• Thiago Mourelle

Getúlio Vargas e o “tribunal da História”

Atualizado: Abr 29

“Professor, Getúlio Vargas fez mais coisas boas ou mais coisas ruins?”. É muito comum nossos alunos fazerem esse tipo de pergunta, seja no Ensino Médio ou no Fundamental. Isso também é bom, porque demonstra interesse e envolvimento com a disciplina de História. O que eles não sabem é que ainda na faculdade, e até depois dela, tal julgamento volta e meia cruza, mesmo que de modo mais sutil, a escrita da História.

Muito já se falou sobre o papel dos intelectuais na sociedade e, no caso específico dos historiadores, da necessidade de tentar ao máximo se manter à parte de suas paixões: é a chamada objetividade histórica acompanhada de um método, que confere à História (com "H" maiúsculo) o rigor de análise e o valor científico. Mas, ao mesmo tempo, pessoalmente, cada historiador tem suas posições políticas e ideológicas.

O governo Vargas, chamado pela expressão sacralizadora (e, por isso, equivocada) de “Era Vargas”, é um desses momentos da história que suscita paixões, não só entre as pessoas sem formação em História, mas também entre os historiadores. É impossível estudar um período de tanta pulsão e de muitas mudanças cruciais para a História do Brasil, sem deixar de se posicionar sobre as importantes ações de Getúlio Vargas e de seus contemporâneos. Apenas de 1930 a 1945, num curto período de 15 anos, tivemos uma guerra civil, uma insurreição da extrema-esquerda, outra da extrema-direita, duas constituições, três rompimentos do curso institucional (1930, 1937, 1945), a participação em uma guerra mundial, a descoberta do petróleo no país, viscerais transformações urbanas, uma nova legislação trabalhista, entre outros fatos marcantes para a vida brasileira. Aplica-se àquela época a mesma questão que se faz hoje sobre tudo o que vivemos nos últimos anos na política nacional: “como os historiadores do amanhã explicarão tudo isso?”

A apaixonante história de Getúlio Vargas, que chegou ao poder em 1930, teoricamente rompendo com o que ficou conhecido como “República Velha” (outra expressão parcial, criada pelo governo Vargas para desqualificar os governos anteriores, e que não deveria ser referendada pelos historiadores) e inaugurando o que muitos chamam de “Brasil moderno”, termina de uma forma que nem os mais brilhantes escritores de novelas ou roteiristas de cinema poderiam imaginar: um suicídio espetacular. O Cristo brasileiro dando seu corpo e seu sangue para a salvação, na teoria, de seu povo.

Getúlio Vargas. Arquivo Nacional. Acervo Correio da Manhã.

Não à toa Vargas foi mitificado. Talvez seja o governante mais marcante da História do Brasil ou, pelo menos, certamente está entre os dois ou três mais lembrados. O problema é que mitificar afasta o objeto em questão das condições primordiais condicionantes para a escrita da História. Do século XIX pra cá, a História alcançou o status científico graças à busca pela imparcialidade, crítica às fontes e aplicação de um método objetivo de análise.

O historiador francês Georges Duby, no livro A História Continua, toca em um ponto essencial para explicar o que estamos aqui a defender neste artigo: o pesquisador deve buscar a imparcialidade, mesmo ciente da impossibilidade em atingi-la em sua completude. Deve caminhar em direção a ela como quem caminha em direção à linha do horizonte. Sabendo que não vai chegar, mas a tendo como direção. Assim deve ser estudado Getúlio Vargas e qualquer outro personagem. A História deve buscar explicar, compreender, analisar, e não sacralizar, endeusar ou mitificar. Por isso o termo “Era Vargas” parece mais apontar para a antiga “História dos Grandes Homens” – que resumia grandes períodos históricos à simples atuação de reis e rainhas – do que, de fato, a explicar o que ocorreu de 1930 a 1945 e de 1951 a 1954 em toda a sua complexidade e dando voz a todos os personagens envolvidos.

