Histórias da Ditadura

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22
jun
2020

O Campo | Futebol: por uma História para além do buraco da fechadura


É possível falar dos últimos 150 anos da história da humanidade sem mencionar uma única linha sobre futebol. Isso, no entanto, é um erro. Desconsiderar esse fenômeno cultural, social e político tão potente e tão presente na vida cotidiana da grande maioria das pessoas ao redor do globo é como ver o mundo pelo buraco da fechadura: você até consegue ver alguma coisa, mas não tem noção de sua totalidade.

Em contrapartida, é impossível falar de futebol sem pensar em todos os desdobramentos vividos pela humanidade no último século e meio de história. Falar de futebol é falar de história contemporânea.

Olhar para o futebol do século XIX permite compreender a dinâmica social da Inglaterra desse período. A prática do jogo de bola com os pés (e mãos) começou nas escolas públicas inglesas, ainda na primeira metade do século XIX. A disputa política entre as escolas para regulamentar as regras do jogo causou uma cisão da qual derivou o rúgbi, de um lado, e o futebol, de outro. O código de regras organizado em Cambridge, em 1848, estabeleceu – minimamente – as regras do futebol como conhecemos atualmente. A regra mais importante – que determinou a divisão com o rúgbi – foi a limitação do uso das mãos para tocar a bola (com exceção dos goleiros).

A expansão do futebol ao redor do mundo tem relações diretas com a expansão do imperialismo britânico. A dominação econômica e política dos ingleses ao redor do globo, também representou uma dominação cultural. Ainda que, nas suas principais colônias, o futebol não tenha se tornado o esporte mais popular – vide o rúgbi na Nova Zelândia, Austrália e África do Sul, ou o críquete na Índia, que até hoje são os esportes mais populares nesses países –, o futebol se espalhou por todo o planeta graças ao imperialismo britânico.

Trabalhadores britânicos levaram o futebol, entre outras coisas, para todo o mundo, principalmente para a Europa e a América do Sul. São inúmeros os relatos e documentos que narram como os marinheiros e ferroviários foram os principais difusores do futebol ao redor do globo; para além das narrativas “oficiais” dos “pais fundadores” do jogo de bola com os pés.

Tomando o futebol como exemplo, podemos falar sobre as formas de dominação do imperialismo britânico, mas, também, sobre o processo de aculturação das práticas britânicas. Além disso, também podemos falar de como esses marinheiros e ferroviários foram importantes na construção – e, em parte, da dominação cultural – do império britânico. Podemos, ainda, discutir a questão de classe presente na sociedade inglesa e como esta vai ser reproduzida nas colônias. Vale lembrar que o futebol foi designado como prática esportiva para as camadas mais populares, em detrimento do rúgbi e do críquete, que foram reservados para as elites britânicas, sobretudo, as elites locais das colônias. Isso explica, parcialmente, porque as principais ex-colônias não têm o futebol como prática esportiva popular. Em regiões em que a dominação não foi direta, o futebol se popularizou primeiro, graças aos trabalhadores ingleses e, mais tarde, às elites locais, que viam no futebol um símbolo de distinção e modernização.

Falar do processo de modernização iniciado no final do século XIX também passa pelo futebol, bem como pelos esportes de maneira geral. O movimento olímpico de Pierre de Coubertin, por exemplo, nasceu para “salvar” a humanidade da degeneração causada pela industrialização. Obviamente, essa ideia só poderia surgir no seio da aristocracia europeia da Belle Époque. Na sociedade industrial da época, a ideia de dividir o tempo entre trabalho e ócio já estava presente, sendo o ócio o luxo da burguesia que não precisava trabalhava e podia dedicar seu tempo livre a práticas esportivas. A construção da ideia de amadorismo no esporte foi uma consequência direta da sociedade industrial.

No Brasil, o futebol chegou no final do século XIX. Isso ocorreu, em parte, por conta dos já citados trabalhadores britânicos e, em parte, pelos “pais fundadores” – filhos das elites locais que enviavam seus filhos para estudar na Europa e que, quando voltavam, traziam o futebol. Esse é o caso de Charles Miller, em São Paulo, e Oscar Cox, no Rio de Janeiro, por exemplo.

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Nas primeiras décadas do século XX, por se tratar de uma “moda estrangeira”, o futebol era visto com receio. No entanto, havia aqueles que enxergavam de maneira positiva o caráter modernizante do esporte. Essa discussão, inclusive, gerou um grande debate entre literatos e intelectuais. De um lado, Graciliano Ramos e Lima Barreto, entre outros, defendiam que o futebol era apenas uma moda passageira, um “estrangeirismo” que degenerava a juventude e não contribuía em nada para a nação. Do outro, Guimarães Rosa e outros defendiam o caráter modernizador do jogo britânico. Alguns desses discursos defendiam, por exemplo, que o futebol poderia vir a ser uma expressão da brasilidade ou até mesmo o esporte nacional.

