Histórias da Ditadura

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01
ago
2020

Construção de ideais: horror negro no Reno e refugiados


No fim de 2010, a autoimolação do comerciante tunisiano Mohammed Bouazizi desencadeou inúmeras inquietações políticas em países do Oriente Médio e do norte da África. Era o início da Primavera Árabe, um grito por mudanças que veio a ser o estopim de guerras civis. Dentre os principais conflitos, destaca-se a guerra da Síria. A destruição causada pelo enfrentamento de rebeldes e de forças do governo foi ofuscada pelo fortalecimento dos terroristas do Estado Islâmico (Daesh, por reivindicação dos próprios islâmicos). Mas por que entender isso? Simples. Pois, entre o Estado, os rebeldes e os terroristas, estão os civis obrigados a encarar uma saída forçada de seu país natal, compondo uma massa de refugiados em países vizinhos.

Os efeitos da guerra extrapolam o sentido militar, podendo moldar a vida privada, estabelecer novos modelos políticos e afetar o comportamento social. Observemos a Primeira Guerra mundial (1914-1918), causada pelas cicatrizes do imperialismo e do nacionalismo expansionista. A formação do tabuleiro geopolítico europeu ancorou-se nas ideias do darwinismo social, doutrina difundida por Herbert Spencer (1820-1903) que pregava, basicamente, a superioridade de determinadas sociedades em relação às demais. Na prática, o darwinismo social servia para legitimar a colonização europeia na África e na Ásia.

A ocupação de territórios coloniais, nos séculos XIX e XX, moldou impérios europeus que, mais tarde, colocaram à prova seu potencial bélico e sua profundidade nas modernizações da segunda Revolução Industrial. Além disso, a colonização não era apenas econômica e política, mas, também, na educação, na fala e no sentimento de pertencimento. Esses fatos são relevantes ao passo que a mentalidade colonial influenciava os batalhões coloniais na Grande Guerra.

Em 1910, o tenente-coronel francês Charles Mangin publicou seu ensaio La force Noire (A força negra), uma análise do exército francês, abordando pontos como redução da natalidade e despovoamento, defendendo o uso de batalhões negros a favor dos interesses da França. Mangin ficou marcado como um simpatizante da integração de colonos no exército, fato que passava longe de ser consenso entre as nações europeias. Apontando o caso dos senegaleses, Mangin via com bons olhos a utilização de indivíduos de outras regiões do “império”.

A agregação desses indivíduos colonizados era pautada no interesse nacional. Ter um exército enfraquecido e esvaziado não era uma opção, principalmente por motivos de vizinhança. A unificação a sangue e ferro (Blut und Eisen, discurso de Otto von Bismarck, em 1862) alemã consolidou-se com postura incisiva no cenário mundial, estabelecendo enormes avanços militares e industriais. Prova dessa postura foi o impasse envolvendo o porto marroquino de Agadir, em 1911, que quase antecipou hostilidades entre franceses e alemães.

A relação franco-germânica, no começo do século XX, reforçava a ideia de inimigos hereditários. O repúdio recíproco já havia sido encorpado com a rendição francesa na Guerra Franco-Prussiana (1871), fato diretamente ligado ao caso Dreyfus. Albert Dreyfus era um francês judeu, capitão do exército, que foi julgado por traição, acusado de entregar segredos aos alemães. Após uma forte campanha por justiça dos dreyfusards (acreditavam na inocência do acusado), ele foi inocentado. O caso representou a ascensão do pensamento antissemita na Europa (ARENDT, 1951) e do sentimento antigermânico entre os franceses.

Essa construção pautou as narrativas adotadas pelas duas nações no decorrer dos enfrentamentos contemporâneos. O revanchismo virou uma justificativa recorrente, sem restrições a lados específicos do mapa. Coroar o kaiser no Palácio de Versalhes (1871) afrontou o espírito francês. Mais à frente, a rendição alemã em Compiègne (1918), por exemplo, representou o fim das hostilidades na Primeira Guerra e inflamou a vontade de vingança alemã.

Inglaterra e França destacaram-se numericamente no uso de soldados coloniais, tendo a Alemanha recrutado em número menor (NELSON, 1970). No caso francês, os quadros militares eram oriundos da região norte e ocidental da África. Ainda que importantes, os soldados eram vistos com diferença e diversos mitos foram criados envolvendo sua imagem ou origem. Era o caso da suposta ferocidade animal aborígene ou senegaleses que carregavam orelhas de homens brancos em bolsas.

Em grande parte, essas histórias eram contadas por soldados germânicos, que enxergavam nos colonos a degeneração da civilização europeia, pautada em princípios de branquitude. A ideia de guerreiro selvagem foi tão difundida que, ao fim da guerra, civis reuniram-se para ver de perto os soldados coloniais e tudo aquilo que representavam.

