Histórias da Ditadura

Artigos

Georgina Martins
15
maio
2018

O fim do mundo, os comunistas e a televisão


 

A primeira vez que ouvi dizer que o mundo ia acabar achei que começaria ali, bem perto de onde eu e minha mãe estávamos, e nós duas seríamos as primeiras pessoas a acabar junto com ele. Fiquei paralisada de medo.

Era o início de 64, faltavam alguns meses para o meu aniversário de cinco anos e eu estava feliz. Enquanto andávamos, minha mãe fazia planos de bolo confeitado e guaraná, com copinhos coloridos e vela rosa. “A Ruth vai fazer um vestido novo pra você com um retalho que sobrou do vestido de noiva que ela fez pra filha da dona Lurdes. Vai ser de laise branca”.

Acho que fazia sol e ela estava com um vestido azul. Havíamos acabado de sair do quartel da Aeronáutica — único lugar onde se podia comprar arroz e feijão —quando uma mulher nos parou no meio da rua e deu a notícia.

— O mundo vai acabar… Eles colocaram muitos sacos de areia na entrada da Ilha, ninguém pode entrar nem sair daqui. Parece guerra! A mulher deu a notícia e saiu andando apressada. Foi tão enfática que só faltou dizer o dia e a hora em que o mundo acabaria. Minha mãe garantiu ser tudo bobagem. Para ela o mundo só acabaria no ano 2000 e ainda faltava muito para chegar lá. “De mil passará, de dois mil não passará. Está escrito! Vai acabar em fogo, porque da primeira vez foi em água, mas ainda falta muito tempo, minha filha, não se preocupe com isso”.

Em casa, ela reclamou da fila enorme que tivemos de enfrentar no quartel, uma fila de mães que falavam muito baixinho. Era proibido falar alto, e cada uma só podia levar um quilo de arroz e outro de feijão. “Duas horas na fila, tanto sacrifício pra comprar só isso?

Meu pai dizia que era tudo culpa Deles, que Eles queriam mesmo era provocar confusão no país. Minha mãe, que demonstrara tanta coragem diante da notícia sobre o fim do mundo, ficou muito assustada com as reclamações do meu pai e mandou que ele se calasse. “Pode ser muito perigoso falar Deles”. Mais perigoso do que o mundo acabar?, perguntei. Será que se meu pai continuasse reclamando, os soldados poderiam se aborrecer e proibir que ficássemos na fila do arroz?

Ela respondeu que poderia ser muito pior do que isso, que coisas terríveis aconteciam com aqueles que reclamavam, por isso meu pai deveria ficar quieto. “Será que tem coisa pior do que o fim do mundo?”, pensei.

Meu pai parecia não se importar com o tal perigo

— Esse país não tem jeito, quando entra um homem decente, Eles querem logo derrubar.

“Mas Eles estão sendo muito bons para os moradores da lha do Governador. Tem mesmo que acabar com essa baderna, botar todo mundo na cadeia. É tudo comunista, e comunista tem que morrrrrrrer!” Quando o pai do Eduardo falava assim, meu pai chegava a ficar vermelho de raiva.

— Pai, o que é comunista?

— Os comunistas são pessoas que acham que todos devem ter os mesmos direitos, como moradia, saúde e educação. Eles não acham justo que uma família tenha duas casas enquanto outra não tem nenhuma; que uma só pessoa seja dona de muitas coisas, enquanto grande parte da população não tem nada. Também não acham justo que os trabalhadores sejam explorados pelos patrões.

Lembro que não entendi nada, achei a explicação muito complexa, mas meu pai não desistiu: — Minha filha, um comunista não acha justo que uma família possa ter duas televisões enquanto uma outra não tem nenhuma. E foi assim que não só passei a gostar dos comunistas, como também a torcer para que conseguissem tomar logo o tal poder. Na minha casa não havia televisão, mas na do Eduardo tinham duas, uma na sala e outra no quarto dele e da irmã.

Depois disso, todos os dias eu perguntava se os comunistas já haviam tomado o poder. Meu pai achava muito engraçado aquela preocupação, e mesmo sabendo que meu interesse pelos comunistas vinha unicamente do meu desejo de possuir uma televisão, ele ficava orgulhoso.

O pai do Eduardo gostava de provocar meu pai porque sabia que ele gostava dos comunistas. Era igualzinho ao Eduardo quando implicava comigo. Graças a ele aprendi a ter vergonha dos meus brinquedos de madeira e das pernas tortas de meu pai. “Grazielinha é cagona, cagona, cagona! Seus brinquedos são de pau, seu pai é baixinho e tem perna torta.” Todos os dias o Eduardo entoava essa cantilena

Meu nome não é Graziela, meu pai fez de tudo para que fosse, mas minha mãe não quis. — Seu nome é por causa de uma promessa que fiz a São Jorge pra que você não nascesse com as pernas tortas como o seu pai.

