• Nathália Sanglard

Garotas mortas, garotas vivas

Não sei ao certo quando me dei conta de que, por ser menina, havia coisas com as quais eu deveria me preocupar. A rua, por exemplo, já desenhava sentidos distintos para mim e para o meu irmão, em nossos tempos de criança. É verdade que meus pais dirigiam a ele toda sorte de precauções, mas retive, como as mais constantes, as de não cair do skate, não quebrar o braço, o dente, não se ralar inteiro e prestar atenção onde deixava a bicicleta. Para mim, as principais recomendações insinuavam outros receios: não falar com estranhos nem aceitar nada deles, evitar andar sozinha ou passar por ruas desertas e pouco iluminadas. Talvez eu tenha compreendido a natureza desses zelos quando, adolescentes, mudamos de cidade. Os deslocamentos se tornaram mais longos e as ruas, mais invasivas. Não as ruas, exatamente, mas as vozes e os olhares masculinos que circulavam livremente por elas, enquanto o meu espaço parecia aos poucos mais constrito e os meus passos entenderam a necessidade da pressa.

Evocar – ou fabricar – o começo dessa consciência me fez lembrar de uma passagem autobiográfica de Garotas mortas, em que Selva Almada narra como descobriu outra rota do medo. Ao ouvir na rádio a notícia do assassinato de uma jovem de 19 anos, soube que, mesmo em casa, meninas não estavam seguras. O imaginário infantil, que figurava o agressor como o “tarado”, o “homem do saco”, se embaralhava com a revelação de que o lar poderia não ser abrigo e de que pais, namorados e amigos também poderiam ser ameaçadores.

Becos, avenidas, quartos, porões. Cedo o mundo se converte em uma espacialidade do terror, da violência potencial ou iminente. A tentativa de sujeição dentro de casa e a punição pelo trânsito – o perigo privado e o público – sugerem que a violência, mais do que circunscrita a lugares, atos, instituições, é uma atmosfera. Para Judith Butler, se trata de uma “toxidade que invade o ar”, pois o horror contra as mulheres e outros sujeitos feminizados não se resume a um gesto fatal. Às vezes, o golpe se manifesta apenas como “um instante na reprodução estrutural e social da violência”. “Submeta-se ou morra”. Este é o imperativo, diz Butler, com que tentam nos governar. Sobre ele e o espraiado “poder de aterrorizar”, penso no romance Desonra, do Coetzee. Em certo trecho, um personagem, embora ausente em uma dada cena de agressão sexual, admite sua capacidade de se projetar como perpetrador: “se se concentrar, se se soltar, estar lá, ser os homens, entrar dentro deles, preenchê-los com o fantasma de si mesmo”. Porque, virtualmente, é possível que “estejam lá” todos os que se investem dessa parcela de poder masculino brutal. Indivíduos ou instituições. Por ação ou omissão, “estão lá” também o Estado, a polícia, os veículos de imprensa. Quando banalizam, transformam em espetáculo a violência ou imputam-na às mulheres e aos sujeitos feminizados. Como grito ou sussurro, o recado é polifônico: são corpos que não importam, vidas destituídas de valor que podem desaparecer, serem esmagadas sem rastros, sem consequências, sem lutos. Enfim, as “vidas não choráveis”, pertencentes à “classe assassinável”, de que fala Butler.

Nessa trama funesta, há, no entanto, hierarquias, estratificações e intersecções. São mulheres negras, lésbicas, trans e travestis, cujas vidas são ainda menos choráveis, cujas mortes são mais facilmente inscritas em um círculo de naturalização, que avolumam as estatísticas de violência. No artigo O outro do outro, publicado na revista piauí, Joice Berth apontou, certeira, para essa crueza em relação às mulheres negras: “A negligência em relação ao outro caracteriza esse mórbido privilégio social que é poder ‘pular os corpos’, como se salta, num cenário de guerra, por cima dos que foram abatidos numa batalha”.

Se a reprodução desse terror se traduz em uma engrenagem complexa, não basta interromper um ato, o golpe. Faz-se necessário desarticular a estrutura que garante sua existência. Para pararmos de “pular corpos”, feministas de diferentes tradições concordam sobre a importância de refutar a patologização dos agressores. Para Verónica Gago, em A potência feminista, ou o desejo de transformar tudo, ao se atribuir motivações psíquicas ou particularizar em termos de narrativas casuísticas e passionais um fenômeno sistêmico, tende-se a desresponsabilizar as masculinidades tóxicas e se reencenar a violência. À “patologização expiatória” a autora contrapropõe a categoria de guerra, a fim de compreender uma “economia específica da violência” contra as mulheres e os sujeitos feminizados.

NiUnaMenos Peru. Autoria: Lorena Flores Agüero. Wikimedia Commons.

