• Carolina Maciel

A juventude em tempos de pandemia

A sociedade impõe à juventude uma série de normas, posturas e rótulos; como é o caso do mito de “responsabilidade pelo futuro da nação”, que esteve presente em todas as políticas para a categoria durante a ditadura militar. Para exemplificar, basta recorremos aos textos de alguns especialistas no período ou às narrativas dos chefes de Estado. Em 1978, na Universidade de Brasília, o então presidente da República, o general Ernesto Geisel, improvisou um discurso durante a inauguração da Faculdade de Tecnologia, no qual enfatizou a atenção prioritária de seu governo para o setor educacional, pois “[...] o futuro do país repousa na boa formação da nossa juventude”. Outra conduta, bem mais constante, é aquela que atribui aos jovens um modelo de comportamento dito rebelde: revoltados em relação a todos e a tudo (Meireles Neto: 2009, p. 2-3). Dessas definições limitadoras, podemos inferir que, apesar das expectativas em torno da juventude, precisamos perceber sua multiplicidade. Como afirma Paulo R. Meireles Neto, a juventude é uma categoria em disputa e, por isso, “[...] não se deve absolutizar as análises ou os elementos de identificação juvenil”. Dito de outro modo, não podemos aprofundar uma reflexão sobre a temática sem primeiro identificar que não há homogeneidade e estaticidade na categoria.

Assim, corroborando a ideia de multiplicidade de sujeitos e identificações que cabem na categoria “juventude”, apresento a coluna Faces da Juventude, onde pretendo desenvolver reflexões sobre o ser jovem e suas diversas frentes de ação e formação. A ideia central é fomentar o debate acerca das ações e dos discursos construídos e apropriados pelos jovens, ou imputados a estes, nos mais variados espaços políticos, sociais e culturais, em tempos de democracia ou de ditadura. Neste primeiro texto, proponho uma reflexão sobre os jovens em tempos pandêmicos. Começamos a segunda década do século XXI não somente com uma irrupção de obscurantismo ideológico, negacionismo científico, falta de transparência nas contas públicas e censura que nos remetem aos governos autoritários, mas também com uma epidemia global com uma nova estirpe do coronavírus.

Como afirmou Richard Krause, “[...] as epidemias são tão certas como a morte e os impostos”. A pandemia de COVID-19, diferentemente de como muitos pensavam, pegou governos e sociedades desprevenidos. Por mais que a tecnologia e os avanços científicos estejam em um grau de desenvolvimento elevado, as desigualdades sociais e econômicas elevaram as taxas de infecção e mortalidade em muitos locais. Os Estados Unidos da América e os países europeus, mesmo com poderio econômico capaz de enfrentar crises sanitárias dessa magnitude, acabaram tendo desempenho inferior ao esperado no combate a pandemia.

Em 2020, diante da crise sanitária e humanitária desencadeada pelo novo coronavírus, várias pesquisas foram empreendidas para identificar os impactos no cotidiano das mais diferentes categorias sociais. O Conselho Nacional de Juventude (CONJUVE) apresentou, em junho do mesmo ano, o relatório da Pesquisa Juventude e a pandemia do coronavírus. Conforme os dados levantados, a população jovem no Brasil soma 47,2 milhões (23%) de indivíduos com a faixa etária entre 15 e 39 anos, sendo a maior porcentagem registrada na história do país. Utilizando como metodologia a PerguntAção, desenvolvida pela Rede Conhecimento Social, foram realizadas oficinas de construção coletiva de conhecimento. Esse método, de acordo com o relatório, envolve o público pesquisado em todas as etapas do processo: “[...] a reflexão a respeito do tema, a concepção do questionário, a mobilização para a coleta de respostas e a análise dos resultados.”

De acordo com o relatório, “as oficinas com o grupo de jovens foram realizadas por meio de plataformas de videoconferência, com duração média de 2h30 cada encontro”. Foram selecionados 18 jovens de diferentes realidades, contemplando as 5 macrorregiões do país. O questionário foi respondido entre os dias 15 e 31 de maio de 2020, continha 48 perguntas, divididas em sete blocos temáticos: informação, hábitos, educação e aprendizado, economia, emprego e renda, saúde e bem-estar, contexto e expectativas, e perfil socioeconômico. Responderam ao questionário 33.688 jovens de todos os estados do país, dos quais 24.161 responderam o último bloco.

Os questionamentos norteadores da investigação foram: Quais os efeitos da pandemia do novo coronavírus para os jovens brasileiros? Como a pandemia afetou seus hábitos, sua relação com a educação e com o trabalho, sua situação econômica e sua condição de saúde? De que forma a crise provocada pela Covid-19 influencia suas perspectivas para o futuro?

