Histórias da Ditadura

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08
jul
2020

120 batimentos por minuto – Doenças e História


Desde o começo da pandemia de coronavírus, vários historiadores e historiadoras das doenças, entre os quais me incluo, têm recebido o questionamento a respeito do que as epidemias do passado têm a nos ensinar sobre tudo o que estamos vivendo. A resposta mais simples que tenho dado é: nada. A historiografia já nos desobrigou da acepção de história como mestra da vida. Contudo, o fazer historiográfico também me ensinou que a história é feita de perguntas, e de alguma forma essa pergunta tem ecoado na minha cabeça, trazendo mais perguntas baseadas em experiências epidêmicas do passado. O objetivo desse texto é compartilhar algumas dessas reflexões.

“Escrever e pensar uma epidemia é muito mais fácil do que vivê-la” (Armus, 2020). A frase do historiador Diego Armus é uma síntese simples e certeira sobre o inapreensível de nossa experiência. O olhar para o passado possui o privilégio da seleção que a vida em tempo real nos retira. A ordem do dia é sempre mais complexa do que nosso ofício dá conta. No entanto, ainda que as ferramentas não sejam nem de longe suficientes para explicar o que vivemos, elas ajudam de alguma forma.

Uma dessas ferramentas é saber que cada acontecimento é, além de único, situado no tempo e no espaço. Mesmo que comparemos dois processos muito semelhantes, cada um manterá suas singularidades, o que nos faz saber que uma epidemia do passado certamente foi diferente do que estamos vivendo agora – e também entender por que em alguns lugares ela felizmente já acabou enquanto continuamos na eterna curva crescente de casos. Falando das doenças especificamente, é importante a reflexão clássica de que a experiência do adoecimento é tão individual quanto social (Augé, 1987 apud Herzlich, 2004), ou seja, um processo profundamente social que mexe com importantes subjetividades, em que coadunam, por exemplo, luto, morte, neoliberalismo, medo, desigualdade social etc.

A arte costuma ser mais eficaz do que a história para produzir narrativas. Talvez por isso, quando penso nos inenarráveis e inexplicáveis eventos que vivemos, o filme 120 batimentos por minuto (120 battements par minute, França, 2017) me vem à cabeça. A trama se passa no começo dos anos 1990, já na segunda década da epidemia de HIV/Aids, e aborda a atuação do Act up Paris, filial francesa do AIDS Coalition to Unleash Power (Act Up), uma das primeiras organizações coletivas de combate à Aids, fundada em 1987 em Nova York.[1]

Fonte: aidsactionnow.org


O filme alterna suas cenas entre plenárias noturnas, onde eram tomadas as decisões (com muito debate e conflitos), e suas efetivas ações. Nos intervalos da intensa ação política, os personagens se divertem, vão a festas, usam drogas, fazem sexo, aprofundam suas relações de amor e amizade dando sentido ao título do filme: a urgência de viver acelera os batimentos. Voltarei ao título do filme, mas gostaria de falar antes de alguns pontos de reflexão trazidos pela história.

O primeiro diz respeito à organização política em torno da doença. No caso específico da Aids, a moralização e a homofobia contribuíram bastante para que a doença fosse negligenciada, de modo que a mobilização de pessoas afetadas pela doença foi primordial para a cobrança de respostas públicas – dos governos, da medicina, da indústria farmacêutica etc. – diante do quadro epidêmico. No Brasil, organizações não governamentais como GAPA, ABIA, Grupo Pela Vidda, Grupo Arco Íris etc., assim como o Act Up, retratado no filme, tiveram participação fundamental na luta contra a Aids.[2]

Na trama francesa, entre as importantes ações executadas pelo grupo estão a produção e a divulgação de materiais de conscientização e prevenção; acompanhamento de pesquisas e realização de protestos junto a laboratórios e empresas farmacêuticas para exigir a transparência na divulgação dos resultados de pesquisas em andamento, bem como para cobrar a inserção de doentes em testes de medicamentos; estudo do funcionamento da doença para compreender ao máximo a evolução do conhecimento médico-científico; realização de protestos para que os mortos pela epidemia não fossem esquecidos no reforço da emblemática palavra de ordem “Silêncio = morte” etc.

