Histórias da Ditadura

Artigos

livro sobre ditadura militar
12
jan
2017

Lista coletiva de livros


 

Hoje, dividimos com nossos leitores, a lista de livros, que fora elaborada coletivamente, por meio das sugestões que vocês nos apresentaram. Desde logo, gostaríamos de agradecer a participação de todas e de todos.

Nas próximas semanas, iremos propor um debate sobre os trabalhos que foram incluídos nesta lista. As obras, que compõe este pequeno inventário, pertencem a variados gêneros narrativos e, essa primeira questão, é o ponto de partida para um importante debate. Em linhas gerais, embora qualquer tipo de texto possa servir como fonte de pesquisa para os historiadores, cada gênero narrativo ocupa um lugar específico e singular na constituição do conhecimento histórico. Esse fenômeno, aparentemente simples, pode, entretanto, gerar muitas dúvidas e inseguranças para diversas pessoas que buscam conhecer a “verdade histórica” sobre determinado período do passado, como, para citar um exemplo, a ditadura militar brasileira.

Nesta postagem, vamos propor um debate inicial sobre um dos livros mencionados.

Desde o lançamento do site “História da Ditadura”, muitos leitores têm sugerido o livro A verdade sufocada – a história que a esquerda não quer que o Brasil conheça, de autoria de Carlos Brilhante Ustra (1932-2015). Para muitos desses leitores, a obra escrita pelo coronel Brilhante Ustra seria um bom exemplo de “análise histórica”. A obra tem sido geralmente sugerida porque, ainda de acordo com esses leitores, o texto supostamente contém a “verdadeira história” sobre o período ditatorial brasileiro.

Essa perspectiva precisa ser melhor debatida. E nós gostaríamos de convidar esses leitores para que juntos façamos uma reflexão sobre o tema. Considerar QUALQUER OBRA como a expressão da “verdade” é reflexo de uma profunda distorção no entendimento do que seja o trabalho de análise histórica. Considerar a obra do coronel Brilhante Ustra é, além disso, desconhecer que esse trabalho não pode ser considerado um trabalho no campo dos estudos históricos. E isso não é uma questão de opinião: o relato que o coronel apresenta em seu longo livro deve ser considerado um relato de memória.

Não podemos ainda deixar de considerar que a narrativa apresentada pelo autor é, em resumo, uma tentativa de se justificar a atuação de órgãos repressivos no combate à luta armada. Historicamente, esses órgãos se valeram de mecanismos ilegais (mesmo à luz da legislação ditatorial) e cometeram crimes contra a humanidade, como a prática de tortura e o assassinato de opositores políticos.

Claro que a obra pode ser discutida. Claro que podemos tentar entender de que foram se deve analisar esse tipo de trabalho. Há muitos anos, estudos dessa natureza têm sido conduzidos. Para o trabalho que estamos propondo, a análise do livro não pode ser confundida com uma suposta “tomada de posição política” contra o “comunismo, a luta armada, a ameaça aos valores tradicionais” e outros argumentos abstratos e sem fundamentação.

Muitos leitores assumem a “narrativa” apresentada por esse autor como exemplo de estudo histórico tendo em mente essa perspectiva. Para nós, não há nenhum embasamento nessas análises. Pior do que isso: muitos jovens têm “recomendado” a obra do coronel com o argumento de que ela faz um contraponto às obras escritas por historiadores. Seria “o outro lado da história”.

É relativamente simples compreender, porque o senso comum acredita que o trabalho de construção do conhecimento histórico, ou seja, a história de um dado período ou as análises históricas sobre um acontecimento, obedecesse a mesma lógica que, digamos, “a história de um acidente entre dois veículos”. Seria necessário ouvir os dois motoristas e, se possível, outras testemunhas, para chegarmos “à verdade”.

Entretanto, a construção do conhecimento histórico não se dá dessa forma. E, nós compreendermos que isso possa parecer difícil de se entender. Por hora, gostaríamos de destacar que o uso de comparações entre a produção de estudos históricos e, digamos, o dia a dia da vida que, em português, nós também chamamos de “a história”, muitas vezes esconde um objetivo de banalização de um processo muito complexo.

Nós vamos retomar esse tema em breve. Queremos sugerir a seguinte reflexão: o fato de existirem diferentes narradores e diferentes narrativas sobre um mesmo fenômeno não os coloca em pé de igualdade, quando buscamos construir conhecimento que seja confiável sobre “o que aconteceu”, sobre o passado.

O trabalho escrito por Ustra não faz contraponto a nenhum estudo histórico pelo simples fato de que o livro escrito por ele não é um trabalho de análise histórica: é um relato de memória produzido por um indivíduo.