A ideia de “pai dos pobres” ficou pregada visceralmente na imagem e na memória construída pelo Estado Novo sobre Getúlio Vargas, consolidada após o suicídio. Abro aqui um curto parêntese para lembrar, para o espanto de muita gente, que este período de 1937 a 1945 foi uma ditadura, com repressão, manipulação da informação e censura. Porque, às vezes, parece que isso é esquecido, como se nossa única ditadura tivesse sido a de 1964-85. Soa quase como uma blasfêmia, muitas vezes até mesmo entre os historiadores, quando alguém faz críticas ao homem que criou a CLT e que “deu a vida” para se defender de um golpe em marcha.

Tudo isso é perfeitamente compreensível, ainda mais para um país carente de políticos comprometidos com os valores públicos e os interesses comuns. É fácil perceber a conotação ruim que a palavra “política” tem para a grande maioria dos brasileiros e como faz sucesso os que fingem ou parecem não fazer parte do grupo dos “políticos profissionais”.


Mas, como historiadores e professores, não podemos cair nessa armadilha. Ao ler trabalhos acadêmicos que pesquisaram especificamente a repressão e a censura no governo Vargas, vemos um ponto comum que perpassa todos eles: nenhum compreende como a violência nas ruas, o fechamento de sindicatos e outras associações de trabalhadores, as prisões arbitrárias e até mesmo os bárbaros casos de tortura não macularam a imagem de Vargas para a posteridade, sendo fatos desprezados até mesmo por alguns historiadores. Um exemplo: Filinto Muller, um dos mais violentos chefes de polícia da História do Brasil (1933-42), mantido por 9 anos nesse cargo no Distrito Federal (na época, a cidade do Rio era a capital do Brasil) e respondendo diretamente ao presidente, muitas vezes aparece em análises históricas quase que desvinculado de seu chefe, que praticamente não teria responsabilidade pelos atos de seu subordinado.

Getúlio Vargas. Arquivo Nacional. Acervo Correio da Manhã.

Abre-se uma exceção, talvez, para o caso da deportação de Olga Benário, grávida, para a Alemanha nazista, onde acabou morrendo num campo de concentração. Nessa hora, alguns “torcem o nariz” para Vargas. Mas essa talvez seja uma das poucas “manchas” que o gaúcho bonachão parece carregar em seu portfólio para a posteridade. De resto, silêncio. A marca “pai dos pobres” certamente saiu vitoriosa contra a de “ditador autoritário e violento”.

O primeiro passo para sermos pesquisadores e professores de História é nos livrarmos dos mitos, sejam eles de direita ou de esquerda. A História não deve aceitar demonizações e santificações. Voltando ao nosso personagem de hoje, não se trata de apagar as realizações de Getúlio Vargas – como disse, pra mim é o presidente mais marcante e um dos mais significativos personagens de nossa história –, mas sim de analisar os fatos históricos com uso do método, buscando a objetividade, não colaborando para a perpetuação de uma imagem criada numa ditadura e aceita pelo senso comum. Vargas não é o “herói dos trabalhadores”, assim como também não é o “ditador sanguinário fascista”. Cabe ao historiador se livrar dessas paixões e desse reducionismo tolo quando estiver no exercício de sua profissão.

Como já se falou: a história não é um tribunal. Não devemos julgar, mas cuidar para apresentar à sociedade uma múltipla visão dos fatos, com apoio em nossas fontes e em nosso método. Por favor, não devemos alimentar mitos! Nem os de ontem, nem os de hoje. Vamos escrever, aprender e ensinar História e não contos de ficção – que são apaixonantes, mas que não cabem ao historiador.


Crédito da imagem destacada: Getúlio Vargas. Arquivo Nacional. Fundo Correio da Manhã. BR_RJANRIO_PH_0_FOT_18089_346.



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