Histórias da Ditadura

Hoje na Imprensa

05
fev
2017

‘Brasil é o caso mais bem sucedido de uma política de não-memória’, afirma a mulher que sobreviveu à Operação Condor.

O olhar de Lilian Celiberti, aos 67 anos, é o mesmo que encarou a câmera fotográfica da Polícia Federal brasileira, em novembro de 1978. O registro, aos 29 anos, foi feito logo após ela, os dois filhos, Camilo e Francesca, de 8 e 3 anos, e o companheiro Universindo Díaz terem sido sequestrados pelas ditaduras do Brasil e Uruguai, em Porto Alegre. Por uma semana, Lilian resistiu dentro do próprio apartamento, com os filhos convivendo com militares e agentes do DOPS, no prédio 621, da Rua Botafogo, no bairro Menino Deus. O sequestro foi flagrado em curso pelo jornalista Luiz Cláudio Cunha, da revista Veja, e ajudou expor a colaboração entre as ditaduras militares da América Latina, através da eficiente Operação Condor, a quem quisesse ver.

Os olhos castanhos, graúdos, seguros, seguem os mesmos. Hoje, Lilian é uma das mais importantes feministas e ativistas de direitos humanos do Uruguai. Além de militar pela justiça de transição, reparação e memória de mortos e desaparecidos, ela integra o coletivo Cotidiano Mujer, responsável por impulsionar a descriminalização do aborto no Uruguai e garantir direitos e o fim da exploração de trabalhadoras domésticas migrantes. Os cabelos negros da foto antiga ficaram mais curtos e grisalhos. E há serenidade em sua fala, mesmo quando conta sobre coisas difíceis de ser tocadas.

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