Histórias da Ditadura

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exilados
21
set
2019

HD nas universidades | Exilados brasileiros em Portugal


Tese: Exílio em Português: política e vivencias de brasileiros em Portugal (1974-1982)

Autor: Rodrigo Pezzonia (Lattes | Tese)

Orientador: Francisco Carlos Palomanes Martinho

Instituição: Universidade de São Paulo, 2017

1. Qual a questão central da sua pesquisa?

A tese dois objetivos básicos: além de tratar das vivências dos exilados brasileiros em Portugal após a Revolução dos Cravos, também tem como objetivo entender como os governos brasileiro e português, a partir da questão do exílio, se relacionavam a partir do viés da política externa.

2. Resumo da pesquisa

O ano de 1974 foi de mudanças tanto para Portugal quanto para o Brasil. Em 25 de abril, Portugal, por meio de um golpe de Estado levado a cabo por militares de esquerda, desfazia-se de uma ditadura que quase amargava o cinquentenário, vivendo-se então a euforia de um processo revolucionário em que colocava na ordem do dia a esperança do povo português em sair do estado de repressão, guerra colonial e silêncio. No entanto, o Brasil, naquele mesmo mês de abril, já havia completado seu décimo aniversário sob a égide de um regime ditatorial militar e, naquele momento, alterava o principal ator do Poder Executivo que, muito timidamente, indicava a possibilidade para o ocaso do regime militar de direita, a partir de uma nova agenda que promoveria uma “abertura lenta, gradual e segura”. Para as oposições brasileiras, ambos os fatos eram extremamente relevantes: por um lado, a oposição que ainda permanecia no Brasil assinalava, mesmo que de forma sutil e desconfiada, a esperança de novos rumos para a vida política nacional. Por outro, a Revolução dos Cravos adquiria, para os que estavam vivendo no exterior, expectativas de novas experiências em um ambiente revolucionário que não haviam conseguido alcançar no outro lado do oceano. Nesta tese, é este segundo grupo que será enfocado, ou seja, os brasileiros que fizeram de Portugal sua terra de acolhida a partir daquele abril de 1974. Evidentemente, haverá espaço para tratarmos das relações institucionais entre os governos português e brasileiro, que servirão de pano de fundo para este trabalho, onde serão evidenciadas as suas disparidades ideológicas e interesses comuns. Mas, nosso objetivo com este texto é tratar das vivencias políticas entre militantes brasileiros exilados junto aos portugueses, mas sem deixar de lado as relações humanas entre os indivíduos que possuíam história, língua e cultura comuns. Identificamos Portugal como sendo um dos campos férteis para os debates das organizações no exílio, em especial ao que se refere a reafirmação ou abandono das posições pela manutenção do modelo revolucionário de luta, assim como pelas discussões referentes à reestruturação e acomodação partidária no que viria após o retorno. Desta forma, o trabalho que ora apresentamos, tem por objetivo, a partir do estudo do exílio em Portugal, trazer à tona as trajetórias, rupturas, continuações e influências deste fenômeno para os brasileiros e para o Brasil no processo de transição.

3. Quais foram suas principais conclusões?

A tese se dedica, a princípio, à compreensão das vivências dos exilados brasileiros em Portugal. Mas ela vem mostrar, acima de tudo, que os brasileiros tanto foram influenciados pela revolução portuguesa, quanto a influenciaram. Em Portugal, brasileiros lutaram pela manutenção da revolução, inclusive de armas na mão, e, por outro lado, aprenderam lá sobre a possibilidade de uma resistência democrática e pacífica à ditadura brasileira a partir não somente de um movimento autocritico, mas também por influência da social democracia europeia que florescia naquela segunda metade da década de 1970. De Portugal, surgem quadros que fariam parte da reestruturação partidária brasileira dos anos 80, começando por Brizola e sua influência junto aos jovens ex-militantes da esquerda armada que lá estavam exilados. Além disso, outro ponto importante são as relações entre os governos brasileiro e português, sendo de um lado uma ditadura militar à direita e do outro um governo revolucionário de esquerda. Mostrando que os países, mesmo separados ideologicamente se relacionavam, na grande maioria das vezes, de maneira amistosa e respeitosa. O que difere, e muito, dos tempos atuais.

4. Referências

Denise Rollemberg. Exílio: Entre Raízes e Radares. Rio de Janeiro: Record, 1999.

Américo Freire. Ecos da Estação Lisboa: O exílio das esquerdas brasileiras em Portugal. In: Sociologia, Problemas e Práticas. N° 64, 2010, p. 37-57.

Américo Freire; MARTINHO, Francisco Carlos Palomanes Martinho. Lembrar Abril: as historiografias brasileira e portuguesa e o problema da transição para a democracia. História e Historiografia. Ouro Preto. Nº10. Dez. 2012, 124-145.

Rodrigo Pezzonia possui graduação em História pela UNESP-Assis (2004), mestrado em Sociologia pela UNICAMP (2011), doutorado em História Social pela USP (2017) e pós-doutorado junto ao Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP. Atuou como investigador visitante junto ao Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e é autor do livro “Guarda um Cravo para Mim: os exilados brasileiros em Portugal (Alameda, 2019).

Caso queira divulgar sua pesquisa sobre temas relacionados às ditaduras latino-americanas do século XX ou sobre questões do Brasil contemporâneo, não necessariamente na área de História, escreva para o email: hd@historiadaditadura.com.br


Crédito da imagem destacada:
Detalhe da capa do livro Guarda um Cravo para Mim: os exilados brasileiros em Portugal (Alameda, 2019).