O fim da Primeira Guerra mundial não teve ares de conclusão, pelo contrário, representou mais um capítulo do revanchismo. Woodrow Wilson, então presidente americano, propôs sua solução diplomática em 14 pontos. Era a visão que não massacrava os derrotados e visava anos de paz; falhou no Congresso americano e nas discussões dos vitoriosos. A França queria punir os alemães e assim o fez. Em 1919, foi assinado o Tratado de Versalhes (Ditado de Versalhes para os alemães, pelo caráter impositivo), colocando a Alemanha como principal responsável pela guerra, cobrando indenizações pela destruição, amputando o império e ocupando a Renânia.

Mitos construídos na Alemanha do pós-guerra já receberam estudos importantes de historiadores como Vinicius Liebel, que analisa o “mito da punhalada pelas costas”. O marechal Paul von Hindenburg, herói de guerra alemão, afirmou que a Alemanha fora traída durante a guerra, o que teria causado sua derrota. Essa traição teria sido obra de grevistas, pacifistas, movimentos de esquerda e judeus, dentro da já citada realidade antissemita.

A presença dos soldados negros já era realidade durante a discussão do armistício, mas foi fortalecida ao longo dos anos. Sua utilização também era prática, pois com a diminuição dos contingentes militares e o início da reconstrução do país, a mão de obra era necessária. Logo, os franceses, também embebidos de racismo, optaram pela volta dos brancos e pela utilização dos africanos no exterior.

No fim da guerra, o diplomata alemão Wilhelm Solf já apontava a necessidade de evitar a ocupação da Alemanha por negros franceses e americanos (NELSON, 1970). Seu discurso recebeu coro das autoridades alemãs, que chegaram a reivindicar, sem sucesso, a proibição do uso de soldados “não brancos” em tropas de ocupação.

A opinião internacional sobre o tema era muito diversa, mas até mesmo nações aliadas (caso da Inglaterra) consideravam um exagero a atuação francesa em solo alemão. O artigo de Keith Nelson, publicado em 1970, reproduz uma conversa entre um sulista estadunidense e um francês, onde a mentalidade racista de parte da sociedade dos EUA é visível com visões animalescas do negro. O primeiro-ministro francês Georges Clemenceau ambicionava a Renânia e não deu ouvido às indagações internacionais, intensificando o alistamento dos colonos no fim da guerra.

O número total de soldados estacionados na região do Reno variou ao longo dos anos, indo de 200.000, em 1919, e chegando a 85.000, no ano seguinte. Nem todos eram colonos ou negros, já que muitos não suportavam o inverno e eram substituídos. A maior parte dos colonos vinha da Argélia, Marrocos, Tunísia e Senegal, depois, chegaram os malgaxes (Madagascar). Apesar dos senegaleses representarem aproximadamente 10.000 soldados, aqueles que eram do norte da África dificilmente eram dissociados da classificação soldat noir (soldado negro). O oficial dessas tropas era sempre branco, demonstrando o limite hierárquico desses homens.

Com o exército destruído, a Alemanha só pôde oferecer resposta no campo da propaganda. “As hordas selvagens” seriam ferramentas francesas de terror e humilhação, visando a destruição dos princípios civilizatórios europeus. A brutalidade associada ao soldado negro durante a guerra foi elevada a outro patamar, apropriada pelo discurso carregado influenciado por anos de ódio e nacionalismo. Frases como black plague (praga negra) ocuparam manchetes de jornais e conversas entre famílias alemãs.

Sabendo do descontentamento, a França avançava sua ocupação, chegando ao Vale do Ruhr e alocando soldados marroquinos em Frankfurt, em 1920. Entre os britânicos, corria o discurso de que a França estaria colocando bárbaros no coração da Europa e que os negros aterrorizavam cidades alemãs (Theyset the city on fire). Primeiramente, as oposições germânicas mostraram-se fracas; já a partir de 1920, o movimento contrário à presença de negros unificou o discurso e passou a caminhar no sentido da desmoralização desses indivíduos.

Illustration, ‘Die Schwarze Schmach!’ (The Black Shame) Reproduced from Franzosen im Ruhrgebiet. 10 Zeichnungen von A.M. Cay. Berlin 1923


Para isso, as mulheres exerceram papel essencial na campanha. Como podemos observar no panfleto de E. D. Morel, The black horror on the Rhine (Horror Negro no Reno), a utilização do discurso sexual passou a ocupou o imaginário. Os soldados africanos eram acusados de estupros, mutilações, assassinatos e perseguições de mulheres brancas. Eram verdadeiros predadores para a imprensa alemã. Mulheres alemãs e de outros países assinavam declarações que confirmavam os atos criminosos desses bárbaros em solo alemão. A ideia do Die schwarze Schande (A vergonha negra) correu o mundo e chegou aos jornais estrangeiros, dividindo apoio e repúdio. Alguns americanos, por exemplo, organizaram um protesto na Madison Square contra os crimes na Renânia, reunindo 12.000 participantes. Entretanto, grande parte da imprensa estadunidense não comprou a ideia, o Times classificou como crime o fim do comércio turístico da região.

