• Cadu Barzotto

(Ainda) É possível sonhar na aula de História?

Atualizado: Set 10

Desde março de 2020, estamos presos na discussão sobre o retorno ou não das aulas presenciais. Afinal, devemos adotar um modelo híbrido? Devemos fazer todas as atividades remotas ou voltar ao ensino como era antes? Independentemente de estarmos realizando nossas atividades de forma presencial ou remota, a aula de História ainda está lá. Mas será que ela ainda faz sentido – ainda mais em um contexto de pandemia?

Muitos dirão que a aula de História é essencial para que os brasileiros e as brasileiras compreendam os seus passados e saibam os fatos e contextos que formaram o que hoje chamamos de Brasil. Outros podem argumentar que ensinar a disciplina é necessário para que os alunos e as alunas despertem criticamente para a realidade e, assim, mudem-na de modo a construir uma sociedade mais justa. Ambas as posições são corretas e legítimas, mas deixam de lado um dos fatores mais importantes de uma aula de História: o sonho.

No Historiar-se, nosso canal no YouTube, certa vez convidamos a professora Caroline Pacievitch para responder à seguinte questão: ainda faz sentido ensinar História? Entre colocações muitíssimo importantes, uma frase se destacou: “Ser professor de História é ser um profissional do sonho, mas é de um sonho desperto”. Os mais ortodoxos poderiam agora dizer: ora, mas e a cronologia? E o tempo? E os contextos?


Cronologias, tempo e contextos são, de fato, muito importantes para uma aula de História – mas também são imbuídos de sonhos. Como narrativa que é, o discurso histórico possibilita a realização da conexão entre passado, presente e futuro para estudantes e docentes. E o exercício de imaginar o passado, compreender o presente e pensar o futuro é, em si, um exercício onírico.

Aprender sobre o Egito Antigo, sobre as civilizações árabes ou mesmo sobre as famosas guerras mundiais é um exercício imaginativo. Afinal, diferentemente de disciplinas como Biologia e Química, em que o conteúdo apresentado pode ser demonstrado em sala, a História lida com o mundo abstrato, com um mundo que já não existe mais tal como no presente.

Neste exercício imaginativo, estudantes incorporam uma certa narrativa (ou algumas narrativas) sobre o passado – e, em seguida, ressignificam essa mesma narrativa. “Brincar” com o tempo em uma aula de História tem a potência de alterar significativamente o que Reinhart Koselleck (2013) talvez chamasse de espaço de experiência de um indivíduo, fazendo-o (re)pensar seu horizonte de expectativa.

Nesse sentido, a ideia aqui não é a de um retorno da história magistra vitae (história mestra da vida), mas de uma aula de História que proponha o autorreconhecimento de ser e estar no mundo de uma forma crítica e reflexiva à luz dos acontecimentos passados. É perceber-se enquanto sujeito agente de transformação social. Afinal, como já disse Paulo Freire, “o mundo não é, o mundo está sendo” (1996). Portanto há a possibilidade de mudar as coisas que achamos injustas na humanidade.

Imagem de duas crianças debruçadas sobre um livro que parecem estar lendo e pintando. Autor: Andrew Ebrahim. Unsplash.

Entrar em contato com a diversidade do passado e imaginá-lo é, enfim, alterar aquilo que se pensa do presente e aquilo que se quer do futuro. Afinal, se existiram outras formas e tipos de sociedades, por que não poderiam igualmente existir sociedades diferentes no futuro? Eis que o espaço da aula de História – mesmo na pandemia! – pode estar imbuído também de uma utopia concreta. Não uma utopia impossível e inalcançável, mas sim, como aponta Ana Maria Freitas (2010), uma esperança crítica, na qual uma possibilidade de futuro que escape ao presentismo que confronta nossos sonhos e expectativas seja possível.

O título da coluna que assinamos aqui no História da Ditadura, “História que não está no retrato”, aponta para mais essa faceta possível do sonho nas aulas de História. Conhecendo os acontecimentos e os sujeitos que “não estão no retrato” histórico tradicional, ampliamos nosso repertório de sonhos, possibilidades e utopias. Assim, escapando de um currículo eurocêntrico, cristão, das elites econômicas, masculino, branco e cisheterossexual, a aula de História pode permitir que alunos e alunas se vejam como responsáveis por suas próprias narrativas. Afinal, diferentemente do que tal perspectiva curricular propõe, também fizeram história os negros, indígenas, LGBTs e as mulheres, não é mesmo?

Em uma aula específica sobre a resistência à escravização que um dos autores dessa coluna estava realizando, uma aluna pediu a palavra pelo Google Meet. Sua questão central era: “Sor, algum dia viveremos em um Brasil sem racismo?”. Eis a potência da aula de História: em vez de dar respostas prontas, estimular a imaginação histórica; em vez de citar autores brilhantes como Djamila Ribeiro (que podem – e devem – ser citados em outros momentos), perguntar “Como? Onde o racismo ainda está? O que, enquanto sociedade, podemos fazer para construir tal sociedade sem racismo?”.

Tal forma de aventurar-se na narrativa histórica pode instigar questionamentos e possibilitar construções de projetos coletivos de sociedade. Saber que nem sempre foi assim e que tal povo já fez diferente desse povo tem o poder de inspirar-nos para pensar naquele futuro que queremos e, assim, construí-lo a partir do agora. Ao pensar no futuro que queremos, localizamo-nos no tempo, uma vez que ele é pensado a partir do presente tendo em vista o passado. Está aí posta, enfim, uma das potências de uma relação histórica possibilitada pela aula de História.


Texto escrito por Anita Natividade Carneiro e Cadu Barzotto.


Créditos da imagem destacada: Imagem de uma sala de aula vazia, com mesas enfileiradas e trabalhos expostos ao fundo. Autor: Feliphe Schiarolli. Unsplash.



Referências


FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

FREITAS, Ana Lúcia. Verbete Utopia. In: STRECK, Danilo R.; REDIN, Euclides; ZITKOSKI, Jaime José (Org.). Dicionário Paulo Freire. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2010.

KOSELLECK, Reinhart et al. O conceito de História. Tradução René E. Gertz. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013.


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