Histórias da Ditadura

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17
jun
2020

História através da lente | Fotografia e movimentos por direitos civis nos Estados Unidos dos anos 1960: a foto de Malcolm X por Don Charles


No campo da matemática, é recorrente o uso de letras para representar incógnitas dentro das equações, sendo que a mais utilizada dentre as 26 integrantes do alfabeto é o “x”. Segundo Terry Moore, diretor do fórum The Radius Foundation, uma teoria possível era a existência da palavra árabe al-shalan, “desconhecido”. A apropriação dos estudos matemáticos árabes pelos ibéricos produziu uma mudança linguística, já que, diante da inexistência de som correspondente ao “sh” árabe, a tradução atribuiu-lhe o som de “x”[i]. Portanto, para Moore os usos da letra em equações resultam da dificuldade de compreensão da língua árabe por parte dos europeus. Números desconhecidos eram ilustrados com o “x”.

Apesar da ausência de evidências documentais que comprovem a teoria de Moore, a suposição apresentada indica como a letra foi usada para designar o que não temos conhecimento no momento. O uso do “x” como sobrenome por membros da Nação do Islã[ii] tinha significado semelhante ao indicar a própria noção de desconhecimento de suas raízes africanas, de suas referências culturais e as de seu povo. A partir do processo de imigração forçada, da escravidão e das múltiplas formas de violência cultural sofridas, os negros estadunidenses teriam suas origens como uma grande incógnita. O “x” simbolizava seu verdadeiro nome, desconhecido, negado há muito pelos homens brancos. Dentre os integrantes mais conhecidos desse grupo estava Malcolm X, militante pelos direitos civis dos negros estadunidenses.

Nascido em 1925, no Nebraska, Malcolm Little era o quarto filho do casal Earl e Louise. Desde a infância, Malcolm percebeu como o racismo causou danos na vida de sua família. A avó Little fora estuprada por um homem branco que sequer foi julgado pelo crime e, dessa violência, nasceu sua mãe Louise. Quando tinha apenas 1 ano de idade, sua família abandonou o próprio lar como resultado do ódio racial que tomava conta da cidade onde viviam. Em 1926, membros da Legião Negra, um braço local da Ku Klux Klan[iii], atearam fogo na casa da família Little como represália aos sermões do pastor Earl em favor dos direitos dos negros.

Aos cinco anos de idade, Malcolm precisou encarar a morte do pai, cujo corpo foi encontrado jogado em uma ferrovia, e aos doze anos viu a internação da mãe em uma instituição psiquiátrica. Após viver por um período com a irmã, em 1942, o jovem começou a praticar pequenos crimes na região do Harlem, bairro de forte presença negra de Nova Iorque, sendo detido em menos de um mês. Na prisão, teve seus primeiros contatos com as ideias de Muhammad Elijah, por meio de seu irmão Wilfred, que havia se convertido à religião muçulmana. Elijah era a principal liderança da Nação do Islã à época. Em cartas enviadas para Malcolm, Wilfred afirmava que o Islã era “a religião natural para os homens negros”, que Deus era negro e defendia a independência dos afrodescendentes dos Estados Unidos com a formação de comunidades e mesmo civilizações sem a presença dos brancos, considerados “demônios da humanidade”. O discurso obteve a adesão de Malcolm, após um breve período de rejeição de sua parte, e, em 1952, ele integrou definitivamente a Nação do Islã após deixar a prisão.

Nesse período, Malcolm adotou o “X” que deveria substituir o sobrenome “Little”, considerado uma herança da escravidão à qual seus antepassados foram submetidos na América. Com o tempo, seus discursos se tornaram mais inflamados, chamando a atenção das lideranças da Nação do Islã. Malcolm rapidamente subiu na hierarquia interna até atingir altos postos. Suas manifestações públicas, consideradas radicais e ameaçadoras à suposta estabilidade das tensões raciais no país, foram vistas de maneira negativa pelo governo estadunidense e por opositores às suas ideias. Conforme sua visibilidade e sua dimensão política cresciam, o ativista começou a enfrentar boicotes às suas exposições e, inclusive, ameaças à sua própria vida.