Extrato de filme de propaganda alemão. in L’Illustration, 1921 [août]. © BDIC


A exploração do discurso sexual estava ancorada diretamente na perspectiva racista da sociedade alemã, chegando a cunhar moedas com essas alusões. Outros cidadãos ajudaram na campanha de assistência aos soldados (Comité d’Assistance aux Troupes Noires), médicos desconstruíram o boato de que eles traziam tuberculose, mulheres próximas negavam as alusões ao estupro, mas o estrago já estava feito. Segundo a imprensa, o homem negro era vítima de um “assombroso instinto sexual” e grupos femininos iam às ruas reforçar essa narrativa. As estatísticas não comprovaram esse discurso. Dentre os milhares de soldados, 30 ocorrências foram investigadas em 18 meses, muitas influenciadas pela campanha difamatória. Os crimes sexuais existiram, mas foram colocados na perspectiva racial e restritos aos negros.

Moeda representando soldado negro francês e uma mulher alemã amarrada a um pênis, Struck Bronze Satirical Medal, 21.73g., 36mm, by Karl Goetz, 1921


É grande o potencial da guerra psicológica e da construção dos ideais de inimigo em uma sociedade em crise. Hitler, antes de chegar ao poder, colocou a responsabilidade do Horror Negro nos judeus. Segundo ele, foram os semitas que abriram as portas da Alemanha para os selvagens negros, visando a destruição pela bestialização (NELSON, 1970). Alfred Rosenberg, o ideólogo do nazismo, acusou a França de tentar desumanizar a Europa, pois integraram o inimigo judeu. Não por acaso, a propaganda nazista utilizou da imagem do abuso de uma mulher ariana pelo soldado francês.

Brutalité. Bestialité. Égalité, carte postale, c.1916. © Coll Eric Déroo


No tempo presente, o rótulo de “horda selvagem” recai sobre os refugiados, a maioria oriunda do conflito Sírio. Por mais que a Europa não seja o principal destino, o número de pessoas buscando asilo é o maior desde a II Guerra Mundial. O espírito cosmopolita e multicultural da globalização é levado ao ápice e a extrema direita responde com xenofobia. Grupos como o Pegida e AfD (Alemanha), Jobbik (Hungria), Aurora Dourada (Grécia), Rassemblement National (França), representam o espírito racista e nacionalista discutido ao longo do texto.

Outros movimentos já estão no poder, é o caso do Fidesz, na Hungria, e o PiS, na Polônia. Em 2016, a revista polonesa wSieci estampou em sua capa uma mulher branca sendo segurada por braços masculinos e o título era: Estupro islâmico da Europa. Fato que fez o jornal inglês The Guardian associar a campanha à propaganda nazista.

Alinhada à direita polonesa, a revista tem histórico de capas polêmicas (Foto: Reprodução)


 Já em 2018, o site gatestoneinstitute.org trouxe um texto de Soeren Kern intitulado: Alemanha: Crise de estupros perpetrados por migrantes ainda semeiam terror e destruição – Mulheres e crianças são sacrificadas no altar da correção política. Nesse caso, o texto aponta uma suposta flexibilização da lei alemã em relação aos refugiados (tratados a todo momento como migrantes) como parte do plano para não prejudicar a política de portas abertas da chanceler Ângela Merkel. Termos como migrantes estupradores são comuns nessas abordagens.

Semelhanças entre as construções históricas do discurso, na realidade europeia em contextos de instabilidade, chamam a atenção. A crise dos refugiados afetou inúmeros países de forma direta e indireta, mesmo aqueles que não possuíam nenhum grau de ligação. A reação à entrada dessas pessoas configura-se como pauta de grupos extremistas conhecidos pelo seu histórico antissemita e, cada vez mais, islamofóbico. Portanto, lidar com os crimes sexuais pela perspectiva racial é claramente a instrumentalização de um dos maiores males da sociedade por grupos que defendem a perseguição de minorias e atentam contra os direitos humanos.


Carlos José Bauer da Silva é mestrando em História pela UFF e colunista do site História da Ditadura.



Referências:

MANGIN, C. La force noire. França, 1910.

NELSON, K. The “Black Horror on the Rhine”: Race as a Factor in Post-World War I Diplomacy. The Journal of Modern History Vol. 42, No. 4 (Dec., 1970), p. 606-627.

NELSON, K. The “Black Horror on the Rhine”: Race as a Factor in Post-World War I Diplomacy. The Journal of Modern History Vol. 42, No. 4 (Dec., 1970), p. 606-627.

REINDERS, R. Racialism on the Left E.D. Morel and the “Black Horror on the Rhine”. Published online by Cambridge University Press: 09 January 2013.

WIGGER, I. The ‘Black Horror on the Rhine’: Intersections of Race, Nation, Gender and Class in 1920s Germany. Londres: Palgrave Macmillan, 2017.


Crédito da imagem destacada: Extrato de filme de propaganda alemão. in L’Illustration, 1921 [août]. © BDIC