Histórias da Ditadura

Hoje na Imprensa

24
fev
2017

Entre barões e porões: Amílcar Lobo e a psicanálise no Rio de Janeiro durante a ditadura militar.

O que um episódio bizarro – a presença de um analista numa equipe de torturadores – ensina sobre os descaminhos da criação transgressora de Freud, quando controlada por instituições oligárquicas.

Em 2014 contam-se duas efemérides: os 100 anos da Psicanálise no Brasil, considerados desde a exposição de Juliano Moreira na Sociedade Brasileira de Psiquiatria, Neurologia e Medicina Legal, e os 50 anos de um golpe de estado que resultou numa ditadura (governada pelos militares, mas com participação e sustentação civis) no Brasil. Do entrecruzamento desses dois acontecimentos resulta um terceiro: a presença de um psicanalista em formação na Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro (SPRJ)1, nos porões da ditadura militar brasileira: o chamado caso Amílcar Lobo.

A instalação da Comissão Nacional da Verdade (tendo em sua composição uma psicanalista), em 16 de maio de 2012, “a fim de efetivar o direito à memória e à verdade histórica e promover a reconciliação nacional” (Brasil, 2011), deu ensejo ao surgimento de várias outras comissões da verdade, seja no plano estadual, municipal ou institucional. Em um depoimento prestado ao jornal Folha de São Paulo no dia 16 de junho de 20132, Maria Helena Gomes de Souza, viúva de Amílcar Lobo, reiterando que seu marido não foi torturador, afirma: “A Comissão da Verdade vai ter que me ouvir. Amílcar foi conivente com a tortura? Foi” (grifos nossos). Baseados nesse hiato entre ser torturador e ser conivente com a tortura, ter participado voluntaria ou involuntariamente, mas com certeza testemunhado os porões da ditadura e falado sobre isso, que os testemunhos de sua viúva e sua filha buscam perdoá-lo.

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