Histórias da Ditadura

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mulheres
13
jul
2020

Mulheres, tempo e trabalhos domésticos


“Uma noite, depois do jantar, falei a ela com orgulho de algum dinheiro que acabara de receber graças aos meus livros. Disse “ganhei”, pretérito perfeito, primeira pessoa do singular. Ela, que tinha tirado a mesa e agora passava uma camisa minha – eu viajaria no dia seguinte, vivia partindo –, me corrigiu sem sequer erguer os olhos da tábua:

– Nós ganhamos. Você não teria escrito nem meia linha sem mim.

Acrescentei depressa:

– Claro, você sempre esteve por perto, sua presença foi fundamental.

– Não minha presença, que presença, estou falando de meu tempo. Nas coisas que você escreve, em suas andanças por aí, em seu sucesso, em seu exibir-se e receber cumprimentos e ser festejado há um monte de tempo meu.

– Sim, Bertolt Brecht: ‘Uma vitória a cada página./ Quem cozinhou o jantar da vitória?’

– Cozinhar é o mínimo, bastaria um salário de cozinheira. Você me deve muito mais.

Eu a olhei perplexo. Estava de pé, na cozinha, passando o ferro para cá e para lá de olhos baixos, parecia querer evitar sobretudo o risco de falsas pregas.

– Você tem razão – atalhei –, me desculpe: nós ganhamos.”


Nesse trecho – desculpem, se muito longo – que reproduzo de Segredos, romance recém-publicado de Domenico Starnone, o narrador e protagonista é apanhado, com algum assombro e desconforto, pela observação de que seu trabalho só foi possível porque outro trabalho era exercido dentro de casa, silenciosamente, por Nádia, sua esposa. Até aquele momento, ele parecia naturalizar uma divisão das atividades: as suas eram propriamente um ofício, que envolvia o mundo exterior, viagens, reconhecimento, remuneração. As dela constituíam mera soma de afazeres, gestos – entre cansados e zelosos – repetidos automaticamente pelo corpo, em um constante passar o vinco das calças, pregar botões de camisas, preparar pratos quentes, ninar as crianças.


Com sua fala, a personagem feminina – a propósito, professora tanto quanto o marido – descortina o seu tempo, dedicado às tarefas domésticas, como condição do trabalho masculino. Assim, se dissolve a figura do provedor. Não existe “ganhei”, mas “ganhamos”.

A astúcia da subtração do tempo e da expropriação do trabalho feminino reside, exatamente, na dissimulação do trabalho doméstico como serviço pessoal para o homem e os filhos, motivado pelo amor. Com açúcar, com afeto. Uma vez transformado em manifestação natural da personalidade feminina, o próximo passo é tornar o trabalho doméstico invisível, muito embora ele exija esforços físicos e deixe rastros materiais – as refeições, a limpeza, a organização.

Contra as armadilhas da docilidade e dessa produção de invisibilidade, desde os anos 1970, feministas se detiveram na análise e na denúncia das assimetrias da divisão sexual do trabalho. Uma delas, Silvia Federici, sustenta que o trabalho doméstico é o mais importante na sociedade capitalista, porque dá origem aos trabalhadores[1]. Gerar, parir, alimentar, reconfortar, recompor: o cuidado feminino funda a organização capitalista, ao reproduzir a força de trabalho. A casa e a família seriam, nesse sentido, a fábrica das mulheres.

A não remuneração do trabalho doméstico feminino, uma combinação de serviços físicos, emocionais e sexuais, representa, segundo Federici, “a manipulação mais disseminada e a violência mais sutil que o capitalismo perpetrou contra qualquer setor da classe trabalhadora”[2]. Essa brutalidade, no entanto, não se esgota com a ausência de salário, mas se prolonga com o isolamento, isto é, a falta de contato e articulação entre as demais trabalhadoras, com a impossibilidade de traçar o começo e o término da jornada de trabalho e de estabelecer onde se encerra o trabalho e se iniciam os desejos.

As respostas a essa sorte de expropriação passam, em primeiro lugar, pela afirmação do óbvio: dar o nome correto às coisas e dizer trabalho aos que dizem amor. Desmistificar a feminilidade e o disfarce biológico onde há produção da força de trabalho. E, então, lutar por salários para o trabalho doméstico de mães e esposas. Também conforme Federici, a demanda por salário não as congelaria em um exercício perpétuo de tarefas da domesticidade, porque, ao contrário, investiria contra o papel social historicamente outorgado às mulheres, o de mão de obra não assalariada. O salário impeliria o capital a reestruturar as relações sociais, contribuindo, ainda, para interromper a falácia da celebração da exploração feminina, como se vê em comemorações como o Dia das Mães – e, acrescento, no elogio a supostas habilidades multitarefas das mulheres.