Para além da discussão sobre identidade nacional, foi também nesse período em que questões de classe e raça encontraram lugar no futebol brasileiro. No período pós-abolição, pobres e negros começaram a buscar ascensão social por meio do futebol; enquanto as elites – que controlavam o jogo – diziam que esporte era apenas para brancos e deveria se manter amador, o que significava dizer que o jogador deveria ter um outro trabalho fixo e não poderia jogar por dinheiro. Há inúmeros relatos de jogadores, sobretudo pobres e negros, que conseguiram burlar esse sistema e jogaram apenas por dinheiro (ainda que de maneira não profissional). O amadorismo marrom, como a prática ficou conhecida, foi um dos catalizadores do processo de profissionalização do futebol, nos anos 1930.

É curioso notar que no Brasil e no restante do mundo, do final do XIX e início do XX, o futebol saiu das classes mais populares, foi apropriado pelas elites e, posteriormente, reapropriado pelas camadas populares. Foram dois movimentos. Primeiramente, as elites se apoderaram do jogo que era praticado pelas classes populares, expulsando-as e limitando sua presenta apenas ao espaço das arquibancadas, ou nem isso. No momento seguinte, houve uma resposta. As classes populares se apossaram não só do campo de jogo, mas também das arquibancadas. Nessa trajetória, é possível perceber o futebol como uma tradição inventada pela classe trabalhadora e, também, como as elites buscaram se assenhorar de elementos da cultura popular.

A Educação Física e a ginástica já eram valorizadas desde o século XIX. Essa atenção às práticas corporais encontrou lugar nos discursos de governos fascistas, fosse pelo caráter pedagógico e disciplinar dos esportes, fosse pelas ideias de estética corporal (com base no lema “mente sã em corpo são”), ou até mesmo o uso do esporte como estratégia para militarizar a sociedade. Além disso, os esportes couberam perfeitamente nas perspectivas nacionalistas, sobretudo os esportes de massa como o futebol. Nos anos 1930, na Alemanha de Hitler, na Itália de Mussolini e na Espanha de Franco, o futebol foi usado como instrumento político de controle e manipulação das massas e, também, como ferramenta para inculcar valores nacionais.

No período entre guerras, os esportes foram usados para emular as disputas entre Estados-nações que não poderiam ser reproduzidas no campo de batalha. Isso fica mais evidente quando observamos a consolidação dos Jogos Olímpicos e, no caso do futebol, a organização das Copas do Mundo. Foram em eventos como esses que as nações entraram em campo para resolver suas divergências por meio do esporte.

Boa parte das esquerdas fez uma leitura distorcida sobre o fenômeno de massa que era o futebol. Enquanto a direita usava o futebol para controlar as massas, as esquerdas acusavam o esporte de ser o “ópio do povo”. Uma perspectiva equivocada, pois não percebia a potencialidade política que o futebol poderia assumir.

No Brasil dos anos 1930, o populismo de Getúlio Vargas tentou usar politicamente o futebol para enaltecer o nacionalismo brasileiro às vésperas da Copa do Mundo de 1938, ocorrida na Itália fascista de Mussolini. Praticamente no mesmo período, Gilberto Freyre estava tecendo sua interpretação do Brasil. A teoria da “democracia racial” iria ecoar na voz do jornalista Mario Filho. A relação entre Mario Filho e Freyre poderia render outro texto. Aqui, cabe dizer que o sociólogo prefaciou o livro O negro no futebol brasileiro, dando a entender que Mario Filho conseguira sintetizar as teorias freyreianas no futebol. Até hoje, a ideia de “democracia racial” está amalgamada ao futebol brasileiro. Nos anos 1950, futebol e nacionalismo já estavam completamente atrelados. A derrota do Brasil para o Uruguai na Copa do Mundo de 1950, o famoso Maracanazo, foi – e ainda é – tratada como uma das maiores tragédias da história do Brasil.

Durante a ditadura militar, tivemos o caso da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1970, que foi usada como uma máquina para promover o regime de exceção, implantado após o golpe de 1964. A música Pra frente Brasil! – que a ex-secretária de Cultura cantou em entrevista para “celebrar a vida” – não era apenas a trilha sonora da campanha vencedora, era também a música extraoficial do governo militar para o dito “milagre econômico”, quando o regime entrava em sua fase mais repressiva sob o comando de Emílio Garrastazu Médici.

Emílio Garrastazu Médici exibe a taça Jules Rimet, conquistada pela seleção brasileira de futebol em 1970. Arquivo Nacional, Correio da Manhã, PH FOT.18171.192.


O uso político que as ditaduras fizeram do futebol pode ser encontrado em praticamente toda a América do Sul. No Chile, Augusto Pinochet se fez presidente do Colo-Colo. Na Bolívia, o general García Mesa fez o mesmo no Jorge Wilstermann. No Uruguai, a ditadura tentou usar o Mundialito de 1980 para se promover. E, na Argentina, a ditadura de Jorge Rafael Videla usou a Seleção Argentina e uma Copa do Mundo para fazer propaganda de seu regime, em meio a inúmeras denúncias de violação aos direitos humanos. Na abertura do Mundial, no Estádio Monumental de Núñez, enquanto a bola rolava, presos políticos eram torturados e mortos a poucos quarteirões do estádio.