Não nasci com as pernas tortas, mas São Jorge que me desculpe pois aqui serei Graziela. Acho que ele não deve ficar chateado com isso, afinal de contas estou fazendo uma homenagem ao meu pai, e além do mais não vejo problema em mudar a identidade quando se é personagem, principalmente personagem da própria história. Quero ser Graziela e pronto.

Morávamos na Estrada Rio Jequiá, nº. 1224, em uma casa muito pequena, nos fundos de uma outra muito grande, onde moravam o Eduardo, sua irmã e seus pais. Minha mãe discorda dessa lembrança e diz que a casa deles nem era tão grande assim, mas para mim a casa era tão grande quanto seus donos: o pai do Eduardo era um homem alto, o Eduardo e a irmã (uma menina chamada… não consigo lembrar o nome) eram grandes, e meu pai era baixinho, minha mãe ainda é, e eu só tinha quatro anos.

“Moramos aqui de favor”, minha mãe dizia. Eu não sabia o que era morar de favor, mas dava para perceber que não era uma coisa boa. Minha mãe ficava muito incomodada, não via a hora de sair dali, principalmente por causa das implicâncias do Eduardo.

Quase fomos morar na Cidade de Deus, que na minha imaginação só podia ser um lugar muito bonito. “Cheio de anjinhos”, eu pensava. Mas na Cidade de Deus, somente as famílias cadastradas podiam entrar, então tivemos de ficar mais um tempo de favor na casa do Eduardo.

Naquela época não era só ele que atormentava minha vida, sua irmã adorava mexer na Delinha. Minha boneca mal podia piscar os olhos que a peste enfiava o dedo tentando furá-los. Para evitar essa tragédia, minha mãe passou a escondê-la na parte mais alta do guarda-roupa, que nem era tão alta assim. Delinha ficava desaparecida por muitos dias e eu chorava de saudades.

— Delinha foi passear na casa da mãe dela. Você sabia que as bonecas também têm mães, e que as mães das bonecas sentem saudades das filhas?

— Coitadinha! Ficar assim sem mãe é muito ruim, mas de hoje em diante eu é que vou ser a mãe dela.

Foi assim que Delinha deixou de ser uma boneca sem mãe, ao mesmo tempo em que eu passei a ser uma mãe sem a filha. Enquanto moramos naquela casa, minha boneca nunca deixou de visitar sua mãe verdadeira, e sempre demorava muito tempo nessas visitas. Quando eu não aguentava mais de saudades, minha mãe esperava que eu dormisse, tirava Delinha de cima do guarda-roupa e a colocava do meu lado. Eu acordava feliz, com ela acabando de chegar da casa da outra mãe. Delinha era o meu brinquedo mais bonito, os outros, como dizia o Eduardo, eram de pau. “De madeira”, minha mãe corrigia quando me via chorando por causa das implicâncias daquele peste. — Ser feito de madeira é muito diferente de ser de pau, viu? Aprenda isso.

Era meu pai quem fazia meus brinquedos: cadeirinhas, caminhas e carrinhos de puxar com barbantes. Tinha até um fogãozinho de três bocas com forno e tudo, que teria ficado igualzinho a um de verdade se ele não tivesse pintado de verde. Até hoje nunca vi um fogão verde, mas meu pai aproveitou o resto da tinta que havia sobrado da pintura da porta da nossa casa (mais uma coisa que minha mãe não lembra. Ela teima em dizer que o meu fogão era branco). É claro que também não lembro de tudo, algumas coisas tenho mesmo de perguntar a ela, outras, invento, mas da cor do fogão nunca esqueci. Como é que alguém pode esquecer-se de um fogãozinho verde?

Um pouco antes do meu aniversário de seis anos, meu pai conseguiu comprar um terreno em Mesquita e fomos morar lá. “Por isso não vai ter festa, seu pai gastou tudo na compra do terreno”, minha mãe justificou-se, quando reclamei. Lembro que fiquei muito triste, porque no aniversário de cinco, apesar da promessa, também não teve. Não me recordo nem do tal vestido de laise branca, acho que a Ruth nunca fez.

Algum tempo depois, na casa nova, foi que me dei conta de que o mundo não havia acabado (minha mãe estava certa, ia ser mesmo no ano 2000), e que os comunistas ainda não tinham tomado o poder, pois continuávamos sem televisão. Perguntei ao meu pai se eles haviam desistido, mas ele explicou que não se tratava de desistência, “que era muito mais sério do que isso, Graziela…, mas agora, vamos mudar de assunto, minha filha”.

 

Georgina Martins é escritora.

 


Crédito da imagem destacada:

Arquivo Nacional, Correio da Manhã, PH FOT 04082.010.