O olhar pela janela


Imagem Reprodução (Fotógrafo Don Hogan Charles)



Na fotografia analisada, é possível ver, em um primeiro momento, Malcolm X encarando a rua pela fresta das cortinas da janela de casa. A foto é uma obra de Don Hogan Charles, o primeiro fotógrafo negro a ser contratado para essa função pelo jornal The New York Times. Charles ganhou destaque nos anos 1960 por registrar a vida cotidiana nas comunidades negras estadunidenses, celebridades artísticas e políticas afrodescendentes e atuando também em importantes manifestações pelos direitos civis. Entre seus registros mais famosos, está uma foto tirada em 1964, na qual vemos Malcolm X na sala de estar de sua casa no bairro do Queens, em Nova York.

Dentre os principais elementos da imagem que despertam a atenção do observador, temos a visão de Malcolm portando uma arma. Provavelmente, isso se devia à presença de pessoas que ameaçavam sua segurança em frente à sua casa. Temos, portanto, esse indivíduo posicionado diante de uma janela encarando seus agressores, pronto para responder à violência usando os meios que julgava necessários para sua própria proteção e de sua família. A imagem é capaz de transmitir tensão e ansiedade que, possivelmente, foram sentidas pelos presentes quando foi registrada a cena. O inimigo não pode ser visto na fotografia. O que nos indica sua presença é o olhar de Malcolm, apreensivo enquanto procura ou foca algo fora do alcance da câmera fotográfica.

Arriscando ir um pouco além na análise dessa característica da imagem, percebe-se determinada analogia com o racismo estrutural presente na sociedade estadunidense. As raízes dessa experiência são profundas, remontando aos primórdios do tráfico de escravos africanos para as colônias inglesas. Tais raízes estão enterradas e, portanto, nem sempre são apresentadas de forma explícita. O racismo ocorre de modo “velado”, sendo perceptível apenas para aqueles que são vitimados por suas práticas e por tudo que acarretam. A fotografia deixa o observador sem a confirmação de que havia de fato a presença de indivíduos ali, mas saber se, de fato, estes estavam ali fisicamente parece menos importante do que transmitir o sentimento de ameaça constante que paira sobre o personagem fotografado.

É importante pensarmos como dois elementos centrais da cena dialogam em oposição entre si. São eles a arma e as vestes de Malcolm. Nos Estados Unidos, a luta pelos direitos civis teve sobretudo dois nomes que a personificaram: Malcolm X e Martin Luther King Jr. Enquanto Malcolm representava a radicalização da defesa da população negra através do uso da violência, o discurso pacifista do pastor Luther King se apresentava como alternativa não-violenta. A partir da contradição construída entre os dois personagens históricos, a partir da polarização das pautas defendidas, produziu-se um movimento de exclusão narrativa de um fator fundamental: Malcolm X também possuía um excelente domínio da retórica e grande conhecimento intelectual. O ativista associado ao radicalismo participou em diversas situações de entrevistas a canais de TV, rádio e jornais. Malcolm também era presença recorrente em manifestações públicas, quando discursava para outros ativistas e se tornou referência nos debates de ideias dentro do movimento negro.

Afastando-se da noção de oposição entre o militante radical e o pacifista, responsável por criar uma visão reducionista e desumanizada da figura de Malcolm X, percebe-se sua intensa atividade intelectual, paralelamente à defesa de pautas de ação direta. Ao analisar a fotografia, sentimos, a um só tempo, a presença marcante da arma como forma da radicalização de seu discurso sobre a violência, contrastando com outra face marcante do ativista, a de sua intelectualidade e capacidade oratória, presentes nas roupas formais (que remetem às próprias vestes do pastor Luther King) e no uso dos óculos (que remetem à imagem da intelectualidade).

