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Entrevista com a historiadora Heather Roller

Atualizado: 6 de jun. de 2023


A coluna Brasil por Brazil, editada por Lucas Koutsoukos-Chalhoub e Luiz Paulo Ferraz, busca aumentar as oportunidades para o público brasileiro conhecer pesquisas e obras sobre o Brasil produzidas fora do país entrevistando pesquisadores brasileiros e estrangeiros atuantes no exterior.


Heather Roller é professora de história na Colgate University (Estados Unidos). Nesta entrevista, conversamos sobre seu livro Contact Strategies: Histories of Native Autonomy in Brazil (Estratégias de Contato: Histórias de Autonomia Indígena no Brasil, em tradução livre) publicado pela Stanford University Press em 2021.


Qual o tema do livro e como surgiu a ideia de escrevê-lo?


Este livro começou com a revelação de que, por volta do ano 1800, grupos indígenas autônomos ainda controlavam efetivamente cerca da metade do território habitável do hemisfério ocidental. Vi pela primeira vez esta afirmação em um ensaio da historiadora Amy Turner Bushnell e não pude deixar de pensar na proporção do continente americano que permaneceu território indígena séculos após a chegada dos europeus.


Normalmente, resolvo minhas perguntas e curiosidades através do ensino. Portanto, há cerca de uma década, desenvolvi um curso comparativo que se centrava nas interações entre os grupos colonizadores e as sociedades nativas das Américas do século XVI ao XVIII. Eu queria me concentrar em todos os lugares onde a conquista e a colonização não tinham prosseguido de forma linear, ou onde elas não eram consideradas “acabadas”, ou aconteceram em escalas de tempo inesperadamente longas. Ao ter uma visão ampla da literatura relevante para este curso, percebi que havia vários estudos que olhavam para esta situação da perspectiva das sociedades estatais que queriam afirmar reivindicações mais fortes sobre as terras de fronteira e sobre os povos não-estatais (nonstate peoples ou povos não diretamente vinculados ao Estado). Mas não havia muitos trabalhos que olhassem para esta situação do outro lado. Como as sociedades indígenas haviam utilizado, reivindicado e defendido suas nações e sua autonomia? Como evitaram ser reduzidas a missões ou aldeias administradas pelo Estado ou sujeitas a tributo e trabalho para o Estado ou para os colonos? E como haviam preservado essa autonomia no período moderno?


Meu livro anterior se concentrou em como os indígenas do Amazonas construíram comunidades duradouras sob o colonialismo português. No início de minha pesquisa para esse livro, acho que fiz uma distinção bastante rígida entre os povos indígenas que haviam sido incorporados ao sistema colonial (o foco dessa pesquisa) e aqueles que não o haviam sido. Inicialmente, eu havia assumido que os grupos autônomos permaneciam assim, rejeitando ou evitando o contato com a sociedade colonial e, posteriormente, nacional. Eu pensava que eles tinham escolhido o caminho oposto: o caminho do não engajamento. Mas, assim que comecei realmente a trabalhar nos arquivos, comecei a encontrar fontes que me deram outro norte: elas descreviam os povos indígenas autônomos como os que iniciavam os contatos e depois ditavam o ritmo e as formas desses contatos. Percebi que eu queria escrever sobre esta história mais profunda de engajamento.


As estratégias nativas mudaram muito ao longo do tempo, mas o livro argumenta que o controle do contato permaneceu central. Em alguns contextos históricos, a abertura a pessoas e coisas externas fazia sentido e trazia vantagens; em outros momentos, o mesmo grupo poderia decidir rejeitar e se retirar. Experiências anteriores de contato moldaram as posteriores e estas estratégias limitaram profundamente os projetos colonizadores no interior, como revela o registro histórico.


Como você enxerga a contribuição do seu livro para a historiografia?


