Histórias da Ditadura

Na Escola

10
out

Proposta de oficina – O diário de Anne Frank: a escrita de si como espaço de liberdade


 

 

Introdução

 

A história de Anne Frank nos convida a refletir sobre os perigos do anti-semitismo, do racismo e da discriminação. A leitura do seu diário é, sem dúvida, uma porta de entrada por meio da qual é possível trabalhar com os estudantes, os professores e a comunidade escolar como um todo sobre a importância de promover o respeito pelos Direitos Humanos, diversidade cultural e princípios democráticos. Nesse sentido, a atividade apresentada a seguir tem o objetivo oferecer aos professores de História uma proposta para, a partir da leitura do diário de Anne Frank, abordar e enfatizar o conceito de liberdade.

Promover a conscientização sobre os problemas relacionados à discriminação que ocorreram ao longo da história e seus marcos históricos paradigmáticos, permite que o aluno possa enxergar a realidade cotidiana em que está inserido com outros olhos, com outra sensibilidade e, assim, promover uma cultura de paz e a prevenção da violência.

A proposta se enquadra em uma pedagogia da memória. Uma pedagogia segundo a qual a memória é sempre um território de disputas, uma cena em movimento. Portanto, cabe ao professor de História a responsabilidade de promover práticas que renovem a ideia de memória como um espaço dotado de vitalidade.

Sem dúvida existem muitas diferenças entre o tempo de Anne Frank e o tempo em que vivem nossos alunos. Entretanto, partimos do pressuposto de que, como afirmou Hannah Arendt no texto A crise na educação, de 1957; “Não há educação sem referência ao passado”. Além disso, apresentar o Diário de Anne Frank aos alunos dos Ensinos Fundamental e Médio é uma estratégia para sensibilizá-los a produzirem seus próprios diários íntimos, uma vez que a escrita de si favorece a expressão, promove a autoestima e é uma ferramenta muito importante para enfrentar a realidade que nos cerca, como um potencial espaço de liberdade.

 

Anne Frank

Diário Anne Frank

 

 

O Diário como uma porta de entrada no mundo de Anne Frank

 

O diário íntimo é um gênero autobiográfico organizado em torno da referência de eventos que acontecem com o autor e de pensamentos e ideias que eles provocam, em diferentes dias de sua vida. O diário se configura como uma série cronologicamente ordenada de histórias e comentários, cada um com sua data, que, através de um exercício de memória, faz com que uma pessoa se torne narradora de sua própria história. No diário, o narrador se dirige a si mesmo ou ao próprio diário como interlocutor, de modo que se cria, na comunicação literária, a ficção de um desdobramento. O espaço do diário é a intimidade contada, o mundo interior que se reorganiza no momento em que se estabelece na linearidade da escrita, uma sequencia entre eles e os eventos de um dia em particular. O ânimo de expressar experiências e pensamentos é o que dá causalidade ao diário, o fio condutor entre ações e emoções. Embora o diário íntimo sempre tenha um ponto de partida, por causa dessa intenção de se tornar um narrador e destinatário da história da própria vida, é difícil encontrar um desfecho em sua trama. Pela maneira como é organizado, o diário pode ter continuidade enquanto tiver continuidade a vida a que se refere. Seus enunciados se configuram a partir de um relacionamento especial com a intimidade, uma vez que explicita no papel um mundo privado que parece fazer sentido apenas através do que ali é relatado, ou seja, no momento em que é transfigurado na narração de uma história em palavras comuns, de todos, públicas.

Anne Frank e sua família eram judeus alemães que emigraram para Amsterdã, capital da Holanda. Ao completar treze anos, em 12 de junho de 1942, Anne recebeu um pequeno caderno de presente. Estava encapado com um tecido xadrez vermelho e pretoe possuía uma pequena fechadura na frente. Embora se tratasse de um livro de autógrafos, Anne decidiu que o usaria como diário. Começou a escrever quase imediatamente. Na ausência de um “amigo da alma” a quem se dirigir, ela escrevia em seu diário como se estivesse conversando com uma amiga imaginária, Kitty. Assim ela iniciava suas narrativas diárias “Querida Kitty” (Anne teve uma colega, Kathe Zgyedie, que ela carinhosamente chamava de “Kitty”). Ela escreveu, na forma de cartas, sobre seu desempenho em sala de aula, seus amigos, os garotos com quem ele simpatizava e os lugares que ela gostava de visitar. Embora esses primeiros escritos em seu diário mostrem que sua vida era, em muitos aspectos, a vida típica de uma estudante, ela também descreveu as mudanças implementadas  na Holanda desde o início da ocupação alemã. Ela escreveu sobre as estrelas que todos os judeus deveriam costurar em suas roupas para andar nas vias públicas e também listou algumas das restrições e das perseguições impostas à população judaica de Amsterdã. Ela também escreveu sobre os problemas da vida dentro do esconderijo, as brigas com seus pais, seus desejos, vontades e medos, o nascimento do amor, seus passatempos e estudos. Em julho de 1942, Margot Frank, irmã mais velha de Anne, recebeu um aviso ordenando que ela se apresentasse para ser deportada para um campo de trabalhos forçados. Foi então que o pai de Anne e Margot, Otto, começou a colocar em prática o plano que havia preparado com seus funcionários mais confiáveis: a família se esconderia em salas camufladas nas instalações da empresa em Prinsengracht, uma rua que fazia fronteira com um dos canais de Amsterdã. Eles se juntaram a outra família de refugiados judeus, os Van Pels e Fritz Pfeffer. No total, oito pessoas viveram, durante meses, escondidas em um local muito pequeno e extremamente precário.