Entretanto, a imagem não passa uma sensação de passividade diante da ameaça das tensões raciais e da violência acarretada por elas. Pelo contrário, a visão de Malcolm X parado diante da janela de casa transmite a ideia de resistência. A violência motivada pelo ódio racial estava ali, naquela rua, mostrando sua face mais brutal. Não é possível para nós, observadores, encará-la diretamente. O racismo surge, assim, como o espectro da barbárie que rondou Malcolm X desde sua infância, que assolou sua família antes que ele nascesse e que ainda atinge diretamente a população negra dos Estados Unidos.

Se para nós, muitas vezes, o racismo pode parecer invisível, certamente não o foi para o ativista, bem como para toda a comunidade negra daquele país. É esse inimigo ocultado pela sociedade estadunidense que Malcolm encara através da janela e demonstra sua disposição para enfrentá-lo, como o próprio defendia, “by any means necessary” (por quaisquer meios necessários). A fotografia de Don Charles transmite a postura combativa de Malcolm X, tornando-o, pelos símbolos presentes na imagem, figura da resistência e de radicalização na luta pelos direitos civis naquele país, sem desumanizá-lo, reforçando o uso da violência como medida autoprotetiva das populações negras.

Contudo, quando a pauta dos movimentos antirracistas ressurge com maior intensidade, é natural que a fotografia analisada seja (re)apropriada de modo a legitimar discursos ou representar determinadas expectativas e aspirações sociais. Nesse processo, reside a incansável busca por referências sacralizadas, ídolos, mártires, enfim, indivíduos que são transformados em parte fundamental e indissociável das manifestações políticas como referências de luta. Atualmente, em meio aos movimentos por direitos civis e contra a violência policial nos Estados Unidos, Malcolm X se tornou novamente parte desse processo. Isso se dá pelo seu destaque nos movimentos pelos direitos civis nos anos 1960, como símbolo icônico de resistência, e é inegável a importância que fotografias como a de Don Charles tiveram nesse contexto.

Breno Tommasi é historiador e colunista do site História da Ditadura.



Notas:

[i] Originalmente, o “sh” foi primeiro traduzido como “ck”, tendo correspondência no símbolo “chi” do grego clássico. O costume remonta ao uso por instituições eclesiásticas do “x” latino como forma de referência ao “chi” grego (abreviação de “Cristo”). Portanto, “ck” correspondia ao “chi” do grego clássico que, por sua vez, era traduzido como “x” na escrita do latim eclesiástico.

[ii] Organização político-religiosa de bases muçulmanas fundada em 1930 nos Estados Unidos.

[iii] A Ku Klux Klan (KKK) é um grupo supremacista branco fundado nos Estados Unidos após o fim da Guerra Civil Americana (1861-1865). O grupo, associado a ideais de pureza racial, de conservadorismo religioso e de atuação violenta, foi responsável por atacar comunidades negras promovendo linchamentos públicos, ataques contra patrimônios, assassinatos e outras práticas criminosas. Os membros da Klan são comumente identificados pelo uso de túnicas brancas e gorros em formato cônico de mesma cor.


Referências:

BURGIN, Victor. Looking at photographs. In: Thinking photography. Londres: Macmillan Press, 1982.

LINFIELD, Susie. “Photojournalism and Human Rights”. In: The Cruel Radiance; photography and political violence. Chicago: University of Chicago Press, 2010.

MARABLE, Manning. Malcolm X – Uma vida de reinvenções. Nova Iorque: Viking Press, 2011.

MARZO, Jorge Luis. Fotografía y activismo. Barcelona: GustavoGilli, 2006.

MAUAD, Ana Maria. “Através da imagem: fotografia e História Interfaces”. Revista Tempo, Rio de Janeiro, vol. 1, n °. 2, 1996, p. 73-98.


Crédito da imagem destacada: Photo taken as work for hire by Marion S. Trikosko for U.S. News & World Report Magazine Collection, who has donated it into the public domain (see http://lcweb.loc.gov/rr/print/res/078_usnw.html)