De acordo com Gago, o perigo dessa versão psicologizante consiste, ainda, em culpabilizar a conquista da autonomia feminina e a tomada das ruas pelos movimentos feministas. Uma vez convertidas as ações do patriarcado em condutas desviantes e inimputáveis, porque da ordem da medicalização, culpadas seriam as próprias mulheres, por difundirem uma ilusão de força, por agirem sem calcular os riscos de suas roupas, falas, posturas, deslocamentos, como se, afinal, o “empoderamento” aguçasse uma ira misógina e doentia e as empurrasse para a morte. Por outro lado, assumir que haveria uma guerra em curso contra as personagens femininas e feminizadas, que reinventam o saber do corpo como um poder, que se organizam coletivamente para dizer Ni Una Menos, significa operar em outra economia de forças. Isso implica negar esse suposto “empoderamento” negativo, para restituir-lhes a potência, a coragem no enfrentamento do terror atmosférico. Segundo Verónica Gago, a pluralização das violências, isto é, o estabelecimento de sua simultaneidade e inter-relação, também se mostra como estratégia que produz inteligibilidade para desarmar essa engenharia perversa. Pluralizar quer dizer conectar as violências, retirá-las do confinamento do âmbito doméstico, para inseri-las em um plano mais amplo, em que se avaliam as dimensões econômicas, institucionais e coloniais.

Considerar a violência como fenômeno total demanda, assim, ponderar o papel da implosão dos lares – decorrente dos arroubos truculentos do provedor como figura em falência, já que o “patriarcado do salário” se apresenta em ruínas; do endividamento das mulheres, centrais nas economias populares, provocado pelo neoliberalismo; da repressão do Estado e da espoliação e do saque de terras e bens comuns.

A mim parece bastante fértil essa premissa que cartografa, situa a violência em suas múltiplas dinâmicas, e, no caso da América Latina, enfatiza a perspectiva colonial, percebendo o exercício da autoridade patriarcal como tentativa de domínio patrimonial dos corpos-territórios. E como cartografar não é apenas enumerar, optei, aqui, por não listar os números aterradores de agressões e assassinatos de mulheres desde o início da pandemia de coronavírus, não reviver histórias de violência repisadas pela imprensa, nem citar as excreções misóginas do presidente, que renderam, em agosto, a abertura de um processo contra a União. Prefiro lançar a sugestão de refletirmos sobre onde mora a “pedagogia da crueldade” de que trata Rita Segato; sobre a linha de continuidade entre discriminação, assédio, violência física e feminicídio, observada por Montserrat Sagot; e sobre a dupla morte de mulheres e sujeitos feminizados, quando são negados o choro e o luto em seu nome, como argumenta Butler.

Dessa maneira, partindo da violência como uma trama de muitos fios, os caminhos para o seu enfrentamento igualmente se adensam, escapando de uma retórica salvadora, de resgate, uma vez que as soluções não estão nem em um tratamento privado, familiar, nem se encontram restritas às instâncias estatais. Nesse sentido, o saber-poder de mulheres e sujeitos feminizados, suas redes de solidariedade e cuidado mútuo, bem como suas alianças coletivas são chaves fundamentais para qualquer resposta. Nos termos de Verónica Gago, a urdidura que envolve “defesa, autodefesa e proteção” ajuda a reposicionar mulheres heterossexuais, homossexuais, cis, trans e travestis em outras correlações de força e deslocá-las da existência incondicional de vítimas.

Aqui, retomo o livro Garotas mortas. Penso em quatro figuras femininas e os modos como se intrincam à violência: a mãe, a autora-narradora, a cartomante e La Huesera. Percorrendo suas próprias memórias, Selva Almada insere a primeira em um episódio emblemático: quando, em uma discussão, o marido gritara e erguera o braço, ameaçando agredir a mãe, esta cravou um garfo em sua mão. A lição do garfo o alertou. Nunca ensaiou outro gesto ou entonação violentos. Quanto à sua presença na narrativa, a autora-narradora se inscreve como aquela que empreende o esforço de reconstruir fragmentos das trajetórias de três mulheres assassinadas e rememorá-las. Híbrido de jornalista, detetive e historiadora, ela segue os indícios, os traços apagados, porque não deixar esquecer já é uma forma de fazer justiça. Na procura de pistas, ela vai a uma senhora que lê tarô, em uma tentativa de ouvir as jovens e recuperar as histórias do ponto de vista delas. A cartomante encena, portanto, um espaço simbólico de escuta, o anseio de restituir as vozes caladas pelo feminicídio. E é esta personagem quem conta da Huesera: uma mulher muito velha, que recolhe ossos por toda parte, os monta, até que, enquanto canta, o esqueleto se reveste de carne e se transforma em lobo. Lançando-se na mata, o bicho dá forma a uma mulher, que, livre, corre, vertiginosamente, aos rodopios, gargalhando. A mãe, a cartomante, a mulher dos Ossos e a narradora, ela mesma uma versão da Huesera, dizem, cada uma de um jeito, que não há trégua. Vivas ou como espectros cobram voz, vida, justiça e a prática reparadora do luto.

Nathália Sanglard é historiadora.


Crédito da imagem destacada: Manifestación #niunamenos ante el femicidio de Agustina Imvilkeried - Ciudad de Santa Fe. Autoria: TitiNicola. Wikimedia Commons.

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