Histórias da Ditadura

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Brilhante Ustra
26
ago
2019

O passado e o presente da ditadura em uma caixa de comentários no YouTube: um relato de pesquisa



Sempre que tenho oportunidade de falar sobre meu trabalho de conclusão de curso, recebo o olhar desconcertado de alguém que certamente entende o quão cheia de crueldades pode estar a caixa de comentários de um portal online. Projetado como espaço de diálogo entre os interlocutores de uma postagem, a caixa tornou-se uma ferramenta desagradável. Há, inclusive, uma máxima que circula há tempos pelas redes sociais: “Não leia os comentários!”. O internauta que deseja manter-se mentalmente saudável é assim aconselhado ao deparar-se com publicações que tratem de temas polêmicos. Independentemente da plataforma, compartilhar um conteúdo político em seu perfil é quase sempre um convite para que o membro mais enfurecido de sua lista de amigos irrompa na caixa de comentários. Quando não reage apenas com um “Grr”, no caso do Facebook, e segue deslizando os dedos pela tela do celular em busca do próximo desafortunado.

Apesar das boas intenções daquela máxima, eu e a professora Caroline Silveira Bauer, minha orientadora, resolvemos traçar o caminho inverso e partimos em direção às temidas caixas de comentários. O nosso objetivo era entender como são transmitidas as memórias acerca da última ditadura brasileira na internet, já que, estimulado pelas eleições presidenciais de 2018, momento em que produzimos o trabalho, o período foi bastante discutido nas redes sociais – não exatamente da forma mais cordial. Optamos pelo vídeo referente à tomada pública do depoimento de um ex-agente da repressão da ditadura, o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um nome que se tornou familiar após a mobilização de sua memória por parlamentares e movimentos sociais. Assim como os vídeos de relatos orais de sobreviventes do período, de militares apoiadores e opositores do golpe, entre outros documentos, as filmagens do depoimento de Ustra foram publicadas no canal do YouTube da Comissão Nacional da Verdade (CNV).

Instalada em 2012, a CNV atuou na investigação de graves violações aos direitos humanos ocorridas entre os anos de 1946 e 1988, tendo finalizado os seus trabalhos em dezembro de 2014[1]. Um grande número de pessoas ligadas ao tema da ditadura, de pesquisadores a familiares dos mortos e desaparecidos políticos, há muito aguardava uma iniciativa incisiva por parte do Estado brasileiro em relação aos crimes cometidos por seus agentes durante o período. A CNV representou a efetivação desses anseios, motivo pelo qual havia grande expectativa sobre o projeto e seus desdobramentos. As investigações, portanto, não poderiam ser realizadas sem que os comissionados estivessem dispostos a prestar contas a todos os interessados nos resultados. Não poderia ser mera burocracia. A criação de um canal no YouTube foi uma das estratégias encontradas pelos membros da CNV para divulgar os materiais elaborados pela Comissão e estimular o acesso ao conhecimento produzido por um projeto de tamanha proporção.

YouTube
Entrega do relatório final da Comissão Nacional da Verdade, dezembro de 2014. Foto: Júlia Lima/PNUD Brasil. Wikimedia Commons.

A escolha desse canal como objeto de pesquisa deve-se a um trabalho anterior, também sob orientação da professora Caroline Silveira Bauer. Entre os anos de 2016 e 2017, em um projeto intitulado “Um estudo sobre os usos políticos do passado através dos debates em torno da Comissão Nacional da Verdade (Brasil, 2008-2014)”, nossos objetos de pesquisa eram os materiais produzidos pela CNV publicados em seu canal no YouTube. Ainda não olhávamos para o canal como uma fonte em particular. Naquele momento, o que nos interessava eram os depoimentos dos ex-agentes da repressão da ditadura civil-militar. Gradualmente, a plataforma que nos garantia acesso a esses relatos foi adquirindo um significado ímpar. A cada depoimento assistido, percebíamos que havia um vasto universo de interrogações além dos vídeos em si: as curtidas e descurtidas, os conteúdos relacionados, a própria caixa de comentários.

Além da desafiante reunião de referências bibliográficas que fizessem menção ao YouTube do ponto de vista da história, também foi necessário vencer o obstáculo da delimitação de um objeto específico. Há mais de 500 vídeos disponíveis no canal do YouTube da Comissão Nacional da Verdade. Decididamente não seria possível inseri-los em sua totalidade em uma curta monografia, que demanda recortes e sínteses precisos. A escolha do vídeo referente à tomada pública do depoimento de Ustra deveu-se, principalmente, a dois fatores: além de ser o único ex-agente da repressão da ditadura civil-militar reconhecido pela Justiça brasileira como um torturador, é o terceiro vídeo “mais popular” (categoria atribuída pelo próprio YouTube) do canal em questão, atrás apenas do depoimento de Paulo Malhães, dividido em duas partes. A definição do procedimento de análise dos comentários, os nossos objetos de pesquisa propriamente ditos, foi uma tarefa igualmente complicada, uma vez que, à época, o vídeo contava com pouco mais de mil comentários. Minha orientadora e eu estávamos diante de mais um contratempo: seria possível analisar qualitativamente tantas manifestações?

