• Nathália Fernandes

Assédio e futebol: uma tabelinha que precisa acabar

O leitor ou leitora que acompanha as notícias das nossas seleções nacionais de futebol deve ter sido informado sobre o caso de assédio envolvendo o – agora afastado – presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Rogério Caboclo. Caboclo estava sob os holofotes da mídia ainda antes da denúncia do assédio sofrido por uma funcionária da CBF vir à tona: a seleção masculina de futebol vinha apresentando rusgas com o presidente afastado a respeito da decisão repentina sobre a realização da Copa América no Brasil – evento que, por si só, já daria outro artigo.


O ponto que nos interessa aqui, contudo, é a denúncia, por parte da funcionária, do assédio efetuado por Caboclo, com a apresentação à imprensa de áudios comprometedores. Após a denúncia e o afastamento do então presidente, a seleção feminina de futebol veio a campo em jogo amistoso preparatório para os Jogos Olímpicos de Tóquio com um cartaz escrito “Assédio Não!”.


Rogério Caboclo foi afastado da presidência da CBF — Foto: CBF. Reprodução.

O posicionamento das jogadoras é interessante de ser analisado, sobretudo por dois aspectos. Primeiro porque a entrada da seleção feminina portando um cartaz de manifestação, e a posterior declaração de Marta sobre o assunto, é resultado de uma maior afirmação e embasamento do grupo. O posicionamento aberto da seleção feminina contra uma atitude da instituição que, guardadas as devidas mudanças pelas quais passou, foi responsável por capitanear a proibição da prática do futebol de mulheres por quarenta anos no Brasil, é um movimento notável.


Em segundo lugar, é preciso levar em conta que esse caso de assédio não é isolado no universo do futebol. Muito pelo contrário! Como apresentarei aqui, muitas mulheres envolvidas no meio esportivo futebolístico são vítimas dos mais variados tipos de assédio, realizados por torcedores, jornalistas e pelos próprios jogadores do futebol masculino, além de outros homens também pertencentes a esse universo. Dizer um basta e se posicionar contra esse tipo de atitude é um sinal de coragem da seleção, ao mesmo tempo que é extremamente necessário que não só ela, mas que todos os brasileiros digam basta, de uma vez por todas, a esse tipo de comportamento criminoso tão frequente.


Do mesmo modo, é necessário compreender que tipo de pensamento está por trás desses atos de assédio dentro do universo esportivo. Em primeira mão, devemos considerar o machismo e o patriarcalismo estrutural de nossa sociedade, que são responsáveis pela naturalização dos variados casos de assédio. Inserido nessa lógica machista e patriarcal que permeia a sociedade, o futebol apresenta ainda outras camadas que embasam e naturalizam esse tipo de comportamento nos personagens incluídos em seu meio.


Argumento que o primeiro deles seja ainda a memória que a proibição da prática do futebol de mulheres, por quarenta anos, deixou no imaginário social e coletivo do brasileiro. Quando dizemos, através de um decreto proibitivo, que o espaço da prática futebolística não pertence às mulheres, afirmamos, por exclusão, que este é um espaço masculino e de reprodução de performances masculinas. Gustavo Bandeira, em livro fruto de sua tese de doutoramento, intitulado Uma História do Torcer no presente. Elitização, racismo e heterossexismo no currículo de masculinidade dos torcedores de futebol, defende que as arquibancadas de um estádio de futebol exercem certa pedagogia, exibindo um currículo de masculinidades que acabam sendo performados e, de certa maneira, exigidos para que todos aqueles envolvidos sejam aceitos como partícipes e integrantes do universo futebolístico no qual estão inseridos.


Acredito que essa pedagogia masculinizante também tenha suas raízes na proibição: já que a prática esportiva não seria o espaço das mulheres, as arquibancadas também acabariam por reproduzir essa lógica, fazendo com que a vida das mulheres torcedoras seja de uma constante necessidade de afirmação e reafirmação enquanto participantes daquele espaço. Além disso, como o espaço do futebol acaba sendo entendido como masculino, todo aquele que destoa da performance definida e estabelecida por este estereótipo sofre ataques. São, desse modo, considerados como os Outros do futebol, como aponta João Carlos Moura, em livro nomeado Joguem como homens! Masculinidades, liberdade de expressão e homofobia em estádios de futebol no estado do Maranhão:


Assim, internamente, os grupos que se apresentam no espetáculo do futebol seguem um perfil de ostentação e celebração da sua masculinidade. É com essa forma “homem” que podem fazer frente tanto no estádio em confronto com o adversário como ser percebido pela sociedade. O agir expresso dessa forma é comumente simulado nas manifestações coletivas, como se observa em cânticos popularmente disseminados com o intuito de insulto. Entoados pelos torcedores e jogadores, essas rimas e gritos chamam atenção para a colocação do sujeito homem adversário em um espaço sem masculinidade. (Moura, 2019, p.48)

Inseridos nesse contexto, os casos de assédio são corriqueiros no universo do futebol. Segundo reportagem do canal de esportes ESPN, a FIFA registrou quarenta e cinco casos de assédio durante a Copa do Mundo de Futebol Masculino de 2018, realizada na Rússia. Desses casos, quinze aconteceram contra repórteres que trabalhavam na cobertura do evento. Julia Guimarães, repórter do Grupo Globo, informou ter sido vítima de tentativas de beijos forçados durante o torneio. No Brasil, em 2015, uma jornalista da ESPN relatou em sua rede social um caso de assédio sofrido durante a disputa final da Copa do Brasil, entre Santos e Palmeiras. Segundo a reportagem , a jornalista afirmou ter sido chamada de “vagabunda” no entorno do Allianz Parque, nova arena esportiva do Palmeiras. Em minha pesquisa de mestrado, entrevistei torcedoras cariocas comuns e perguntei a elas sobre o assédio nas arquibancadas. Todas afirmaram já ter sofrido algum tipo de assédio, físico ou moral, nas arquibancadas do Rio de Janeiro ou em seu entorno.


Acredito que há ainda um segundo elemento que corrobora para a manutenção desses tipos de comportamentos discriminatórios e criminosos dentro do ambiente do futebol: a sexualização dos corpos femininos, utilizada pela imprensa e pela propaganda sobretudo após o fim da proibição e a regulamentação da prática do futebol de mulheres, que também deixou suas marcas no imaginário coletivo. Ao sexualizar a imagem das mulheres jogadoras – seja em reportagens de jornais e revistas, seja em anúncios publicitários –, se reiterou a lógica de que o verdadeiro público do futebol é o homem heterossexual, que está pronto para consumir aquele tipo de produto. A habilidade futebolística das jogadoras era muitas vezes desconsiderada em comparação à sua beleza física, passível de exibição em poses e fotos sensuais.


Ao longo da década de 1990, por exemplo, algumas capas da importante revista esportiva Placar expressavam o estereótipo de feminilidade desejado pela revista e reiteravam a lógica de que o público apreciador do esporte era efetivamente o masculino. Em edição de agosto de 1995, a revista trouxe em sua capa a foto de quatro modelos, de azul e amarelo – em referência ao uniforme da seleção brasileira de futebol –, de costas e abraçadas, em poses que se presumem sensuais. A manchete trazia o título “As garotas batem um bolão (e até trocam de camisa depois do jogo!)”. Em 1995, foi realizada a segunda Copa do Mundo FIFA de futebol feminino, da qual a seleção brasileira foi a única da América do Sul a participar e acabou sendo eliminada na fase de grupos. É interessante perceber que, em um ano de Copa do Mundo, a revista apresentou a “seleção feminina” de forma a sexualizar seu corpo, fazendo referência à nudez – ao informar que trocam de camisa após o jogo – e, com isso, buscando atrair a atenção do público que se entendia leitor da revista: o masculino.


No ano seguinte, a revista trouxe em sua capa a fotografia de uma árbitra, em pose sensual e segurando um cartão vermelho. O título da reportagem diz: “Cleidy Ribeiro. A juíza mais gostosa do Brasil”. Essa reportagem, assim como outras, foca no destaque das curvas do corpo feminino, reiterando a lógica de quais mulheres eram desejáveis como representantes do esporte. Essa reportagem demonstra que a sexualização e erotização do corpo feminino não se limitava às jogadoras, mas atingia também torcedoras, árbitras, dirigentes e todas as mulheres envolvidas no universo esportivo.