O livro pode ser uma fonte para o trabalho do historiador que estuda o tema? Sim, pode. Entretanto, é preciso pensar sobre a metodologia de análise desse tipo de fonte. Como devemos situar a obra do coronel Brilhante Ustra? Um primeiro passo, poderia ser responder à pergunta: quem foi o coronel Ustra?

Carlos Brilhante Ustra foi um coronel do Exército brasileiro, que chefiou o DOI-COI do II Exército (SP) entre 1970 e 1974, um centro de detenção e tortura, no qual dezenas de militantes políticos seriam assassinados ao longo da ditadura. No ano de 2008, em decisão inédita, a 23a Vara Cível proferiu sentença declaratória na qual o coronel Ustra foi reconhecido como torturador pela Estado brasileiro. A decisão seria confirmada por um colegiado de segunda instância, quando, por unanimidade, a 1a Câmara de Direito privado do Tribunal de Justiça de São Paulo manteve o entendimento anterior.

Esse pode ser um primeiro passo. Muitos jovens pensam que ao defenderem o uso do trabalho do coronel Ustra estão defendendo a pluralidade das análises históricas; em geral, estão apenas reproduzindo um discurso autoritário, extremamente pobre em termos de contribuição para o debate de ideias e, mais grave, que fere princípios básicos de direitos humanos.

Muitos outros livros também trabalham com depoimentos de militares, que atuaram na ditadura, apresentando uma perspectiva diferente sobre a análise das fontes históricas. Esse é o caso da coleção lançada na década de 1990 por pesquisadores do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC/FGV), que utilizam a metodologia da história oral. Em breve, lançaremos um artigo que tratará da importância da memória como fonte na elaboração do conhecimento histórico.

Com relação a lista divulgada aqui, cada um dos livros relacionados foi inserido na base de dados do “História da Ditadura”. Assim, o título do livro na lista é um link para sua ficha na seção “Referências” do site. Essa seção, como já mencionamos em outra ocasião, tem a finalidade de servir como ferramenta de pesquisa bibliográfica para nossos leitores e, portanto, será constantemente aprimorada e atualizada. Caso notem que alguma obra não está presente em nosso banco de dados, não hesitem em nos informar e iremos providenciar sua inserção.

Futuramente, iremos divulgar uma chamada para começar a construir coletivamente uma lista de filmes e documentários. Participem!


 

