Histórias da Ditadura

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28
jul
2020

Autoridade compartilhada ou negociada? Historiografia e Wikipédia no campo das batalhas disciplinares


Entendendo a importância de apresentar nossas pesquisas para um público mais diversificado do que aquele que já as acompanha, como colegas de curso e professores orientadores, decidimos utilizar o espaço desta coluna para comentar, em linhas gerais, os temas de nossos Trabalhos de Conclusão de Curso, que em breve serão apresentados na Universidade Federal de Santa Catarina. A coluna de hoje fala das relações entre a historiografia e a Wikipédia, tema do TCC de Lucas Pianta, com a adição de debates que dizem respeito a reflexões construídas em conjunto, no âmbito da produção colaborativa que nos dispomos a fazer.

Wikipédia e historiografia têm sido postas em diálogo desde, pelo menos, 2006, quando Roy Rosenzweig publicou o artigo “Can history be open source? Wikipedia and the future of the past”, lançando uma pergunta que ainda hoje ressoa nas mentes ocupadas pelas relações entre Wikipédia e história: “seriam os wikipedistas bons historiadores?”.[1]

Lugar comum nos trabalhos que dão sequência à questão de Rosenzweig é a comparação entre o fazer wikipédico e o fazer historiográfico, levantando fatores como a autoria coletiva do texto na Wikipédia, a avaliação por pares e a autoridade sobre o conteúdo do texto histórico na plataforma, com a qual nos ocuparemos nesta coluna.

A quem pertence a autoridade sobre o texto na Wikipédia?

A Wikipédia é regida por cinco regras principais, conhecidas como Cinco Pilares. Os Cinco Pilares garantem que o texto dos verbetes não seja argumentativo ou apresente ideias e opiniões de quem o escreve, assim como não seja uma análise das fontes consultadas. Os verbetes devem apresentar os temas de maneira imparcial e direta, informando ao leitor aquilo que foi consultado em referências sobre o tema principal do verbete. Desta forma, se um verbete tem como tema principal um livro, deve citar trabalhos, notícias, sites ou blogs que o tenham analisado, em vez de ser por si só uma análise da obra.  Outro fator regido pelos Cinco Pilares é o caráter livre do conteúdo, que pode ser editado por qualquer um na Wikipédia e reproduzido externamente, desde que sob a mesma licença e com os devidos créditos à plataforma.

Estes são os fatores levados em conta no momento de se avaliar a qualidade de um verbete. Qualquer edição que fuja dos Cinco Pilares é passível de exclusão ou modificação por parte dos outros editores da comunidade. Assim, a autoridade sobre o texto pertence à comunidade de editores da Wikipédia, cujo comportamento é regido por cinco regras principais. Então, antes de qualquer fator histórico ser avaliado em um verbete de história, o que é avaliado é o respeito aos cinco pilares, e à comunidade da Wikipédia.

Este processo também afeta uma relação de autoridade sobre o texto: um historiador que escreve um verbete sobre história na Wikipédia não pode, por exemplo, argumentar com titulações ou ideias apresentadas em trabalhos que escreveu, inclusive se o verbete falar sobre seu próprio trabalho. Da mesma forma, se alguma informação cara à historiografia for adicionada a um verbete, mas ferir algum princípio da Wikipédia, será passível de exclusão. Pensando hipoteticamente, podemos dizer que na Wikipédia um estudante de Ensino Médio tem direito de fazer alterações em um verbete de história escrito por um doutor em História e especialista sobre o tema. O fato de ser especialista não fará diferença, a não ser que a especialização seja utilizada para reunir um conhecimento apresentado em alguma nova edição, ou argumentação, que siga as regras da plataforma.

Assim, a autoridade profissional e disciplinada sobre o texto de história é posta em xeque. Além das questões mobilizadas através de níveis de graduação e hierarquias da profissão, as questões mobilizadas através de metodologias, conceitos, avaliações e ideais têm real validade nos limites da historiografia, fora da Wikipédia. Isto não significa que a historiografia não possa ser enunciada no debate em alguma discussão sobre o conteúdo de um verbete, feita nas Páginas de Discussão[2]. Este debate, no entanto, ocorre mais uma vez nos limites dos Cinco Pilares.


Na Wikipédia, a autoridade do historiador sobre o texto histórico é compartilhada com a comunidade?