Diante do descaso e da negação da gravidade da epidemia, a organização coletiva adquire força política. Óbvio que a rapidez com que a covid acomete suas vítimas e o próprio quadro da doença dificultam a mobilização dos doentes. Além disso, o isolamento social como única estratégia eficaz de prevenção dificulta a organização coletiva trazida pelo filme. Contudo, a noção de afetados pela doença trazida pelo filme nos ajuda a lembrar que não são apenas os doentes os atingidos por uma epidemia. Familiares das vítimas, pessoas com outras condições de saúde que perdem acesso aos serviços de assistência, pessoas que desenvolvem outras condições de saúde, como depressão, ansiedade etc. ou que têm suas condições de vida pioradas no contexto epidêmico são afetados pela doença. Isto nos ajuda a lembrar que a epidemia, ainda que de formas diferentes, afeta a todos e a todas coletivamente, embora diante da ausência de respostas públicas tenhamos que recorrer a táticas supostamente individuais para prevenção.

Cena do filme 120 batimentos por minuto (Divulgação)


O segundo ponto de reflexão vem de um trecho onde Sean, um dos protagonistas, conta a seu parceiro como se deu sua exposição ao vírus. A cena, extremamente bonita, substitui a culpa, elemento bastante presente em uma doença moralizada como a aids, pela responsabilidade que, nas palavras de Sean, não pode ser dividida, os envolvidos sempre possuem cem por cento de responsabilidade. A diferença pode parecer sutil, mas não é. A culpa tende a justamente individualizar responsabilidades que são compartilhadas, ainda que em diferentes escalas. A lembrança é difícil em tempos tão tenebrosos para o pensamento crítico, mas responsabilidade remete à construção coletiva das estruturas de poder e organização social, bem como os limites da concepção de democracia representativa, que por si só nos retira a participação constante na tomada de decisões em sociedade.

No caso da aids, é necessária para descortinar um tanto dos tabus que cercam a sexualidade, principalmente quando ela foge ao padrão heteronormativo. No caso atual, serve para pensarmos que são muitas as responsabilidades envolvidas, na esfera individual e coletiva, quando pensamos nos gradientes de exposição ao risco e de acesso à saúde como direito.

Por fim, a reflexão mais necessária de 120 batimentos por minuto diz respeito à luta por uma vida plena mesmo diante da ameaça de morte. Praticamente todas as cenas de protestos e ações políticas terminam com festas onde as personagens se divertem, recusando-se a encarar o luto quase cotidiano como sinônimo de derrota e tristeza. A politização da morte torna-se uma maneira de lutar para que elas não tenham ocorrido em vão. Os personagens, que representam tantos que assim o fizeram nos primeiros anos da epidemia de HIV/Aids, se recusam a aceitar a sobrevida, lutando por qualidade de vida, por alegria, prazer, afeto. No filme, a vida e a morte são políticas, mas são também essa substância indescritível que no fim das contas é o que nos dá sentido, mais do que qualquer análise.

Diante de tanto descaso; do genocídio que assassina crianças faveladas em casa ou na casa dos patrões; de mães e mulheres sobrecarregadas pelo acúmulo de jornadas e/ou pela violência doméstica; da precarização do trabalho escancarada entre os mais vulneráveis que nunca puderam fazer isolamento; de uma classe média adoecida física e mentalmente pelo trabalho remoto; das desigualdades inúmeras no acesso aos serviços de saúde; do desrespeito com bem mais de sessenta mil pessoas mortas; diante do luto distante e negado; da hierarquia de vidas na lógica da necropolítica; diante de tudo a gente até esquece que o que nos move não é uma sobrevida adoecida. É a vida em seu sentido pleno, com prazer, afeto e alegria, para que não venham mais mortes e para que os que se foram não tenham morrido em vão.

Eliza Vianna é historiadora e colunista do site História da Ditadura.



Notas:

[1] Cabe observar que, no Brasil, a primeira organização criada para o combate à Aids foi o Grupo de Apoio à Prevenção à Aids (GAPA), foi fundado em 1985 em São Paulo.

[2] Uma importante análise sobre a relação entre o movimento LGBT e o ativismo da Aids está em LIMA, 2019.


Referências:

ARMUS, Diego. ¿Cómo se Narra el Coronavirus? Incertidumbres e Historias Globales. En Revista Ñ (Buenos Aires, abril 22, 2020). Disponível em https://www.clarin.com/revista-enie/ideas/-narra-coronavirus-incertidumbres-historias-globales_0_ot977nECw.html Acesso em 05/07/2020

HERZLICH, C. Saúde e doença no início do século XXI: entre a experiência privada e a esfera pública. Physis: revista de saúde coletiva, Rio de Janeiro, v. 14, n. 2, p. 383-394, 2004.

LIMA, Ana Cláudia Teixeira de. O câncer gay e o orgulho gay: a experiência da AIDS para o movimento LGBT da cidade do Rio de Janeiro. Dissertação (Mestrado em História das Ciências e da Saúde) – Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, Rio de Janeiro, 2019.