Ao mesmo tempo em que Videla condecorava o presidente da FIFA, o brasileiro João Havelange, a organização máxima do futebol mundial fazia vistas grossas para todas as atrocidades promovidas pela ditadura argentina. Aliás, a FIFA, na figura de Havelange, foi quem estabeleceu todo o controle político e econômico do futebol. Por meio de acordos políticos escusos com governos, concessões a federações e contratos suspeitos com patrocinadores, Havelange estruturou a FIFA.

Enquanto a ditadura brasileira queria o controle da bola, jogadores como Nando, Reinaldo, Afonsinho e Sócrates – e, claro, a Democracia Corintiana – contestaram os generais. Assim como as mulheres que ousaram jogar futebol, mesmo diante das proibições que remontavam aos anos 1940. Em 1978, o holandês Johan Cruyff se recusou a jogar o Mundial de 1978, boicotando a ditadura de Videla. No Chile, Carlos Caszely teve sua mãe presa e torturada pelo regime de Pinochet. Quando esteve frente a frente com o general, se negou a dar a mão ao ditador. Há muitos outros exemplos.

Nos ano 1980, a ascensão do liberalismo afetou diretamente o futebol. Na Inglaterra, Margaret Thatcher, além de atacar os direitos da classe trabalhadora, promoveu a política anti-hooligan, com o Relatório Taylor. Somado ao liberalismo, os efeitos da globalização foram nefastos para o futebol, atacando as sociabilidades dos torcedores e, principalmente, as identidades historicamente enraizadas. A circulação de jogadores, que já ganhava forma nos anos 1980, teve um aumento significativo nos anos 1990 com o acirramento da globalização. Quando jogadores estrangeiros – sobretudo da Ásia e África – passaram a vestir a camisa dos clubes europeus, discursos racistas e xenófobos ganharam força entre dirigentes e torcedores.

A globalização – econômica e esportiva – dos anos 1990 fez do futebol um grande produto da indústria cultural (ou de massas). Todo o processo de mercantilização, espetacularização e midiatização do futebol abriu abismos profundos entre os clubes. Estes passaram a ser controlados por multinacionais e, aos torcedores, foi atribuído o papel de meros consumidores desse produto chamado futebol. Toda a relação entre clube e torcida foi transformada e as identidades foram colocadas à prova.

Dos anos 2000 para cá, cada vez mais o futebol vem sofrendo com um processo de elitização, acirrando ainda mais o distanciamento entre as torcidas e seus clubes. Foi justamente dentro das torcidas que coletivos se organizaram para questionar os altos valores que movimentavam o futebol enquanto negócio. A contestação desses valores passava pela contração de jogadores, pelos contratos televisivos e, principalmente, pela expulsão das camadas populares dos estádios. Foi a partir desses coletivos que surgiram torcidas mais progressistas, de esquerda e, até mesmo, antifascistas. Para além de questionar a ordem vigente, essas torcidas chamavam atenção para outros problemas ligados ao futebol e passaram a combater o racismo, o machismo, a homofobia e a xenofobia dentro – e fora – dos estádios.

Além dos jogadores já citados, há uma lista enorme daqueles que se levantaram – e ainda se levantam – para mostrar as desigualdades no futebol. Justin Fashanu, o primeiro jogador assumidamente gay, ainda na década de 1980; Cristiano Lucarelli nos anos 1990, que saiu das arquibancadas do Livorno para se tornar jogador pelo clube, sem abrir mão de sua luta contra a extrema-direita italiana; Lilian Thuram, neto de escravos, que durante toda a sua carreira denunciou a estrutura racista do futebol; Eric Cantona, que, em 1995, não pensou duas vezes em dar uma voadora no peito de um torcedor racista e xenófobo; Sissi, Márcia Taffarel, Formiga e tantas outras mulheres que seguem desafiando o machismo do esporte.

As principais questões da história contemporânea não estão alheias ao futebol e vice-versa. As discussões sobre classe, etnia e raça, gênero e sexualidade, identidades, nacionalismo, liberalismo, globalização, e tantos outros temas, podem ser acessados pelo futebol, simplesmente porque é impossível dissociar um fenômeno de seu tempo histórico. Historicizar o futebol é, também, fazer História Contemporânea.

O futebol é mais do que um mero reflexo da sociedade. Não se limita apenas a um drama social, a uma síntese ou metáfora do mundo. Futebol é muito mais do que isso. Estudar a história do futebol é compreender para além das dinâmicas próprias do esporte, é compreender a sociedade como um todo, em seus diferentes aspectos. Quando eu falo de futebol eu falo de política, cultura e economia, falo do mundo contemporâneo – no passado e no presente – e tudo que o envolve, porque o futebol me permite ver para além do buraco da fechadura.

Futebol é uma chave. Abram-se os portões!


Victor de Leonardo Figols é doutorando em História e colunista do site História da Ditadura.



Crédito da imagem destacada: Photo by Seth Doyle on Unsplash