Histórias da Ditadura

Artigos

Roberto Farias
30
set
2019

HD nas universidades | “Pra frente Brasil” e o cinema de Roberto Farias


Tese: Política como produto: Pra frente Brasil e o cinema de Roberto Farias

Autor: Wallace Andrioli Guedes (Lattes | Tese)

Orientadora: Denise Rollemberg Cruz

Instituição: Universidade Federal Fluminense, 2016

1. Qual a questão central da sua pesquisa?

Como o filme Pra frente, Brasil, que carrega em sua narrativa considerável carga política e que levantou questões fortemente políticas na sociedade brasileira quando de suas primeiras exibições e tentativa de lançamento nos cinemas, se coaduna com a trajetória profissional de Roberto Farias, cineasta acostumado a um cinema de gênero mais claramente comercial e que, além disso, havia sido funcionário bem-sucedido do governo do general Ernesto Geisel (1974-1979).

2. Resumo da pesquisa

O estudo busca compreender a trajetória do cineasta Roberto Farias em suas múltiplas complexidades, com especial enfoque no filme Pra frente Brasil (1982). Realizado nos anos finais da ditadura militar brasileira (1964-1985), momento em que o próprio Farias voltava a exercer o ofício de diretor de cinema, após bem-sucedida atuação no comando da estatal Embrafilme durante o governo do general Ernesto Geisel (1974-1979), Pra frente Brasil foi censurado por razões políticas. A partir dessa aparente contradição, de um profissional que fez parte do aparato estatal durante o regime ditatorial ter uma obra sua vetada por esse mesmo regime – e num contexto de abertura política –, busca-se, primeiramente, analisar a fundo o filme em questão, seus aspectos estéticos, narrativos e políticos, para compreender sua inserção e impacto no Brasil de 1982/1983 (capítulo 1); em seguida, discute-se em detalhes seu longo e controverso processo censório, em diálogo com as transformações por que passava também a censura naqueles anos de transição (capítulo 2); num terceiro momento, abre-se o leque analítico para a trajetória profissional de Farias, destacando os filmes que dirigiu (capítulo 3) e sua atuação à frente da Embrafilme (capítulo 4). É importante destacar que, mesmo com esse movimento de ampliação do olhar, Pra frente Brasil permanece no horizonte: propõe-se aqui um diálogo constante e complexo entre o filme e os elementos externos a ele, que permita compreender até que ponto sua realização significou de fato uma ruptura na carreira de Roberto Farias.

3. Quais foram suas principais conclusões?

Pra frente, Brasil, apesar de ocupar um espaço oposicionista importante no contexto da abertura, não representou grande ruptura com o cinema e com a trajetória profissional pregressos de Roberto Farias, marcados primordialmente pela busca pelo grande público e pela moderação política. A opção pelo thriller político e pela estética naturalista, feita por Farias em Pra frente, Brasil, influenciou produções cinematográficas posteriores, que também têm como tema o período da ditadura militar. A postura pública conciliatória e de rememoração dos serviços prestados ao governo Geisel, assumida por Farias durante a controversa censura ao filme, bem como as ambiguidades e abrandamentos da crítica ao regime presentes na narrativa, reforçam essa preocupação primordial do diretor com a exibição comercial de Pra frente, Brasil, colocada à frente da contundência política.

4. Referências

Tunico Amancio. Artes e manhas da Embrafilme. Cinema estatal brasileiro em sua época de ouro (1977-1981). Niterói: EdUFF, 2000.

Mariza de Carvalho Soares; Jorge Ferreira (Org.). A História vai ao cinema. Rio de Janeiro: Record, 2001.

Maria Helena Capelato [et al.]. História e cinema: dimensões históricas do audiovisual. 2ª ed. São Paulo: Alameda, 2011.

Denise Rollemberg; Samantha Viz Quadrat (Org.). A construção social dos regimes autoritários: Brasil e América Latina, volume II. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

José Mário Ortiz Ramos. Cinema, Estado e lutas culturais: anos 50, 60, 70. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.

Wallace Andrioli Guedes é bolsista de pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Juiz de Fora, onde desenvolve a pesquisa “Censura ao cinema no final da ditadura militar: limites da abertura na gestão de Solange Hernandes na DCDP (1981-1985)”. Doutor e mestre em História Social pela UFF. Graduado em História pela UFJF. Foi professor designado na UEMG (2017-2018) e professor substituto na UFJF (2014-2016).

Caso queira divulgar sua pesquisa sobre temas relacionados às ditaduras latino-americanas do século XX ou sobre questões do Brasil contemporâneo, não necessariamente na área de História, escreva para o email: hd@historiadaditadura.com.br


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