Em 2001, a Federação Paulista de Futebol (FPF) decidiu organizar uma nova edição do Campeonato Paulista de Futebol Feminino. Na seleção das jogadoras, o que chamou atenção foi o critério adotado pela Federação que, além do futebol, analisava também a beleza das jogadoras e se elas cumpriam aos critérios estéticos estabelecidos na seletiva, como o uso de cabelos compridos. Na reportagem do jornal Folha de São Paulo, a manchete já traduzia o que esperar do campeonato: “Paulista feminino acha o ‘futebol bonito’ em peneira”. Jorge Knijnik e Peter Horton em artigo intitulado “Only Beautiful Women need apply.” Human rights and gender in brazilian football analisaram o regulamento da seleção do campeonato e destacaram algumas determinações que norteavam os critérios para a escolha das jogadoras. De acordo com os autores:


Regulation one, for exemple, banned players who had cropped hair, because They want Only “ladies” with long, preferably blond hair coul compete (Folha de São Paulo, 2001, p.5). Next, they imposed an age requiriment, stating that competitors had to be under the age of 23 years; the FPF motivation being to attract the male television audiences through the exploitation of the players, sexualizing their bodies and projecting the images of atlhetic beaultiful young women in an attempt to offer the largely male television audiences copious and potentially erotic viewing. (Knijnik; Horton, 2013, p. 62).

Sem desconsiderar outros fatores que possam existir e que não estejam aqui contemplados, temos os seguintes ingredientes que alimentam o caldo dos assédios e das discriminações no ambiente futebolístico: o machismo estrutural já presente na nossa sociedade; o preconceito coletivo, embasado desde a proibição do futebol para as mulheres; e a sexualização dos corpos de mulheres envolvidas no ambiente futebolístico, visando agradar ao público masculino. Essa somatória de fatores faz com que, ainda hoje, posicionamentos como o da seleção feminina de futebol sejam tão necessários.


E é por isso que encerro este texto também com um chamamento, assim como fez corajosamente a seleção feminina de futebol: Não ao assédio! É preciso buscar e propor um ambiente seguro e igualitário para todas e todos que se interessem pelo esporte e queiram fazer parte dele, seja profissionalmente ou como uma atividade de lazer. O caminho trilhado até aqui pelas mulheres – sobretudo por aquelas que procuram jogar o futebol – é de luta e, cada vez mais, de conquistas. Cabe a nós, enquanto sociedade, contribuirmos com o que pudermos para que esse caminho seja cada vez mais vitorioso e que essa tabelinha entre assédio e futebol, que há tanto tempo nos assola, encontre seu fim.


Créditos da imagem destacada: Faixa apresentada pela seleção feminina, antes do amistoso contra a Rússia. Reprodução.


Referências bibliográficas


BANDEIRA, Gustavo Andrada. Uma História do Torcer no presente. Elitização, racismo e heterossexismo no currículo de masculinidade dos torcedores de futebol. Curitiba: Appris, 2019.

KNIJINIK, Jorge; HORTON, Peter. “Only Beautiful Women need apply”. Human rights and gender in brazilian football. Creative Approaches to Research, vol. 6, 2013.

MOURA, João Carlos da Cunha. Joguem como homens! Masculinidades, liberdade de expressão e homofobia em estádios de futebol no estado do Maranhão. São Paulo: Paco Editorial, 2019.

PESSANHA, Nathália Fernandes. Arquibancada feminina. Relações de gênero e formas de ser torcedora nas arquibancadas do Rio de Janeiro. Dissertação (Mestrado em História). Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2020.

SALVINI, Leila; JÚNIOR, Wanderley M. Notoriedade Mundial e visibilidade local: o futebol feminino na Revista Placar na década de 1990. Paraná: Revista Sociologias Plurais, 2013.


  1. Chamo de torcedoras comuns, por falta de um termo mais apropriado, todas aquelas que frequentam com regularidade o estádio, mas que não fazem parte de nenhuma forma de torcidas organizadas ou de nenhuma forma de associativismo.

  2. Revista Placar, agosto de 1995.

  3. Revista Placar, jan. de 1996

  4. A regra número um, por exemplo, proibiu jogadoras que tivessem cabelos raspados, porque eles só queriam ‘moças’ com cabelos longos, preferencialmente loiros, para a competição. Depois, eles impuseram um limite de idade abaixo de 23 anos; a motivação da FPF era atrair a audiência televisiva masculina através da exploração das jogadoras, sexualizando seus corpos e projetando a imagem de atletas jovens e bonitas numa tentativa de oferecer a grande audiência televisiva masculina copiosa e potencialmente erótica vista.


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