A. B.GarciaEducação Física e regime militar – uma guerra contra o marxismo cultural.
Adail Ivan de LemosDesafia o nosso peito.
Alex PolariEm busca do tesouro.
Alfredo SirkisOs carbonários.
Alvaro CaldasTirando o capuz.
Ana Maria CollingA resistência da mulher à ditadura militar no Brasil.
Arthur J. PoernerO poder jovem.
Ayrton CentenoOs vencedores.
Bernardo KucinskiO fim da ditadura militar.
Bernardo KucinskiK.
Caio Navarro de ToledoO governo Goulart e o golpe 64 – Coleção Tudo é História.
Caio Navarro de Toledo1964: visões críticas do golpe.
Caio Tulio CostaCale-se.
Carlos Brilhante UstraA verdade sufocada.
Carlos Castelo BrancoOs militares no poder.
Carlos FicoO grande irmão.
Carlos FicoAlém do golpe.
Caroline Gomes LemeDitadura em imagem e som.
Cecilia MacDowell Santos; Edson TelesDesarquivando a ditadura – Memória e Justiça no Brasil – 2 Volumes.
Celso FurtadoNão à recessão e ao desemprego.
Celso LungarettiNáufrago da utopia.
Chico Otávio; Aloy JupiaraOs porões da contravenção.
Cid BenjaminGracias a la vida.
Cid Vieira de Souza FilhoOAB X ditadura Militar – A história de um período difícil para as instituições democráticas no Brasil.
Comissão da Verdade do Estado de São PauloInfância Roubada.
Daniel Aarão ReisDitadura e democracia no Brasil.
Daniel Aarão ReisDitadura militar, esquerdas e sociedade.
Daniel Aarão Reis1964: 50 anos do Golpe Militar.
Daniel Augusto SchmidtProtestantismo e ditadura militar no Brasil.
Daniel Leb SasakiPouso Forçado.
Daniela ArbexO holocausto brasileiro.
Daniela ArbexCova 312.
Demian Melo (Org.)A miséria da historiografia: uma crítica ao revisionismo contemporâneo.
Denise AssisPropaganda e cinema a serviço golpe 1962/64.
Dom Paulo Evaristo Arns (Org.)Brasil: nunca mais.
Eduardo GaleanoAs veias abertas da América latina.
Edwaldo CostaMeia culpa.
Elio GaspariColeção dos 5 volumes (Ditadura envergonhada, escancarada, derrotada, encurralada, acabada).
Emiliano JoséGaleria F – Lembranças do mar cinzento.
Érico VeríssimoIncidente em Antares.
Fernando GabeiraO que é isso, companheiro?
Flávio TavaresMemórias do esquecimento.
Frederico de S.Fastos da Ditadura Militar no Brasil – Coleção Temas Brasileiros.
Frei BettoBatismo de sangue.
Gabriel da Fonseca OnofreEm busca da esquerda esquecida: San Tiago Dantas e a Frente Progressista.
Genival RabeloDenúncias, episódios e personagens.
Hugo AbreuO outro lado do poder.
Imprensa OficialDossiê Ditadura – Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil 1964-1985.
Itamar Flavio da Silveira; Suelem CarvalhoGolpe de 1964, O que os livros de história não contaram.
Jacob GorenderCombate nas trevas.
James Green; Renan QuinalhaDitadura e homossexualidades.
Jayme Portella de MelloA revolução e o governo Costa e Silva.
Jessé de SouzaA ralé brasileira.
João Vicente GoulartJango e Eu.
Jorge Ferreira; Américo FreireA razão indignada: Leonel Brizola em dois tempos.
Jorge Ferreira; Angela de Castro Gomes1964 – O golpe que derrubou um presidente, pôs fim ao regime democrático e instituiu a ditadura no Brasil.
José Carlos de AssisA chave do tesouro.
José Carlos de AssisOs mandarins da República.
José Carlos de AssisA dupla face da corrupção.
José EmilianoCarlos Marighella: o inimigo número um da ditadura militar.
José Fábio QueirozContrarrevolução burguesa no Brasil.
José Paulo NettoPequena história da ditadura brasileira.
José Willington GermanoEstado militar e educação no Brasil (1964-1985).
Judith PatarraIara.
Júlio José ChiavenatoO golpe de 64 e a ditadura militar – Coleção Polêmica.
Leandro SeawrightRitos da oralidade – a tradição messiânica de protestantes no regime militar brasileiro.
Leneide Duarte-Plon; Clarisse MeirelesUm homem torturado: nos passos de frei Tito de Alencar.
Leôncio NossaMata!
Luciano CapistranoGolpe militar no Rio Grande do Norte e os norte-riograndenses mortos e desaparecidos – 1969-1973.
Luiz Roberto Salinas FortesRetrato calado.
Marcelo GodoyA casa da vovó.
Marcelo RidentiO fantasma da revolução brasileira.
Marcelo Rubens PaivaAinda estou aqui.
Marcelo Rubens PaivaFeliz ano velho.
Marco Antonio VillaDitadura à brasileira.
Marcos Napolitano1964 – História do regime militar brasileiro.
Marcos NapolitanoHistória e música.
Marcos SilvaBrasil – 1964 / 1968 – A ditadura já era ditadura.
Maria Helena Moreira AlvesEstado e oposição no Brasil.
Maria José de RezendeA ditadura militar no Brasil – repressão e pretensão de legitimidade 1964-1984.
Maria Ribeiro do Vale1968 : O diálogo é a violência – movimento estudantil e ditadura militar no Brasil.
Maria Yedda Linhares (Org.)História Geral do Brasil.
Mário MagalhãesMarighella.
Matilde LeoniSombras da repressão: o outono de Maurina Borges.
Nilmario Miranda; Carlos TibúrcioDos filhos deste solo.
Paulo César GomesOs bispos católicos e a ditadura militar brasileira.
Paulo de Mello BastosA caixa-preta do golpe de 64.
Pedro Estevam da Rocha PomarMassacre na Lapa: como o Exército liquidou o Comité Central do PCdoB, São Paulo, 1976.
Pedro Henrique Pedreira CamposEstranhas catedrais.
Ramon Casas VilarinoA MPB em movimento.
Reinaldo GuaraniA fuga.
René Armand Dreifuss1964 – a conquista do Estado, ação política, poder e golpe de classe.
Roberto Sander1964 – O verão do golpe.
Rodrigo LacerdaA república das abelhas.
Rodrigo Patto Sá MottaAs universidades e o regime militar.
Ronaldo Costa CoutoHistória indiscreta da ditadura e da abertura – Brasil: 1964 – 1985.
Samantha Quadrat; Denise RollembergHistória e memória das ditaduras do século XX.
Sandra Regina Barbosa da Silva Souza“Ousar lutar, ousar vencer” história da luta armada em Salvador.
Sonia Mendonça; Virgínia FontesHistória do Brasil recente – 1964-1980.
Soraia AnsaraMemória política, repressão e ditadura no Brasil.
Vinicius Caldevilla; Wanderley LoconteA ditadura no Brasil – coleção por dentro da história.
Zuenir Ventura1968 – O ano que não terminou