Histórias da Ditadura

Artigos

Mario Benedetti
22
dez
2019

Resenha: Andaimes, de Mario Benedetti


Mario Benedetti adverte em seu andaime preliminar que o livro “de nenhum modo pretende ser uma interpretação psicológica, sociológica nem muito menos antropológica de uma repatriação mais ou menos coletiva” (BENEDETTI, 2018, p. 14). Deste modo, o reencontro de Javier com o Uruguai é uma elaboração ficcional e deve ser tratada como tal. Após 20 anos de exílio, ele retorna à margem oriental do Prata e, em pequenezas cotidianas, vai recolhendo o país que lhe é possível. Os andaimes sustêm-se sobretudo no diálogo com quem ficou, nas cartas trocadas com quem resolveu não voltar e nas crônicas enviadas a um jornal de Madrid, formando um romance certamente fragmentado, mas que mobiliza, portanto, esse movimento restaurador.

Através da hibridez na forma, o autor investe em procedimentos que o permitem pouco distender-se sobre acontecimentos, provocando aproximações com o ensaio: Andaimes é um exercício íntimo e doméstico de escrita sobre um país. Javier forma uma imagem como se pintada sobre um tecido puído, num gesto de apresentação dos buracos, dos esgarçamentos, das fragilidades, e, por que não, do fracasso? Afinal sua geração precisa simbolizar a imensa frustração de ter sido esmagada em seus sonhos de mudar o mundo – no caso de parte das nações do cone sul da América Latina, esmagados por coturnos militares.

Logo no início do romance, lê-se diálogo entre Javier e um amigo em que o primeiro diz ter sentido falta de ver o mar. Mas o que vê à sua frente é o Rio da Prata, tornando-se mar em suas apropriações. E o texto de Benedetti percorre as páginas justamente numa investigação de como abrir-se para afetos esquecidos. O narrador, como todo latino-americano, está aprendendo a falar de si – descobrindo como balbuciar, como assumir o esgarçamento do tecido.

– Olha, Madri é uma cidade lindíssima, mas seria realmente maravilhosa se a transportassem para a costa. É muito deprimente não ver nunca o mar.

– Aqui é rio. Não se esqueça.

– Essa é uma discussão histórica. Ridícula, além do mais. Para mim é mar e acabou. Você, nascido e criado em Malvín, dizia ou pensou alguma vez que vivia frente ao rio? Sempre o ouvi dizer que suas janelas davam para o mar.

– Isso é semântica e não geografia.

– Pois me agrada o mar semântico. (BENEDETTI, 2018, p. 20)



Escrito e publicado nos anos 90, Andaimes é a obra de um autor que investiu no fôlego estético de suas elucubrações. Pouco mais de duas décadas depois, a literatura latino-americana não apenas segue pensando como abrir o debate sobre seus antagonismos, mas ainda percorre procedimentos inespecificadores – trazendo ao texto uma escrita que desestabiliza sua autonomia, ou seja, investe no “romance que não parece um romance”, que se assemelha a uma sucessão de crônicas, ao diário, às cartas, às elucubrações internas etc., e não apenas de maneira a anexar esses procedimentos à narrativa, mas tornando-os o próprio texto. Formas de voltar pra casa (2014), de Alejandro Zambra, Volto semana que vem (2015), de Maria Pilla, A resistência (2015),de Julián Fuks, entre outras, são obras que incidem sobre um novo pacto representativo, que colocam em cheque os ancoramentos com o real ainda que para recuperar acontecimentos históricos.

O real é um acordo sobre a natureza do que será apresentado, que pode ser provocado por uma série de elementos que reafirmarão esse lugar de entendimento e de trato. O terreno ficcional é um jogo que se dá em um espaço-tempo determinado, que propõe elaborar estruturas inteligíveis e dentro de uma proposta compartilhada. Por fim, a arte não tem contas a prestar quanto à “verdade” do que diz, porque, no seu princípio, não está feita de enunciados, e sim de ficções, ou seja, de coordenação de atos. (COSTA, 2019, p. 44)



Portanto é coordenando atos (e formas textuais) que Mario Benedetti faz de seu romance um jogo de reelaboração afetiva de um país. Na medida em que Javíer redescobre semanticamente o Uruguai, ergue pontes para o encontro com o outro e dialogicamente pensar a experiência de expatriação e retorno. Andaimes assume o fracasso, os buracos, as lacunas, as histórias e problemas que não se fecham, num empreendimento que deixa em suspenso justamente aquilo que não vai sedimentar: a memória e sua apropriação por diversos atores.

Rafael Gurgel é bacharel interdisciplinar em Artes e mestrando em Literatura e Cultura pela UFBA. É colaborador permanente do site História da Ditadura.



Referências

Mario Benedetti. Andaimes. Trad. Mário Damato. São Paulo: Mundaréu, 2017.

Julia Morena Costa. O duplo pacto representativo: porosidades e enganos do real em Tijuana, de Gabino RodríguezAletria, Belo Horizonte, v. 29, n. 1, p. 37-51, 2019.