Volto à Nádia, aquela professora-esposa-mãe, na Itália dos anos 1970, criação literária de um autor. Quantas Nádias devem ter saltado das páginas de um romance e inventado sua própria voz em diálogos como esse, cinquenta anos depois? Quantas outras os travaram só em pensamento, caladas?

Por certo, não são poucas. De acordo com o relatório Tempo de cuidar da Oxfam, ao redor do mundo, mulheres e meninas dedicam 12,5 bilhões de horas, todos os dias, ao trabalho de cuidado não remunerado. Não vale para elas a ficção capitalista – e sexista – de que tempo é dinheiro. Convertidas, essas horas significariam10,8 trilhões de dólares por ano à economia global, cifra que equivale a três vezes o valor da indústria da tecnologia.

No Brasil, o desequilíbrio entre tempo, trabalho doméstico não remunerado e dinheiro se traduz assim: por aqui, as mulheres trabalham quase o dobro de horas que os homens nas atividades domésticas e no cuidado de parentes, em um total de 21,3 horas, contra as 10,9 horas deles, de acordo com o IBGE. Se adicionada a jornada de trabalho fora de casa, elas trabalham 3,1 horas semanais a mais. Obtêm, no entanto, um rendimento médio anual 28,7% menor que o dos homens.

E, como não escrevo no vácuo, é preciso lembrar que essas disparidades tendem a se adensar com os efeitos, ainda por calcular, da pandemia de coronavírus: acúmulo de horas empregadas no trabalho doméstico, sobrecarga mental, milhões de desempregadas.

***

Agora, sugiro que retomem a passagem que abre esta coluna. Sobretudo às leitoras de classe média, brancas, como eu, que se identificaram com Nádia, peço que se projetem no lugar do personagem masculino. Ao tempo de quem devemos nossos trabalhos remunerados? Quem se incumbe de atividades exaustivas, que dispersariam nosso tempo? A quem terceirizamos o trabalho doméstico e de cuidado? O quanto da expropriação que experimentamos é transferida para trabalhadoras mal remuneradas? Por que o nosso tempo, que vale tanto, custa menos para outras? E quem são elas? O quanto se afastam de Nádia, aquela professora-esposa-mãe, de uma elite trabalhadora e intelectual?

É incontornável o encontro de raça, gênero e classe para conhecer essas trabalhadoras domésticas remuneradas. No Brasil, a interseccionalidade explica a cor que predomina nesses rostos e a história não nos deixa esquecer que o trabalho doméstico está assentado em sobrevivências, permanências das hierarquias sociais e raciais escravistas, como definiu Keila Grinberg, em artigo recente na revista piauí.

Por isso, é fundamental que pessoas brancas como eu compreendam as dívidas que herdamos do colonialismo, as posições que ocupamos, que se desdobram na maior vulnerabilidade de trabalhadoras domésticas negras. A suposição de que estamos igualmente irmanadas pelo trabalho doméstico –  de um lado, o não remunerado, de outro, o mal pago – “negligencia a história da escravidão, do colonialismo e do racismo nos quais mulheres brancas têm recebido sua parcela de poder branco masculino em relação tanto a mulheres negras quanto a homens negros”, na precisão das palavras de Grada Kilomba[3].

O reconhecimento de nossos débitos com o trabalho dessas mulheres, que passa pela valorização também de seu tempo, tem o potencial de rearranjar os papéis sociais. A garantia da dignidade do trabalho doméstico, com justa remuneração e direitos assegurados, libera tempo para quem, tradicionalmente, fez de seu lar espaço de construção de relações mais solidárias, de resistência e acolhimento libertador, como lembra bell hooks[1]. Talvez com a experiência dessas trabalhadoras possamos aprender a ressignificar a casa, demasiado burguesa, de que fala Federici, em lar.

Nathália Sanglard é historiadora e colunista do site História da Ditadura.



Notas:

[1] FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Elefante, 2017.

[2] FEDERICI, Silvia. “Salários contra o trabalho doméstico” [1975]. In: O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista. São Paulo: Elefante, 2019, p. 42.

[3] KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019, p. 101.

[4] hooks, bell. “Constituir o lar: um espaço de resistência”. In: Anseios, gênero e políticas culturais.


Crédito da imagem destacada: On a Saturday in the hot sun, the cleaning lady works to make the bosses’ weekend clean (Wikimedia Commons/ Marco Dias)