O programa de análise de dados textuais IRaMuTeQ, elaborado pelo Laboratoire d’Études et de Recherches Appliquées en Sciences Sociales da Universidade de Toulouse, na França, foi uma ferramenta decisiva para o desenvolvimento do trabalho. Conhecemos o software durante o I Congresso Internacional em Humanidades Digitais, realizado no Rio de Janeiro, em abril de 2018, e aprendi a utilizar os seus recursos em um evento organizado por alunos do curso de pós-graduação em Políticas Públicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Isto é, a diversidade de áreas do conhecimento em questão, sem a qual não seria possível dar continuidade à pesquisa, é uma característica elementar das humanidades digitais, que dependem de uma sintonia interdisciplinar, do contato com grupos e pesquisadores para além de um único campo. No meu caso, não poderia escrever o trabalho sem atravessar os limites da disciplina histórica.

O estudo foi conduzido da seguinte maneira: criamos um corpus textual com 1.047 comentários (o número total de manifestações publicadas no vídeo até o momento da mineração dos dados), e inserimos o arquivo no IRaMuTeQ, submetendo-o a uma análise de similitudes, uma das várias funções do programa. O método permitiu observar distanciamentos e proximidades entre as expressões mais recorrentes do corpus – isto é, as palavras que mais apareciam nos comentários investigados -, resultando em um grafo intuitivo, uma demonstração visual da frequência de aparição dessas palavras e de suas relações. De acordo com a imagem abaixo, termos como “ustra” (assim mesmo, com a inicial minúscula), “comunista”, “coronel”, “terrorista”, “militar” e “brasil” aparecem em destaque, mantendo associações bastante sugestivas do ponto de vista histórico sobre a memória da ditadura.

Grafo resultante da análise de similitudes a partir de um intervalo específico de frequências (entre 30 e 275 repetições). Produzido pelo autor através do programa IRaMuTeQ, no dia 9 de novembro de 2018.

Em linhas gerais, a análise dos comentários revelou uma série de conflitos de memória a respeito da ditadura civil-militar brasileira, bem como de eventos e personalidades associados ao período. Alguns exemplos são as ligações entre as palavras “ustra” e “herói”, entre “terrorista” e “dilma” ou, ainda, entre os termos “militar” e “tortura”. Os comentários evocam incongruências entre os exercícios de lembrança e de esquecimento no que diz respeito a traumas históricos, alimentam certas visões sobre o passado. A caixa de comentários também é um espaço de conformação de grupos, de pequenas comunidades unidas em torno de um assunto que produz variados dissensos. Esses desacordos podem ser tomados como ponto de partida para uma observação construtiva dos anos de repressão, mas também podem vir a ser mecanismos de acirramento grave do debate público – o que parece ser o caso, dada a conjuntura política violenta do Brasil contemporâneo. Há quem diga que vivemos em um país “desmemoriado”, que não há futuro em um lugar que não valorize o seu passado. São diagnósticos, porém, que não parecem considerar a ênfase dedicada à ditadura no espaço público brasileiro, um destaque marcado pela justificação das violências e pela prática do negacionismo, ela própria uma produtora de memórias e esquecimentos.

A caixa de comentários revela, no limite, que é preciso arregaçar as mangas e compreender espaços pouco conhecidos pela disciplina. É preciso repensar certos fundamentos, observar os elementos inéditos surgidos com o advento da internet, mesmo adotá-la em nosso dia a dia, seja como uma fiel ferramenta de trabalho, seja como um objeto de pesquisa propriamente dito. Os chamados “públicos da história” são, também, perfis pessoais nas mais variadas mídias sociais utilizadas por milhões de indivíduos em quase todos os cantos do planeta. Não há razão em pensar as redes sociais como meras modas passageiras, tampouco como fontes de menor prestígio. Talvez, é claro, as plataformas em si tenham um tempo de vida curto, mas a sua potência colaborativa, para o bem e para o mal, é uma tendência da qual não se pode escapar.


Bruno Grigoletti Laitano é mestrando em História na UFRGS e colaborador permanente do site História da Ditadura. Seu trabalho de conclusão de curso, intitulado “Postando o passado: a difusão da memória da ditadura civil-militar brasileira na internet através do canal do YouTube da Comissão Nacional da Verdade”, está disponível no Lume, o repositório digital da UFRGS. Acesse em: <https://lume.ufrgs.br/handle/10183/189458>.



Nota:

[1] A CNV foi instituída pela Lei nº 12.528, de 18 de novembro de 2011, sancionada pela então presidenta Dilma Rousseff. Os debates parlamentares em torno da sua aprovação foram intensos, demonstrações substantivas da carência de garantias ou consensos sobre o período da ditadura. Essas discussões foram analisadas por Caroline Silveira Bauer na obra Como será o passado? História, historiadores e a Comissão Nacional da Verdade, publicada pela Paco Editorial no ano de 2017.


Crédito da imagem destacada:

Carlos Alberto Brilhante Ustra. Maio de 2013. Wilson Dias / Agência Brasil. Wikimedia Commons