Colocar o Diário de Anne Frank nas mãos dos jovens é um desafio que nos exige, enquanto cidadãos, uma visão crítica e ativa de nosso passado. Conhecer obras dessa magnitude nos permite sensibilizar e discutir sobre o mundo social do qual fazemos parte. A leitura do diário aproxima os jovens de um período histórico marcado por discriminação, ódio e violência, que deixaram marcas indeléveis em muitas pessoas até os dias de hoje. Para muitos estudantes, esses fatos serão ouvidos pela primeira vez, enquanto outros já terão algumas informações. De todo modo, para todos será uma porta aberta para esse passado que devemos conhecer. Nesse sentido, entendemos que o texto precisa ser oferecido aos jovens como uma obra indispensável para os trabalhos da memória acerca dos eventos traumáticos.

O Diário de Anne Frank é uma escrita cheia de sentimentos e confissões, expressos por uma garota que está se tornando adulta, imersa em uma sociedade marcada pelo autoritarismo e pela discriminação. É um exame de si mesma e de seus arredores, mantido por muito tempo de maneira introspectiva, analítica e altamente autocrítica.

Em momentos de frustração, Anne relata a batalha que está acontecendo dentro dela entre a “boa Anne” que ela quer ser e a “má Anne” que ela pensa que é. O diário foi escrito em meio aos eventos históricos que ocorreram durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O Holocausto (o termo se refere a um ritual religioso da Grécia antiga no qual as ofertas aos deuses eram queimadas), também conhecido como o Shoá (em hebraico), é o nome que se aplica ao genocídio de aproximadamente seis milhões de judeus europeus e de muitos outros grupos na Europa e no norte da África, durante a Segunda Guerra Mundial. O Holocausto foi planejado e executado pelas forças nacional-socialistas da Alemanha, lideradas por Adolf Hitler, como parte de um programa deliberado de extermínio que envolvia assassinatos sistemáticos e industrializados. Os judeus e os ciganos foram trancados em guetos (bairros isolados e murados) antes de serem transportados por centenas ou milhares de trens de carga para campos de extermínio, onde a maioria deles foi morta em câmaras de gás. Todo o aparato burocrático alemão estava envolvido na logística dos assassinatos em massa.

Embora o diário íntimo seja um texto escrito apenas para si, Otto Frank, pai de Anne, decidiu publicar o texto de sua filha quando a guerra terminou, em 1945, quebrando essa fronteira entre o privado e o público. Após a divulgação, os escritos dessa menina em fase de crescimento começaram a ser encarado como um testemunho de guerra. A princípio, Otto não se atreveu a ler o diário de sua filha, mas, aos poucos, ele começou a ler e transcrever algumas partes que compartilhava com a família e os amigos. Eles imediatamente incentivaram Otto a publicá-lo. Para convencer o editor, Otto explicou por que achava que o diário teria um grande impacto: “O diário abarca tantas etapas da vida que cada leitor pode encontrar algo que o comova”. Desde sua primeira edição, o livro já foi traduzido para mais de 60 idiomas.

Para acompanhar a leitura desta obra, serão propostas situações de leitura conjunta. Sugere-se alternar a leitura do professor com a leitura autônoma dos alunos. A leitura mediada pela voz do professor, mesmo com jovens do nível médio, oferece a oportunidade para a experiência auditiva e é uma maneira de continuar aprendendo como um leitor atual faz para ler um texto tão peculiar quanto o diário de Anne. Quando os jovens têm o diário nas mãos, sozinhos ou em conjunto com um ou dois companheiros, ocorrem sucessivos reencontros com o texto e leituras autônomas serão propiciadas. O significado desses caminhos só será alcançado nas trocas que ocorrerem entre todos.

 

 

A leitura do diário

 

O professor que enfrenta o desafio de levar uma obra como o Diário de Anne Frank para discussão entre adolescentes deverá responder a algumas perguntas sobre as maneiras de ler o texto em sua aula:

  • Por que ler o diário de Anne Frank com adolescentes?
  • É necessário ler o diário inteiro do começo ao fim?
  • Como sustentar a leitura ao longo do tempo?
  • O que deve ser lido em conjunto e o que deve ser lido individualmente ou em pequenos grupos?
  • O que os alunos precisam saber para continuar lendo individualmente?

 

Muitas dessas perguntas serão respondidas diferentemente de acordo com cada ambiente escolar e cada grupo de alunos, mas é possível fornecer algumas diretrizes e sugestões que podem ajudar os professores a cumprir o seguinte objetivo geral: Aproximar o grupo das experiências e do momento em que o diário de Anne Frank foi escrito e discutir os efeitos que essa leitura produz sobre eles como jovens nos dias de hoje.