O livro se soma aos esforços recentes para superar as definições tradicionais dos períodos colonial e nacional da história brasileira e para encontrar continuidades nas práticas e ideologias colonizadoras e nos esforços dos povos indígenas para perseverar através da transformação. Assim, a história começa em meados do século XVIII e percorre as primeiras décadas do século XX.


Ao contrário de grande parte da historiografia, o livro é transregional no seu escopo. Ele segue as histórias de dois grupos principais: o Guaikurú (Kadiwéu), no extremo-oeste, e o Mura, no norte da Amazônia. Cada uma dessas nações desafiou a expansão luso-brasileira em suas respectivas regiões, mantendo, ao mesmo tempo, a autonomia política e o controle efetivo sobre enormes extensões de território e rotas fluviais estratégicas. Ambos os grupos também forjaram acordos de paz duradouros (embora frágeis) com os portugueses nas décadas de 1780 e 1790, o que os levou a uma interação regular com autores coloniais. O Guaikurú e o Mura estão entre os poucos grupos indígenas para os quais existe um registro de longo prazo de documentos históricos desde meados do século XVIII até os dias atuais, o que me permitiu traçar suas estratégias dinâmicas ao longo do tempo. As evidências mais fragmentárias que reuni sobre outros grupos indígenas autônomos no Brasil ainda são tecidas ao longo do livro. Espero que esta abordagem sintética encoraje outros historiadores a pensar além de regiões e grupos isolados.


Relacionado a isso, espero que o livro contribua para nossa compreensão de como os povos indígenas no Brasil têm interagido com estrangeiros poderosos ou ameaçadores. Colocando processos contemporâneos em diálogo com histórias coloniais de contato, tentei identificar o que via como continuidades muito marcantes – mesmo estando atenta às diferenças entre grupos e mudanças ao longo do tempo.


Como seu livro dialoga com a historiografia brasileira, e que obras e autores do Brasil te ajudaram a pensar o tema?


O falecido John Monteiro foi provavelmente a maior influência que tive quando concebi o livro e comecei a fazer a pesquisa. Ele leu meu primeiro rascunho do projeto em 2012, que era uma confusão completa! Mas, ao invés de me dizer para voltar para o começo, ele me encorajou a continuar “pensando grande” sobre como os grupos indígenas haviam alimentado sua autonomia ao longo dos séculos. Este encorajamento foi absolutamente crucial, porque eu inicialmente enfrentei algum ceticismo sobre o escopo do projeto. Continuo profundamente grata pelo apoio de John, que ele também ofereceu a tantos estudiosos ao longo de sua carreira.


Descreveria meus métodos como etnohistóricos, na medida em que meu objetivo é trazer insights etnológicos para a interpretação de documentos produzidos em situações de contato ou conflito. Por essa razão, eu tinha que ler tanto Antropologia quanto História. As obras de Marta Amoroso, Vânia Moreira, Mônica Pechincha e Aparecida Vilaça foram especialmente importantes para o meu pensamento; a coleção editada por Bruce Albert e Alcida Ramos, Pacificando o Branco (2002), ficou na minha mesa durante anos. Eu também li trabalhos de autoria indígena, como a importante tese de doutorado de Márcia Mura. Todos estes trabalhos ajudaram a me sintonizar com os temas e padrões dos documentos históricos que, de outra forma, eu poderia ter perdido.


Quais foram as principais fontes utilizadas em sua pesquisa e como você chegou até elas?


Durante a pesquisa para meu livro anterior, eu havia fotografado e feito notas sobre uma tonelada de documentos do arquivo estatal em Belém, então comecei voltando a esses registros. Eles eram tão ricos quanto eu me lembrava, então decidi ver se poderia encontrar outros como eles em outras regiões do Brasil. Fui aos arquivos estaduais de Goiânia e Cuiabá e procurei fontes administrativas e militares que pudessem proporcionar uma visão in loco sobre a vida no interior, longe da costa atlântica – que muitas vezes é tratada como o centro da ação histórica no Brasil. Cuiabá tinha uma coleção maravilhosa de tais documentos, então passei a maior parte do meu tempo lá. Também fiz pesquisas em vários arquivos no Rio de Janeiro, reunindo documentos sobre vários outros grupos autônomos de indígenas desde meados do século XVIII até o início do século XX, mas a maior parte do material veio dos arquivos regionais. Esses sempre foram meus lugares preferidos para fazer pesquisas: são cheios de surpresas!