Existem alguns limites quando falamos em autoridade compartilhada, ao menos na Wikipédia. Em primeiro lugar, porque historiografia e Wikipédia apresentam processos e dispositivos disciplinares diferentes. Portanto, são autoridades diferentes sobre diferentes formas de produção e de apresentação do texto. Um historiador-wikipedista pode, sem problemas, modificar ou editar um verbete sobre Física ou Biologia, mas fora da Wikipédia não o pode fazer, pelo menos não nos limites profissionais da Física e da Biologia. Isto não se dá por a Wikipédia ser um ambiente onde diferentes disciplinas ditas científicas compartilham autoridades entre si, mas por ser um ambiente disciplinado por diferente dispositivos, com diferentes intenções e diferentes formas de reprodução.

O que o historiador pode fazer na Wikipédia é negociar com a comunidade e os Cinco Pilares ao mobilizar um conhecimento profissional, mas de um modo indisciplinado[3]. Isto significa que precisamos abrir mão de alguns pressupostos e dispositivos disciplinares para que possamos nos inserir na comunidade da Wikipédia como historiadores. Ao escrever um verbete de história na Wikipédia escrevemos um texto, antes de tudo, Wikipédico. Precisamos entender, por exemplo, que fora de nossos limites o passado é acessado e utilizado de maneiras práticas, como apresentado por Hayden White (2010)[4], mobilizando um interesse cotidiano de se entender uma referência a um evento ou um personagem histórico, como a invenção da lâmpada elétrica e a biografia de Thomas Edison, ou quem sabe a história por trás de uma receita famosa como o estrogonofe.

O uso da Wikipédia por profissionais da história é um desafio e o historiador-wikipedista personifica um conflito: é constituído de dois modos de ser diferentes e lida com dispositivos disciplinares diferentes. No entanto, não podemos comprar a ilusão de que por ser um espaço de múltiplas possibilidades de autoria e de constante negociação, a Wikipédia, representada por sua comunidade e seu conteúdo, esteja livre de críticas e da necessidade de reformulações.

Como demonstramos no artigo “Wikipédia: públicos globais, histórias digitais” publicado na Revista Esboços neste ano, o conteúdo histórico e de qualidade na Wikipédia apresenta uma série de lacunas e de vieses: é masculino, europeu e contemporâneo, deixando de lado a história de diversos povos, culturas e sujeitos que há pouco tempo passaram a protagonizar os livros, artigos e trabalhos de História.

Também por isso é importante que ocupemos a Wikipédia com o conhecimento construído profissionalmente, referenciando verbetes e construindo um trabalho crítico sobre seus pilares, verbetes e comunidade.

A partir desta exposição, deixamos aos nossos leitores uma provocação. Subvertendo a questão deixada por Rosenzweig, perguntamos: seriam os historiadores bons wikipedistas?

Lucas Piantá e Pedro Terres são graduandos em História e colunistas do site História da Ditadura.



Notas:

[1] ROSENZWEIG, Roy. Can history be open source? Wikipedia and the future of the past. The Journal of American History, v. 93, n. 1, p. 117-146, Junho, 2006.

[2] Cada verbete tem a sua própria Página de Discussão, que são espaços destinados a qualquer tipo de discussão referente aos assuntos dos verbetes.

[3] Ver: AVILA, Arthur; NICOLAZZI, Fernando; TURIN, Rodrigo (Org.). A História (In)disciplinada. Vitória: Editora Milfontes, 2019.

[4] WHITE, Hayden. O passado prático. ArtCultura, V. 20, n. 37, p. 9 – 19. Junho-Dezembro, 2018.


Referências:

AVILA, Arthur; NICOLAZZI, Fernando; TURIN, Rodrigo (Org.). A História (In)disciplinada. Vitória: Editora Milfontes, 2019.

ROSENZWEIG, Roy. Can history be open source? Wikipedia and the future of the past. The Journal of American History, v. 93, n. 1, p. 117-146. Junho, 2006.

TERRES, Pedro Toniazzo; PIANTÁ Lucas Tubino. Wikipédia: públicos globais, histórias digitais. Esboços, Florianópolis, v. 27, n. 45, p. 264-285, maio/ago. 2020.

WHITE, Hayden. O passado prático. ArtCultura, V. 20, n. 37, p. 9 – 19. Junho-Dezembro, 2018.


Crédito da imagem destacada: Wikimedia Commons/ Pedro Terres