A leitura do Diário de Anne Frank requer, por parte do professor, um acompanhamento como leitor adulto que ajude a elaborar, contextualizar, pensar e discutir sobre diferentes temas e fatos históricos. Algumas possíveis intervenções dos professores serão:

  • Ler em voz alta, para toda a turma, alguns fragmentos do Diário.
  • Narrar o que acontece em algumas entradas do Diário, para avançar na leitura.
  • Criar memória, oralmente ou por escrito, para poder retomar a leitura sem perder a contextualização.
  • Propor temas que possam ser discutidos na sala de aula e fora dela.
  • Moderar discussões, oferecendo diferentes pontos de vista, através de da leitura de partes do diário que possam gerar polêmica e a troca de opiniões, promovendo a escuta de todas as vozes.

 

Para sustentar a leitura de um texto tão extenso e complexo, como o Diário de Anne Frank, diferentes modalidades de leitura simultânea podem ser desenvolvidas na sala de aula. Por um lado, o professor lê alguns fragmentos para toda a turma e propõe tópicos para comentar e debater; por outro, a leitura autônoma dos alunos pode ser organizada de maneira individual ou em pequenos grupos.

 

 

A leitura a partir da voz do professor: desenvolvimento inicial da atividade

 

A proposta de leitura conduzida pelo professor, em grupo e em voz alta, tem o objetivo de formar uma comunidade de leitores. Trata-se de um espaço destinado a criar em sala de aula uma comunidade de leitores do Diário, incentivados, através da voz do professor, a aprofundar o que leem (e ouvem ler), a comentar o texto e discutir as ideias causadas por essa leitura compartilhada.

Sugere-se, na tabela a seguir, algumas anotações do Diário que o professor pode ler durante a atividade e tópicos relacionados para discussão, os quais devem ser relacionados com a experiência das adolescentes e seus interesses particulares.

Datas de entradas do diárioTemas para discussão
Primeira Página do diário

Domingo, 12 de junho de 1942

 

Sábado, 20 de junho de 1942

Apresentação da obra.

Situação inicial: a história começa a partir do momento em que Anne recebe o diário

Primeiros motivos para a escrita do diário: por que Anne escreve o diário?

Domingo, 5 de julho de 1942.

Quarta-feira, 8 de julho de 1942.

Sábado, 11 de julho de 1942.

 

Partida para a clandestinidade.

As concepções de Anne sobre sua nova situação de privação de liberdade e sobre as primeiras consequências da ocupação nazista.

Terça-feira, 17 de novembro de 1942.

Sexta-feira, 19 de novembro de 1942.

 

Chegada à casa de um novo refugiado.

 

Como eram recebidas as notícias do mundo exterior?

Domingo, 2 de maio de 1943.

Terça-feira, 18 de maio de 1943.

Domingo,  11 de julho de 1943.

 

Importância dos livros e leitura durante o período de privação de liberdade.
Sábado, 30 de outubro de 1943.

Quarta-feira, 29 de março de 1944.

Terça-feira, 11 de abril de 1944.

 

A possibilidade de publicar o diário e compartilhar experiências
Terça-feira, 01 de agosto de 1944.

 

Sentimentos de Anne, como ela se via

 

Duração da atividade: de 45 a 60 minutos.

 

 

Os adolescentes leem por si sós: desdobramento da atividade

 

A introdução da leitura do diário de Anne Frank pode ser realizada através de diferentes modalidades de leitura. Ouvir ler e seguir um leitor experiente, como o professor, é um deles. Mas também existem outras maneiras de ler: individualmente, em pares, em pequenos grupos de encontro ou reunião. Ao ler individualmente, o leitor põe em jogo várias maneiras de conhecer o texto: lê “pulando partes”, para procurar um tópico ou informação de interesse; lê com atenção para aprofundar-se em uma história ou uma ideia; relê passagens para recuperar ideias ou sentir novamente a impressão que a primeira leitura produziu; avança na leitura para saber o que aconteceu com o protagonista; lê uma passagem em voz alta para compartilhar com outras pessoas algumas das leituras que chamaram sua atenção etc. Para orientar essa modalidade de leitura, o professor pode propor percursos de leitura que os alunos, em pequenos grupos ou individualmente, possam seguir e registrar para compartilhar com a turma.

 

 

Possíveis percursos de leitura 

 

  • O relacionamento de Anne com os membros da família: com a mãe, com o pai e com Margot, sua irmã.
  • Anne e seus afetos: o surgimento do amor, sexualidade e seu relacionamento com Peter.
  • Os sentimentos de Anne, como ela se via. Mudanças de humor, otimismo, caprichos. Anne e seu desejo de ser escritora.
  • O local de vivência da privação de liberdade e o significado da chegada de notícias do mundo do lado de fora.
  • Referências a humores e modos de ser de outras pessoas com quem convivia no meio fechado.
  • Refeições e atividades dos que convivem em meio fechado: hábitos alimentares, passa tempos e escolarização.

 

Adrianna Setemy é historiadora, professora de História e editora-auxiliar do site História da Ditadura.