Minhas principais fontes históricas consistiam em: (1) narrativas de viagem de oficiais, missionários e exploradores, que descreviam encontros entre agentes e grupos indígenas em seus territórios de origem, e que muitas vezes continham detalhes etnográficos valiosos; (2) relatos de comandantes militares estacionados em postos remotos, que descreviam os grupos indígenas nas terras de fronteira como aliados, potenciais aliados ou inimigos, e estipulavam como eles deveriam ser tratados; (3) as primeiras etnografias e testemunhos orais registrados entre os grupos indígenas no final do século XIX e início do século XX. Através de uma leitura atenta e crítica desses corpos de fontes, as lutas históricas e a sofisticação política dos grupos indígenas autônomos puderam ser discernidas e levadas a sério.


Qual a história mais interessante que você se deparou ao longo da pesquisa para o livro ou a que mais te surpreendeu?


No início de minha pesquisa em Cuiabá, encontrei uma série de documentos de comandantes militares no Forte de Coimbra que descreviam como os Guaikurús “exigiam” várias coisas quando visitavam o forte durante os anos 1790 e o início do século XIX. Um comandante até o descreveu como um tipo de arte: como os visitantes fariam ultimatos para visitar a capital, receber certos tipos de presentes ou poder comer na mesa de jantar do comandante e dormir dentro das paredes do forte. No início, eu pensava que estas descrições eram exageradas demais para serem úteis e não sabia o que fazer com elas: pareciam caricaturas de indígenas. Porém, mais tarde a literatura antropológica me ajudou a entender que estas exigências poderiam ser formas de testar uma relação ou afirmar uma reivindicação em um contexto social ou político volátil. Então comecei a prestar mais atenção em todos os exemplos dos documentos.


Acabei por enquadrar um capítulo do livro em torno destas práticas de paz. Em vez de “pacificação” – um programa liderado pelo Estado, para fins estatais –, este foi um processo de pacificação que dependia das motivações, interesses e costumes dos povos não-estatais (ou seja, dos povos às margens do Estado). As nações indígenas tinham suas próprias ideias sobre o porquê e como a paz deveria ser feita. E essas ideias obrigavam até mesmo os funcionários mais cínicos a fazer concessões e compromissos.


Que perguntas o seu livro deixa em aberto, ou que novos caminhos você espera que sejam explorados em pesquisas futuras sobre o tema?


Muitas pessoas no mundo tendem a ver o Brasil e a Amazônia exclusivamente através da lente da crise – da queima da floresta à invasão das reservas indígenas pelos garimpeiros –, com pouca compreensão do contexto histórico mais profundo por trás das manchetes. Eu adoraria ver pesquisas futuras continuarem indo além da história única de crise, mostrando que estes não são fenômenos totalmente novos e que os grupos indígenas da região vêm defendendo suas florestas e cursos d’água contra as forças de destruição há muito tempo.


Há também conexões convincentes a serem feitas com histórias de ativismo indígena e movimentos de autonomia e recuperação territorial em todo o hemisfério. Que lutas, táticas e sonhos comuns podem ser traçados através das Américas indígenas? Eu vejo isto como alguns dos mais emocionantes e esperançosos acontecimentos de nossa era atual, e acho que mais pessoas deveriam saber sobre.


 

Esta entrevista ocorreu por escrito e foi traduzida e editada antes da publicação.

Contate a coluna em brasilporbrazil@gmail.com

Lucas Koutsoukos-Chalhoub

Luiz Paulo Ferraz

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