Deixo o link do relatório completo para quem tiver interesse em aprofundar a leitura sobre a pesquisa. Para nossa reflexão, faço um recorte acerca dos efeitos da pandemia na questão educacional dos jovens, tendo em vista que são muitos e fervorosos os debates em torno do retorno às aulas presenciais. No último mês de janeiro, por exemplo, ocorreu uma grande discussão sobre a realização ou a suspensão do Exame Nacional do Ensino Médio, que acabou sendo realizado em meio a inúmeras críticas e com mais de 50% de abstenção.

Quando falamos sobre Educação, principalmente no Brasil contemporâneo, não podemos esquecer de mencionar o projeto de desmonte que o sistema de ensino do país vem sofrendo, especialmente desde o golpe de 2016. No simbólico dia 13 de dezembro desse ano, foi aprovada a PEC de congelamento de 20% dos gastos em Educação e Saúde, assinada pelo então presidente Michel Temer. Com a eleição da extrema direita, representada pela figura execrável de Jair Messias Bolsonaro, não foi diferente. Por meio de seus incapazes ministros da pasta da Educação, o presidente eleito criou um ambiente de cruzada contra o ensino e a pesquisa, com cortes e mais cortes, como o congelamento de 30% do orçamento de custeio e dos investimentos das universidades públicas do país, além do bloqueio de R$ 680 milhões da educação básica e 17% dos R$ 125 milhões autorizados para a construção e manutenção de creches e pré-escolas. Tudo isso em 2019.

Diante o esvaziamento dos recursos para a Educação, uma tragédia anunciada, somada à pandemia da COVID-19, os jovens estudantes foram forçados a terem aulas em plataformas digitais ou aplicativos de videoconferência. Uma nova dinâmica, um novo ambiente (o virtual) e outra relação Educador/Educadora X Educando/Educanda foi imposta. Não houve nenhuma preparação ou estudo que pudesse trazer maior compreensão sobre a inclusão digital no Brasil, cuja desigualdade foi exposta de maneira brutal durante o ano de 2020.



E essa desigualdade? Quem tem internet, sua casa confortável, não tem esse trauma que está na cabeça, esse medo de alguém pegar esse vírus...tá num aconchego tudo. Essa desigualdade tá mais, como posso dizer, tá mais acobertado, tá mais relaxado, do que nós que estamos lutando para entrar na faculdade, que uma tia, uma mãe ou um irmão morreu e os familiares estão em cima botando pressão... (Relato de jovem em Oficina de PerguntAção).

Conforme o relatório do CONJUVE, 2 em cada 10 jovens afirmam que a instituição de ensino não está oferecendo nenhuma atividade. Vejamos alguns relatos presentes no documento:

Aqui no interior de Alagoas, sabendo que muitos jovens não têm acesso à internet, eles [os governos], estão dando as aulas pelas rádios. Então muitos alunos estão utilizando os rádios nesse momento. Eles chamam aula-rádio.

Aqui em Mossoró, ela [prefeitura] aderiu a EAD e poucas pessoas vão participar e muitas pessoas que estão querendo participar estão perdidas. Não sabem como é, não sabem como vai acontecer. Só sabem quando vai começar e o período das matrículas. Até os professores estão perdidos.

Nas escolas particulares (...) [os professores] estão gravando videoaulas” e mandando pros alunos via WhatsApp e tendo aulas online por meio do zoom, mas, assim, todos os professores estão reclamando sobre isso, porque eles não têm essa didática de mexer na internet. Daí eles têm que editar vídeo, abrir sala de aula, sala de chamada, tudo o mais. Se pra eles já tá tendo uma dificuldade, imagina pro jovem que nunca soube pegar no computador direito.

Para além do aparato tecnológico, que em muitos casos é inexistente, e a falta de conexão com a internet, uma das dificuldades mais relatadas pelos jovens para o estudo em casa, com as atividades remotas, é a falta de um ambiente tranquilo. O desequilíbrio emocional individual e familiar tem sido, para 49% dos respondentes da pesquisa, uma dificuldade para o estudo domiciliar.

Relatório Juventudes e a Pandemia do Coronavírus – CONJUVE – junho/2020

Para este ano, seguem os mesmos ventos de 2020. Com a descoberta da vacina, a pressão das entidades privadas e de uma parcela da população pela volta às aulas presenciais assusta e gera ansiedade nos jovens e professores. Estes grupos ainda estão muito distantes da vacinação, em decorrência da desorganização e má vontade para a construção de um plano de vacinação sério e eficaz por parte do governo federal.

