Histórias da Ditadura

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Direitas
08
jul
2019

O estudo das direitas na ordem do dia



Tradicionalmente, o fenômeno das direitas é uma questão mais rejeitada que estudada pela História e pelas Ciências Sociais. As análises sobre as esquerdas, por sua vez, constituem uma diversidade que abarca diferentes realidades e temporalidades.

Pelo menos desde 2014, quando ocorreu o I Colóquio Pensar as Direitas na América Latina, realizado na França, tem se formado uma rede de pesquisadores de vários países que envolve projetos de cooperação a partir de várias universidades. Em uma linha de continuidade, outros dois colóquios foram realizados: na Argentina, em 2016, e no Brasil, em 2018.

Parte das pesquisas apresentadas no último colóquio, realizado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), deu origem à coletânea Pensar as direitas na América Latina (Alameda, 2019), organizada pelos pesquisadores Ernesto Bohoslavsky (Argentina), Rodrigo Patto Sá Motta (Brasil) e Stephane Boisard (França).

Os trabalhos que compõem a coletânea são inéditos e originais. Foram produzidos por historiadores, cientistas políticos e sociólogos oriundos da Europa e das Américas. Há uma diversidade de olhares e interpretações sobre o fenômeno das direitas em países como Argentina, Brasil, Chile, México e Uruguai durante os séculos XX e XXI.

O contexto atual, marcado pela presença de ideias direitistas no cenário político, com a vitória eleitoral de partidos identificados com esse campo, evidencia a formação de uma onda que tem provocado um giro à direita em várias partes do mundo. Países como Argentina, França, Áustria, Itália e Estados Unidos são exemplos de que tal onda não se restringe a determinada região ou a um continente específico.

No Brasil, pelo menos desde 2013, temos assistido a manifestações públicas de ideias ultraconservadoras. Essas ideias puseram novamente na agenda política temas como o anticomunismo e uma leitura positiva da ditadura, que foi acompanhada de pedidos por intervenção militar, cuja pretensão primeira era a derrubada do governo de Dilma Rousseff. O Partido dos Trabalhadores (PT) passou a ser fortemente associado ao comunismo. Esta associação acabou por reavivar imaginários e leituras do passado inspiradas no período da Guerra Fria, exacerbada pela forte polarização política que tem tomado conta do país. O impeachment de Rousseff, em 2016 – antecedido por intensas mobilizações articuladas por grupos de direita que defendiam sua queda -, e a eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República, em 2018, foram evidências de que tal polarização havia fortalecido um dos lados e, consequentemente, enfraquecido o outro.

O alcance e a duração dessa onda, no Brasil e em outras partes do mundo, são difíceis de se precisar. Estamos no olho do furacão. Por mais que o passado possa nos dar alguns clarões sobre o presente, cada processo histórico é único e não linear. Entretanto, a compreensão do fenômeno das direitas em outros contextos históricos oferece subsídios para colocá-lo em perspectiva, possibilitando a problematização do passado e do presente.

Direitas
Capa do livro Pensar as direitas na América Latina (Foto: divulgação)

Um dos grandes méritos da coletânea Pensar as direitas, para além da diversidade temporal e temática, reside no fato de também se preocupar com as direitas no presente. Isso contribui para estabelecer um diálogo frutífero entre as várias partes a partir das quais o livro foi estruturado, a saber: as direitas na atualidade; think tanks, ONGs e redes; ideologia e culturas; religiões e religiosidades; e ditaduras, políticas públicas e vida política.

A pluralidade e a heterogeneidade do campo direitista tornam difícil estabelecer limites precisos entre os grupos e as tradições políticas que o compõem. Os trabalhos reunidos na coletânea conseguem discutir essas questões a partir de abordagens críticas e inovadoras, baseadas em fontes documentais bastante diversificadas, com suportes de natureza visual, escrita e oral. Outro mérito da obra está nas conexões que envolvem as distintas regiões analisadas em contextos históricos diferenciados.

Compreender a historicidade desse fenômeno, que retornou à ordem do dia, lança luz sobre os processos de transformação que caracterizam certas tradições políticas. Esse esforço permite-nos perceber permanências, contradições, leituras do passado, culturas políticas, inimigos, aliados, enfim, um amplo arco de matizes cuja análise representou um desafio que os pesquisadores dessa coletânea, a partir de distintas problemáticas, tentaram dar conta.

Diante do contexto atual, é cada vez mais importante a construção de estudos e análises que possam ajudar a explicar por que certas tradições políticas no campo das direitas são mais duradouras que outras. Além disso, é fundamental analisar em quais situações políticas e históricas foi e tem sido possível emergir forças políticas de direita capazes de influenciar o jogo eleitoral e a agenda política de muitos países. Tais estudos, ao focarem nas direitas, acabam por também evidenciar, em alguns casos, de que maneira as esquerdas se posicionaram frente a alguns desafios e o porquê de seu enfraquecimento, como no caso do Brasil atual.

A caricaturização das direitas, por si só, não ajuda a compreendê-las e, tampouco, derrotá-las. O sucesso de propostas políticas direitistas no contexto atual tem causado perplexidade. Até pouco tempo atrás, era difícil crer que essas agendas fossem ter algum tipo de evidência e adesão para além das hostes que, até então, víamos como isoladas e, assim, não ofereceriam qualquer tipo de ameaça às democracias e às liberdades individuais. Hoje não resta dúvida de que esse campo foi subestimado enquanto ganhava força em um contexto de crise do capitalismo que exacerbou as diferenças sociais e tornou atraentes projetos políticos marcados por vieses populistas, xenofóbicos, ultranacionalistas e fascistas.

Pensar as direitas na América Latina vem, pois, em boa hora. Trata-se de um esforço de compreender a complexidade desse fenômeno para além da caricaturização e a partir de sua historicidade. As abordagens interdisciplinares constituem outro diferencial da obra, pois sofistica uma análise construída por experientes estudiosos, mas também por jovens pesquisadores, que têm se somado a essa rede empenhada em responder aos desafios do presente a partir de ferramentas teóricas e metodológicas bem construídas pela História e pelas Ciências Sociais.

Trata-se de uma obra para especialistas, para aqueles que buscam adentrar nesse universo de pesquisa, mas também para o grande público, isto é, os não acadêmicos que têm interesse em compreender tal fenômeno a partir de sua pluralidade. Os conteúdos de algumas agendas políticas, embora para alguns possam ser novidade, já entusiasmaram homens e mulheres no passado ao custo da sobrevivência de muitos.

Certas circunstâncias históricas nos impelem a uma volta ao passado. Pensar as direitas cumpre esse papel de buscar responder aos anseios do presente a partir de olhares múltiplos que permitem compreender a historicidade de um fenômeno que se reinventa, mas mantém certas características em comum, independente do contexto histórico e do país.


João Teófilo é historiador e colaborador permanente do site História da Ditadura.