• Karlla Pereira

Eu, historiadora de carne e osso

Minha oficina ou, para usar outra metáfora, nos bastidores do meu

trabalho – uma maneira de mostrar que a compreensão do passado não é um simples resultado, mas antes um processo, uma busca e até mesmo, um combate.

Ivan Jablonka

Sempre compreendi, conforme dito por Clarisse Lispector, que “a palavra é o meu domínio sobre o mundo”. É através dela que nutro o sentimento de “saber do que se trata diante do incompreensível”. Quase sempre me senti “protegida atrás desse objeto palpável que é a palavra escrita”. A cada leitura, assim como Orhan Pamuk alertou, “um mundo novo se revela, palavra por palavra, frase por frase, diante de mim”. Da mesma forma, utilizo da palavra para escrever e garantir o meu entendimento sobre a realidade: é por meio dela que entendo o mundo e formulo, como pontuado por Ivan Jablonka, o meu combate. No entanto, nos últimos tempos, esse combate formulado sobre a égide das palavras pareceu impossível. Elas pareciam perder o seu valor cognitivo de representar aspectos do cotidiano.


Por esse motivo, utilizarei o meu primeiro texto desse espaço toda a licença poética que me é permitida para falar sobre as palavras ou, em alguns momentos, sobre a falta delas. Pelo motivo de que foge da minha própria compreensão introduzir sobre o que pesquiso sem falar de como eu, historiadora de carne e osso, tive cada palavra da minha escrita nos últimos tempos interpelada por um desastre “marcado por um duplo paroxismo: pandemia e pandemônio”, como descrito por Renato Lessa.


Esse duplo paroxismo desaguou em um terreno propício a afetar o meu “eu do historiador” – ou de historiadora. Esse “eu” do historiador constitui-se, conforme Sabrina Loriga, não como uma “substância, dada a priori, mas uma aspiração ou mesmo um lugar de trabalho”. Foi exatamente esse meu lugar de trabalho que se apresentava como um horizonte de possibilidades cada vez mais fechado.


Os bastidores do meu trabalho tiveram o seu pano de fundo tracejados pela pandemia de uma “criatura tão pequena, invisível a olho nu, [mas que teve e tem] a capacidade de paralisar o planeta”, o coronavírus. Uma criatura pequena, mas que conseguiu tirar a vida de 4,55 milhões de pessoas e todo o globo até o momento de escrita desse texto. Como se não fosse suficientemente difícil ter que realizar qualquer atividade no seio de uma crise sanitária que desenvolveu uma sensação de insegurança pela possibilidade eminente de perder pessoas a qualquer instante do dia, os brasileiros ainda precisaram e precisam conviver com um pandemônio. Um Presidente da República que desempenhou um trabalho árduo para disseminar um vírus letal: Jair Messias Bolsonaro. No decorrer da pandemia, Bolsonaro:


estimulou as aglomerações quando os médicos pediam que a população ficasse em casa. Um homem que vetou a obrigatoriedade de uso de máscaras quando as populações da maioria dos países do mundo usavam máscaras para se proteger da contaminação. Um homem que esbanjou dinheiro público com medicamentos comprovadamente sem eficácia contra uma doença fatal e mentiu para a população que eram eficazes. Um homem que chamou o que matou [...] quase meio milhão de brasileiras e brasileiros (até agora) de “gripezinha”

Essa sistematização foi construída pela jornalista Eliane Brum, ao escrever sobre uma parcela das medidas desenvolvidas por Bolsonaro que contribuíram para uma guinada significativa no número de mortes provocadas pela Covid-19. Brum escreveu sobre essa sistematização em um texto intitulado “Maria, preciso te contar sobre Bolsonaro, o fazedor de órfãos”, endereçado a Maria Clareto, de dois anos de idade, filha de Lilo Clareto. Lilo, um premiado fotógrafo e grande amigo da autora, faleceu em decorrência da Covid-19, no dia 21 de abril de 2021. Nesse texto, Brum inferiu, a partir da morte de seu amigo, que as ações desempenhadas por Bolsonaro condenaram uma geração “a crescer e a viver sem pai ou sem mãe” e que isso seria imperdoável. Ressentir, assim como demarcado por Maria Rita Kehl, “significa atribuir ao outro a responsabilidade que nos faz sofrer”. O indivíduo ressentido não é “alguém incapaz de se esquecer ou de perdoar; é um que não quer se esquecer, ou não perdoar, nem superar o mal que o vitimou”. Ora, como explicar para uma geração que sua orfandade foi provocada pela ação do Chefe do Poder Executivo e pela sociedade que consentiu? Seria possível afirmar que estamos gestando uma geração marcada pelo ressentimento?

O certo é que esse cenário tem provocado experiências marcadas por características traumáticas, e as experiências históricas que possuem essas características exigem a elaboração de um manancial de políticas públicas que possibilitem a elaboração desses traumas, seja com processos reparatórios ou políticas de memória, por exemplo. Afinal, o trauma perdura mesmo após o fim do evento traumático, nas palavras de David Becker e Hugo Calderón, “assim como a destruição provocada por um incêndio não desaparece quando acabam as chamas”. Porém, quando seguimos em um sentido contrário, ou seja, quando elaboramos de forma limitada esses traumas, como no caso da ditadura civil-militar brasileira, possibilitamos a ascensão de novos pandemônios, como o que estamos vivendo.