Em Fortaleza, por exemplo, aconteceram várias carreatas pedindo o retorno às aulas presenciais, incentivadas pelos sindicatos das escolas privadas e com a adesão de muitos pais. Foram espalhados pela cidade outdoors com os dizeres: “Praias e shoppings lotados. E por que escolas vazias?” São lançadas notas, como a que podemos ver abaixo:

Documento divulgado em redes sociais dobre a campanha (Foto: Reprodução/Instagram)

Diante da pressão, ao serem questionados se voltariam às aulas presenciais após o fim do isolamento social, muitos jovens, mais especificamente 28%, já pensavam em não voltar, ou seja, 3 em cada 10 jovens. Dos jovens de 15 a 19 anos, 19 a 24 e 25 a 29, respectivamente 24%, 29% e 30%, já se questionaram se deveriam voltar às aulas. Abaixo, temos um relato coletado em uma oficina de PerguntAção:



"Eu fui entrevistar os alunos que desistiram de estudar e, nessas entrevistas, eu vi muita sinceridade no olhar desses jovens onde eles diziam que tinha vontade de estudar, tinha vontade de conseguir um futuro melhor, mas a sua situação financeira obrigava a trabalhar para ajudar o sustento de casa. Então, eles tinham essa escolha ou continuo a trabalhar ou se não vou passar necessidades com minha família, sabe."


Uma reportagem publicada pelo jornal Diário do Nordeste, de agosto de 2020, denunciou que por conta da pandemia aumentaram os riscos de abandono escolar no Ceará. De acordo com a reportagem, em 2018, o Ceará reduziu em 5,5% esse índice em relação ao ano anterior, em que apenas 7,1% dos alunos matriculados abandonaram a escola (federais, estaduais e municipais).


Diante do exposto, como professora e cidadã, deixo para os leitores estes números e relatos como forma de questionamento. A proposta é gerar uma reflexação, que diferente de ser um voltar-se sobre si mesmo, te provoca/impulsiona a uma ação. Como diria Paulo Freire: “Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão”.

REFERÊNCIAS

BOURDIEU, Pierre (1983). A juventude é apenas uma palavra. In: BOURDIEU, Pierre. Questão de sociologia. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1983.

LIMA, Nísia Trindade, BUSS, Paulo Marchiori e PAES-SOUSA, Rômulo. A pandemia de COVID-19: uma crise sanitária e humanitária. Cadernos de Saúde Pública [online]. v. 36, n. 7.

MEIRELES NETO, Paulo Romão. A Juventude como sujeito social: elementos para uma problematização. Revista Pesquisa em Foco: Educação e Filosofia, São Luís, vol. 2, nº 2, p. 1- 6, abril de 2009.

SCHNEIDER, Catarina; TAVARES, Michele; MUSSE, Christina. O retrato da epidemia de meningite em 1971 e 1974 nos jornais O Globo e Folha de S. Paulo. RECIIS - Revista Eletrônica de Comunicação, Informação e Inovação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 9, n. 4, p. 1-13, out./dez. 2015

  1. Escrevo esse texto dia 15 de fevereiro de 2021, pelos dados do Painel Coronavírus, no Brasil estão contabilizadas 239.773 pessoas que perderam sua vida por conta da COVID-19, tendo sido infectadas 9.886.710 pessoas. Infelizmente, uma dessas pessoas foi meu pai, que faleceu em abril do ano passado. Assim, dedico esse texto as vítimas e famílias que foram afetadas por essa doença e pela ineficácia e incapacidade do Governo no enfrentamento à pandemia. Para acompanhar as estatísticas segue o link Coronavírus Brasil (saude.gov.br)

  2. Não custa nada lembrar-nos da epidemia de meningite que se alastrou pelo Brasil, na década de 1970, sob os auspícios do “milagre econômico” do governo do general presidente Emílio G. Médici. O governo foi notificado sobre a epidemia ainda em 1971, porém negou sua existência e destruição até 1974, quando no município de São Paulo foram registrados 12.330 casos, uma média de 33 casos por dia. Somente em 1975, foi realizada a Campanha Nacional de Vacinação contra a Meningite Meningocócica. SCHNEIDER, Catarina; TAVARES, Michele; MUSSE, Christina. O retrato da epidemia de meningite em 1971 e 1974 nos jornais O Globo e Folha de S. Paulo. RECIIS - Revista Eletrônica de Comunicação, Informação e Inovação em Saúde, Rio de Janeiro, v. 9, n. 4, p. 1-13, out./dez. 2015. ()

  3. No dia 13 de dezembro de 1968 foi decretado o AI-5.


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