• Ivan Lima Gomes

Vacinar com alegria: Zé Gotinha e as disputas em torno da vacinação no Brasil

A história do personagem Zé Gotinha é também uma história de esperança na Nova República que se seguiu à ditadura civil-militar. Ela remete a uma iniciativa ainda dos anos de chumbo: a criação do Programa Nacional de Imunizações (PNI), em 1973. O governo federal, por sua vez, promoveu campanhas de vacinação contra a pólio ao longo dos anos 1970 e 1980, com resultados pouco consistentes. Em 1986 identificou-se, por exemplo, uma epidemia de pólio em vários estados da região Nordeste, resultado de uma cobertura vacinal insuficiente. Intensificaram-se as campanhas de vacinação com vistas à erradicação das formas mais selvagens do vírus da pólio no Brasil.

Como parte deste esforço, o Ministério da Saúde, em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Infância – Unicef, contratou o artista plástico Darlan Rosa para criar uma logomarca que ajudasse a identificar tal esforço. Neste processo, o artista relata ter ido ao Nordeste para acompanhar uma campanha de vacinação, que contava com apoio do Exército. Descreve um cenário de “campo de batalha”, com um “simbolismo de guerra” e “na base do terrorismo”. Rosa propôs uma saída lúdica, que trazia a criança para o centro do processo – o que certamente contaria com o apoio dos pais, que não mais precisariam levar seus filhos à força para se vacinarem.


Darlan Rosa, artista criador do personagem Zé Gotinha (Reprodução)

De uma proposta de logomarca, nasceu um personagem carismático e feliz por representar a vacinação. O fato de a vacina contra a pólio ser aplicada por via oral, ao invés de utilizar as temidas seringas, certamente contribuiu para disseminar a ideia de que, afinal, tratava-se apenas de uma “gotinha”. Para enfrentar certa resistência presente no então governo Sarney em lidar de forma lúdica com um tema tão sério, surgiu a ideia de um concurso. A ideia era envolver a população na construção pública do personagem. Lançou-se um vídeo de divulgação de uma campanha em busca de um nome para o personagem. Ele aparecia caminhando alegremente por fazer o bem, numa imagem muito diferente do estigma de tristeza e de paralisia associados à pólio. Após receber milhares de cartas de crianças de todo o país e superadas aproximações iniciais com o então presidente José Sarney, chegamos a Zé Gotinha, nome que traz uma carga popular e coloquial e que remete a uma tradição de personagens de quadrinhos tão diferentes como Zé Carioca e Zé Candango, por exemplo.

Em pouco tempo, Zé Gotinha se tornaria parte da vida cotidiana na Nova República, resistindo às mudanças de governo, atuando em peças publicitárias para campanhas para aplicação de vacinas por via intramuscular e estabelecendo parcerias com personagens da Turma da Mônica, de Mauricio de Sousa. Mais recentemente, o personagem tem sido marcado por alguns episódios da política brasileira. Causou curiosidade o fato de, supostamente, ter se recusado a cumprimentar o presidente Jair Bolsonaro durante a apresentação do plano de operacionalização da vacinação contra a Covid-19.

Seu traço simples permite fácil identificação e assimilação no imaginário infantil, além de facilitar a proliferação de versões do personagem – vide o “Zé Gotinha” cangaceiro, que ocasionalmente aparece em campanhas de vacinação pelo Nordeste.

No seu primeiro discurso público após as anulações das condenações na operação Lava Jato pelo ministro Edson Fachin (STF), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva perguntou: “Cadê o nosso querido Zé Gotinha? O Bolsonaro mandou embora porque pensou que ele era petista. Ele não era petista. Ele foi inventado por gente muito importante da saúde sanitária desse país (...) ele era suprapartidário, ele era humanista”. Em resposta, um dos filhos do atual presidente compartilhou em suas redes sociais o que Darlan Rosa, o criador do personagem, classificou de “uma imagem terrível”: Zé Gotinha empunhando uma seringa como se fosse uma arma, com os dizeres “nossa arma agora é a vacina”. A proposta de um Zé Gotinha que mais se assemelha a um soldado (ou a um miliciano) que se prepara para a guerra é contrária à própria história deste importante símbolo da saúda pública brasileira. E isso não passou despercebido, seja pelas críticas recebidas a esta imagem belicista, seja pelos muitos memes compartilhados a partir do destaque dado à figura do Zé Gotinha no debate político brasileiro. Na corrida pela vacinação que, infelizmente, parece seguir de forma rasteira a corrida eleitoral de 2022, as disputas em torno da imagem do Zé Gotinha também representam as disputas em torno de projetos de República. Porém, a sua imagem não combina com uma República doente e que assume a pulsão de morte como política de Estado. Zé Gotinha integra uma utopia de um país que pretende erradicar doenças associadas ao atraso sanitário, com compromisso e sem deixar de lado a alegria.

Ivan Lima Gomes

Professor na Faculdade de História – Universidade Federal de Goiás

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