Histórias da Ditadura

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ideológica
20
jul
2020

A farda ideológica


Nas análises sobre a presidência de Jair Bolsonaro veiculadas na grande imprensa, há uma perspectiva que aparece recorrentemente, segundo a qual o governo federal poderia ser dividido em “alas”. Uma delas, a mais histriônica, seria a “ala ideológica” ou “ala olavista” – em referência a Olavo de Carvalho, figura central na construção da visão de mundo do bolsonarismo. Em contraposição à “ala ideológica”, existiriam pelo menos outras duas: a econômica e a militar. Para aqueles que advogam a existência de tais divisões, os ministros e assessores vinculados a estas duas alas não atuariam guiados pela “ideologia”, mas sim pela “técnica”. Neste texto, gostaria de apontar alguns elementos que julgo importantes para aprofundarmos a análise crítica sobre essas clivagens internas ao governo. Foco no caso dos militares, apresentando algumas pontes entre integrantes das Forças Armadas e a figura de Olavo de Carvalho.

Em 1991, pesquisadores do CPDOC/FGV deram início a um projeto cujo objetivo era ouvir e registrar as memórias de militares sobre o regime que perdurou entre 1964 e 1985. A proposta deu origem a três livros organizados por Celso Castro, Gláucio Ary Dillon Soares e Maria Celina D’Araújo bastante conhecidos dos pesquisadores da ditadura: Visões do golpe, Anos de chumbo e A volta aos quarteis. Os dois primeiros foram publicados em 1994; o terceiro, em 1995. Na introdução ao segundo volume, dedicado à memória dos militares sobre as práticas repressivas do regime, os organizadores da coleção identificam que havia uma percepção compartilhada entre os entrevistados de que “se [os militares] venceram a guerra contra as organizações da esquerda revolucionária, foram derrotados na luta pela memória histórica do período”. Para Castro, Soares e D’Araújo, era “importante observar que muitos militares se ‘queixam’ justamente de não se ter apresentado uma versão das Forças Armadas que fosse socialmente acatada como legítima”.

É importante notar o detalhe desta última formulação. A questão não é tanto que as Forças Armadas não tenham apresentado sua versão, mas sim que esta não teria sido socialmente aceita de forma ampla. De fato, desde meados dos anos 1970, quando começavam a ganhar força as denúncias de crimes cometidos pelos militares durante a ditadura, foi sendo gestado um contradiscurso segundo o qual tais manifestações eram apenas tentativas de desmoralização das Forças Armadas, com o intuito final de desestabilização do regime para a implementação do socialismo.

Esse argumento circulou com intensidade entre os órgãos de informação do regime, até que em 1985, o Centro de Informações do Exército (CIE) deu início a um projeto voltado para consolidar uma narrativa oficial das Forças Armadas sobre o golpe e a ditadura. Tratava-se do projeto Orvil, cujo resultado fundamental foi um extenso documento textual intitulado As tentativas de tomada do poder, que circulou de maneira restrita entre os integrantes daqueles órgãos. Em 2007 o material foi publicado como livro.

O argumento central do Orvil é que as esquerdas teriam promovido três tentativas de “tomada do poder” ao longo da história brasileira: 1) em 1935, na chamada “Intentona Comunista”; 2) no início da década de 1960, com João Goulart; e 3) em fins dos anos 1960 e início de 1970 com a guerrilha urbana e rural. Todas teriam sido interrompidas pelas Forças Armadas, permanentemente mobilizadas para defender a nação de seus inimigos internos e externos.

No entanto, estaria em curso, desde a derrota da luta armada, uma quarta tentativa de “tomada do poder”. A marca desse novo momento seria a mudança de estratégia do “Movimento Comunista Internacional”, que derrotado militarmente teria passado a adotar o “trabalho de massas”. Baseada em estratégias de propaganda, essa nova forma de luta política das esquerdas teria como objetivo promover o descrédito público das Forças Armadas, passo necessário para a posterior “tomada do poder”.


Por um lado, isso se daria por meio de difamações, calúnias e mentiras ancoradas em falsas denúncias de violações aos direitos humanos – segundo o Orvil, a exploração do “suicídio” de Vladimir Herzog seria um caso paradigmático dessa nova estratégia. Por outro, tratava-se de promover uma nova história da luta armada, na qual os militantes de esquerda – “terroristas”, na visão dos militares – estariam reconstruindo sua imagem como defensores da democracia. Assim, conclui o documento que: “enquanto os insurgentes tiveram sempre quem lhes cantasse as façanhas em que foram vitoriosos, os mártires, os legalistas calaram-se e amargaram os apodos injuriosos”.

O documento de quase mil páginas oferecia a leitura das Forças Armadas sobre a ditadura. Faltava, agora, obter sua legitimação social (nos termos dos pesquisadores do CPDOC); ou, nas palavras do próprio Orvil, alguém que lhes cantasse a façanha. 

No dia 19 de janeiro de 1999, o jornal O Globo publicou, em sua seção de colunas de opinião, um artigo longo, intitulado A história oficial de 1964. Em síntese, o texto argumentava que o regime iniciado com a deposição de João Goulart seria um fenômeno muito particular na história, pois sua marca teria sido evitar o “banho de sangue” que se desenhava no horizonte do Brasil no contexto pré-1964, já que havia um golpe de esquerda em curso. Tendo deixado “apenas” cerca de três centenas de vítimas ao longo de duas décadas – número que seria incomparável com as cifras de mortos em ditaduras comunistas –, o regime militar teria sido essencialmente brando. Na verdade, tão brando que teria criado as condições para a consolidação de uma “historiografia oficial”, de natureza “revanchista e incriminatória”. Isso porque, nos termos do autor, depois de ter sido “inutilizada para qualquer ação armada”, a esquerda teria se refugiado “nas universidades, nos jornais e no movimento editorial, instalando aí sua principal trincheira”. E assim, segue o texto:

Deixados à vontade no seu feudo intelectual, os derrotados de 1964 obtiveram assim uma vingança literária, monopolizando a indústria das interpretações do fato consumado. E, quando a ditadura se desfez por mero cansaço, a esquerda, intoxicada de Gramsci, já tinha tomado consciência das vantagens políticas da hegemonia cultural, e apegou-se com redobrada sanha ao seu monopólio do passado histórico. É por isso que a literatura sobre o regime militar, em vez de se tornar mais serena e objetiva com a passagem dos anos, tanto mais assume o tom de polêmica e denúncia quanto mais os fatos se tornam distantes e os personagens desaparecem nas brumas do tempo. (O Globo, 19/01/1999)


Como conclusão, o artigo publicado em O Globo colocava a seguinte questão: “tendo em vista o preço modesto que esta nação pagou, em vidas humanas (…) não estaria na hora de repensar a Revolução de 1964 e remover a pesada crosta de slogans pejorativos que ainda encobre a sua realidade histórica?”.

Apesar do tom, o texto não era assinado por um militar da reserva que participara das ações repressivas, mas sim por um autodenominado filósofo que vinha se tornando célebre por assumir posições consideradas “polêmicas” no debate público. Chamava-se Olavo de Carvalho. Finalmente, os militares acharam alguém que lhes cantasse as façanhas.

Nas palavras do próprio Olavo de Carvalho, aquele artigo lhe trouxe um “presente inesperado”: a “amizade” dos militares. De fato, em março daquele ano de 1999, na marca dos 35 do golpe de 1964, o “filósofo” foi convidado pelo coronel Luís Paulo Macedo Carvalho, presidente do Instituto de História e Geografia Militar, e pelo general Hélio Ibiapina Lima, presidente do Clube Militar, a discursar em ambas as instituições. Essa história foi o próprio Olavo que publicou como uma nota introdutória à transcrição do discurso proferido no Clube Militar postado em seu site.

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Com o título “reparando uma injustiça pessoal”, Carvalho repetiu, na ocasião, em larga medida, os argumentos de seu artigo para O Globo. No entanto, aprimorou o tom da fala, conferindo a ela um aspecto de confissão pessoal de um comunista arrependido, cujas percepções sobre o passado teriam mudado ao descobrir a “verdade” sobre a “Revolução de 1964”. No final de sua confissão, Olavo de Carvalho conclamava a plateia de militares da reserva: “não se envergonhem da sua obra”.

Foi amor à primeira vista. Não tardou para que o “filósofo” fosse agraciado com a maior honraria militar: a medalha do Pacificador, concedida a ele em julho daquele mesmo ano.

Mas Olavo não apenas se apresentou para ser a figura – com crescente penetração no debate público, deve-se notar – disposta a cantar as façanhas da Forças Armadas. Ele conferiu um substrato “teórico” para explicar aquele que era o ressentimento central dos fardados – a sua suposta derrota nas batalhas de memória sobre o período. Ao apresentar a noção de “guerra cultural gramsciana”, o “filósofo” forneceu aos militares o elemento que faltava para a compreensão da quarta tentativa de “tomada do poder”.

A partir daí, desenvolveu-se uma história de imbricação entre Olavo de Carvalho e os militares, que está para ser mais bem aprofundada. Alguns pesquisadores têm se dedicado ao tema, como Maud Chirio, João Cezar de Castro Rocha, Eduardo Costa Pinto e Piero Leirner. A jornalista de política Maria Cristina Fernandes também dedicou uma coluna a essa relação. O certo é que, ao longo dos anos 2000, parte significativa dos militares da reserva e da ativa passou a ter em Olavo e em suas ideias uma referência fundamental para ler a conjuntura política e estruturar suas visões de mundo. As referências ao “filósofo” e as reproduções de seus textos são abundantes nas páginas de militares da reserva voltadas para apresentar versões apologéticas da ditadura, como naquela criada por Brilhante Ustra, no blog de Lício Maciel ou na do Grupo Inconfidência, isso para ficar em apenas alguns exemplos.

A suposta ruptura de Olavo com alguns militares ocorrida no primeiro ano do governo Bolsonaro, cujo ápice foi sua publicação xingando o ex-comandante das Forças Armadas Eduardo Villas Boas, mereceria uma explicação à parte. De todo modo, ela não invalida o argumento que este texto tentou esboçar. Do mesmo modo, a existência dessa relação antiga entre o “filósofo” e os fardados não quer dizer que sejam inexistentes as tensões entre diferentes setores da coalizão que sustenta Bolsonaro – algo, aliás, presente em qualquer governo. Nem tampouco que os militares possuam um pensamento homogêneo – o que não ocorre nem entre os da ativa, nem na relação da ativa com a reserva.

No entanto, parece haver aí uma ampla e importante agenda de pesquisa, que pode nos auxiliar a entender melhor as ideias e visões de mundo que informam a atuação dos militares hoje. Algumas das questões que seguem em aberto são: a influência do olavismo entre os integrantes das Forças Armadas ocorreu prioritariamente entre militares da reserva ou chegou também à formação de jovens oficiais? Por meio de quais atores, redes, instituições e organizações o olavismo penetrou nas Forças Armadas e quais espaços e oportunidades ele encontrou para se desenvolver? Quais são as relações mais amplas entre a chamada nova direita – em larga medida influenciada por Olavo de Carvalho – e os militares? Esses parecem temas imprescindíveis de serem enfrentados para superarmos a visão simplista de que os fardados do governo agem movidos pela “técnica”, e não pela “ideologia”.

Lucas Pedretti é historiador e colunista do site História da Ditadura.



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