promissor. E decidiu, então, enviar uma carta a Bolsonaro para lhe “passar o bastão”.

Localizada nos acervos do Serviço Nacional de Informações (SNI), hoje custodiados no Arquivo Nacional, a carta de Curió para Bolsonaro parece profética lida à luz da conjuntura recente. Chamando Bolsonaro de “jovem companheiro”, Curió iniciou a missiva valorizando sua própria trajetória militar: “como capitão […] combati os comunistas nas ruas dos grandes centros urbanos e nas matas do Araguaia”.

Falou, então, de como “o destino” também havia lhe reservado “um assento nesta Casa, o Parlamento Nacional”, introduzindo o tema central da carta. Para Curió, Bolsonaro poderia representar, no futuro, aquilo que ele mesmo acreditava ser: um defensor da “integridade Pátria” contra “a maior das ditaduras do mundo – a comunista”. Era esse o “bastão pesado, manchado por suor, sangue e lágrimas”, que ele passava ao jovem capitão.



Na prática, tal “bastão” significava assumir uma postura de defesa pública da ditadura que, naquele ano de 1986, recém chegava ao fim. Esse vinha sendo um dos principais papeis desempenhados por Curió desde que fora eleito deputado em 1982, em campanha articulada pelo então chefe do SNI, Newton Cruz.

Mas naquele ano de 1986, Curió já se mostrava insatisfeito com os rumos do país no pós-ditadura, pois entendia que a anistia e a abertura haviam permitido que os “terroristas” voltassem à vida política. Demonstrava, assim, pertencer àquele rol de militares para os quais até mesmo a limitadíssima “distensão” controlada pelo próprio regime era lida como “anarquia”.

Apesar de sua visão de mundo torpe, o major via com clareza que Bolsonaro era um dos seus. E, nisso, tinha razão. O futuro presidente, assim como o então deputado, nunca foi um daqueles militares conservadores que negam a tortura em público para incentivá-la às escondidas, a fim de manter pelo menos uma aparência de civilidade. Bolsonaro é da mesma categoria que Ustra e Curió. É dos que defendem publicamente a tortura, o assassinato e o desaparecimento de corpos.

Por perceber essa característica de Bolsonaro, Curió lançava nele sua esperança. E lembrava: “quando falha a diplomacia, as armas decidem”.



Na última segunda-feira, dia 4 de maio, talvez o ex-deputado e o atual presidente tenham conversado sobre a carta. Não se sabe exatamente qual foi o papel dela – e do próprio Curió – na trajetória de Bolsonaro. Tampouco o quanto a homenagem de alguém que decerto o capitão via como um ídolo pesou para que ele se decidisse pela vida política.

Se eles rememoraram essa troca de mensagens de décadas atrás, pode ser que tenham visto as linhas de Curió quase como uma profecia. E, de fato, a carta de um dos principais assassinos do Araguaia foi profética. Bolsonaro assumiu com afinco o papel de principal defensor da ditadura no debate público. E o fez ao longo das quase três décadas em que ocupou o lugar de Curió na Câmara dos Deputados. Sem ser incomodado ou responsabilizado por frases como “o erro da ditadura foi torturar e não matar”, Bolsonaro seguiu.

De início, como um bufão, uma figura caricata. Aos poucos, foi amplificando sua voz, ganhando espaço na mídia, apoio dos militares da reserva e da ativa, tornando-se a voz de outros setores da sociedade saudosistas dos anos de “ordem e segurança” da ditadura. Do bastão que Curió lhe passara, Bolsonaro fez-se bastião da memória de apologia à tortura e ao terrorismo de Estado. E, assim, elegeu-se presidente da República, chegando mais longe do que o assassino das matas do Araguaia jamais sonhou que o capitão chegaria.

No entanto, é preciso dizer que a carta de Curió continha, em si mesmo, o germe da realização da profecia que carregava. O próprio fato de Curió e Bolsonaro atuarem livremente – sem serem responsabilizados por seus atos do passado ou por suas falas no presente – indicava que eles seriam vitoriosos em sua luta por afirmar uma memória de apologia à ditadura. Afinal, todos vimos quem era Bolsonaro. Curió viu e avisou. Mas nós o deixamos crescer, criar seus tentáculos e chegar onde chegou: no Palácio do Planalto, ao lado de Curió.

Lucas Pedretti é historiador e colunista do site História da Ditadura.

A íntegra da carta pode ser acessada em: Arquivo Nacional


Crédito da imagem destacada: Reprodução Instagram