Afinal, quando paro para refletir acerca desse cenário catastrófico, questiono-me sempre: como chegamos até aqui? Todos os caminhos de resposta me direcionam para as frestas da transição da nossa última ditadura. Essa transição, gestada na década de 70 do século passado, possui uma íntima relação com a minha contemporaneidade. Assim como alertou Aleida Assmann, as feridas abertas e mal curadas são como bombas, que correm o risco de explosão a qualquer momento. As feridas abertas e mal curadas durante a transição da ditadura explodiram no nosso tempo. E é justamente esse entrelaço entre as feridas do passado e o modo em que elas desaguam no nosso que me faz querer pesquisá-la. Destaco esses pontos, pois essa subjetividade não deve ser negada a partir de uma falsa premissa de imparcialidade: ela precisa ser, conforme apontada por Sabrina Loriga, “reconhecida e transformada em fonte de conhecimento”. Foi por entender a importância de transformar a parcialidade do historiador como fonte de conhecimento que decidi evidenciá-la nesse texto.

Já que essa é uma coluna de apresentação, preciso falar sobre o que escrevo. A temática à qual direciono o meu olhar está circunscrita no processo de (re)escrita da história da ditadura brasileira de 1964 em Pernambuco. Atualmente, analiso o Relatório Final da Comissão Estadual de Memória e Verdade Dom Helder Camara (CEMVDHC), fruto de um período em que diversos estados do Brasil criavam as suas próprias comissões para investigar e esclarecer as graves violações aos Direitos Humanos ocorridas durante a ditadura.

A Comissão foi instaurada no dia 1º de julho de 2012, por meio da Lei nº 14.688, a fim de efetivar o direito à memória, à verdade histórica e promover a consolidação do Estado Democrático de Direito. A Lei de criação da CEMVDHC é resultante do Projeto de Lei do Executivo de nº840/2012. A comissão foi integrada por nove membros e recebeu o prazo de dois anos para desenvolver as investigações, período que poderia ser renovado uma vez. Seu relatório final foi entregue em ato de solenidade no dia 25 de outubro de 2017, tornando-se o documento mais importante e de maior fôlego sobre a ditadura no estado de Pernambuco.

O Relatório Final da Comissão da Verdade de Pernambuco foi dividido em dois volumes, e cada um deles foi dividido em cinco partes: 1. Organização; 2. História de vida dos 51 mortos e desaparecidos; 3. Conjuntura política; 4. Violações de direitos humanos em Pernambuco; 5. Recomendações. Acerca dessa divisão dos volumes, a Comissão Estadual da Memória e Verdade Dom Helder Camara seguiu algumas estruturas já formuladas pela Comissão Nacional da Verdade, tal como a dedicação de um capítulo para as Recomendações.

No entanto, o Relatório Final teve uma estrutura peculiar, derivada das perspectivas dos membros da Comissão, tal como a organização da narrativa sobre os mortos e desaparecidos. O espaço dedicado a esses relatos foi formulado a partir da inserção das vítimas nas organizações político-partidárias. Esse modelo estrutural de construir a narrativa sobre os vitimados foi denominado por um dos organizadores da Comissão, o qual eu entrevistei, como “perspectiva um pouco lógica”. Segundo o entrevistado:


Porque nós entendemos, depois com o tempo, que as queda, as prisões não foram isoladas. A polícia não ia atrás de Karlla, a polícia ia atrás da APML, a polícia tava atrás da VPR, a polícia tava atrás da PCBR. Então a relatoria não era mais individual, era dessa organização, entendeu?

Essa compreensão da narrativa dos atingidos pela ditadura em Pernambuco centradas na concepção de um sujeito-vítima ligado à uma estrutura político partidária é de suma importância para a análise do contexto e estudo do motivo pelo qual o vitimado foi perseguido durante o regime. No entanto, o relatório ratifica a perspectiva de que os agentes da ditadura perseguiram apenas militantes pertencentes à luta armada ou organizações semelhantes. Já o segundo volume tem o horizonte de análise mais amplo: ele compila, a partir de rodas temáticas, um importante trabalho de pesquisa sobre a repressão no campo, aos movimentos sociais e à Igreja. É um documento que, apesar das minhas críticas, perturbou em alguma medida o som do silêncio através da narrativa.

Em síntese, escrevo sobre essa (re)elaboração do passado da ditadura através da palavra escrita, estruturada em um relatório. E escrever sobre isso é, mais uma vez, o meu modo de tentar compreender, através da minha escrita, um evento histórico.


Créditos da imagem destacada: Valdo Leão/Prefeitura de Manaus. Fonte: Agência Câmara de Notícias. Wikimedia Commons.

Referências: ASSMANN, Aleida. Lembrar para não repetir”. Jornal da Unicamp, 2013.

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