• Arthur Lima de Ávila

O 1619 Project: um passado prático para os Estados Unidos contemporâneos

Se fôssemos reduzir a ideia de passado prático, popularizada por Hayden White, a uma fórmula sintética, poderíamos dizer que ele se refere à “história que machuca”. Não se trata, portanto, quaisquer usos do pretérito, mas sim daqueles que visam responder à indagação sobre o que fazer com essas feridas históricas; é um uso que nos confronta com os “tipos de verdades necessárias” para “existências vividas sob condições de opressão, falta e necessidade” para, se possível, proporcionar alguma forma de liberação dessas mesmas circunstâncias.


Hayden White – historiador estadunidense (1928-2018). Reprodução.

Em outras palavras, o passado prático trata dos dilemas existenciais de coletividades que, para parafrasear Saidiya Hartman, vivem em um presente onde o horror e o perigo não cessam. Por essa razão, as controvérsias ao seu redor não dizem respeito exclusivamente a questões factuais ou empíricas, como seria de se esperar, mas a problemas políticos e narrativos de primeira ordem. Pode-se, inclusive, argumentar que as primeiras se subordinam aos segundos porque até mesmo o que pode ser considerado como “fato histórico” é motivo de disputa.


Se a história, como nos diz Hartman, também deseja dar um descanso pacífico aos mortos, isso é virtualmente impossível quando o evento de terror não terminou: “se o passado não passa, é porque o futuro ansiado” ainda está por chegar. Nessa conjuntura, tão importante quanto o (re)estabelecimento de uma verdade histórica, seja ela qual for, é o impulso à ação que advém dessa utilização prática do pretérito.


É sob esse prisma que quero tratar das polêmicas ao redor do 1619 Project, um ambicioso projeto de reescrita da história norte-americana capitaneado por Nikole Hannah-Jones e publicado em agosto de 2019 pelo The New York Times.


Reenquadrando a história nacional: o 1619 Project

A premissa do 1619 Project é simples, mas poderosa: não há (quase) nada na experiência estadunidense que não tenha sido tocado pela escravidão. Para os idealizadores da publicação, o ano de 1619 adquire um enorme poder simbólico exatamente por isso, pois foi supostamente nessa data que os primeiros escravizados desembarcaram nas praias da Virgínia. Sob esse aspecto, a data da “real” fundação da América seria 1619 e não 1776; sua característica principal seria a servidão humana, não a liberdade. Narrativamente, o clangor das correntes substitui a marcha da liberdade em terras ao norte do Rio Grande.


Se isso parece ambicioso é porque é ambicioso: como expresso pelo editor do 1619 Project, Joel Silverstein, esse reenquadramento da história norte-americana almejava entender as “heranças da escravidão no presente para talvez preparar” seus compatriotas para um futuro mais justo, um futuro em que o evento tenha – quem sabe? – finalmente se encerrado.


Nesse espírito, as diversas contribuições ao projeto – elaboradas por historiadores, jornalistas, poetas e sociólogos, dentre outros profissionais – focam em variados âmbitos desse passado, da luta negra para construir uma democracia real (e não a letra morta que fora durante muito tempo) às vinculações entre capitalismo, desigualdade sociopolítica e escravidão, visíveis, por exemplo, no sistema prisional, no pensamento conservador antipopular e antidemocrático e na estrutura das cidades dos Estados Unidos.


Para colaboradores tão variados como Kevin Kruse, Matthew Desmond, Jamelle Bouie e Bryan Stevenson, além da própria Hannah-Jones – o alvo favorito dos espetáculos de misoginia e racismo de alguns opositores ao projeto –, passado e presente não podiam ser tão facilmente diferenciados; pelo contrário, os fantasmas de ontem perambulam livremente pela paisagem de hoje, ao menos aos olhos de quem quiser vê-los.


Hannah-Jones, por exemplo, analisa o trágico espetáculo de uma democracia fundada na supremacia branca e só transformada em realidade efetiva pelas lutas de gerações de negras e negros, muitas vezes sem apoio algum dos bons cidadãos do país. Enquanto isso, Kruse, Desmond, Bouie e Stevenson desnudam os elos entre democracia, capitalismo, escravidão e racismo antinegro nos sistemas políticos, econômicos e prisionais do país. Afinal, não é coincidência que uma das mais brutais prisões norte-americanas, a infame Angola Prison, tenha sido construída em terras outrora pertencentes a uma plantation homônima ou que a desigualdade sociopolítica preconizada pelo conservadorismo do século XXI tenha uma inquietante semelhança com as doutrinas dos senhores de escravos do velho Sul.


Nesse sentido, o 1619 Project é uma forma de conjurar esses espectros para o público, isto é, colocá-los a conversar com a audiência exatamente para revelar (ou produzir) uma história que machuca, por meio de uma determinada política do tempo e de uma reavaliação do problema da história para a nação. Para Silverstein, trata-se de, por um lado, “expandir o sentido do passado” para os leitores para, por outro, forçá-los a fazer algo a respeito da “chaga não curada” de três séculos.


Nikole Hannah-Jones apresenta o 1619 Project. Reprodução

O projeto do The New York Times toma a “condição perigosa do presente”, nas palavras de Hartman, para estabelecer um dos elos possíveis entre uma era e aquilo que a antecedeu. Por essa razão, o passado não é um artefato a ser contemplado passivamente ou um conjunto imutável de fatos: ele é algo que precisa ser usado para afetar o presente porque a dívida jamais foi paga – e, se levarmos a sério as considerações de David Scott, talvez nem venha a sê-la. Frente a isso, a história adquire um “mandato ético e político”, pontua Hartman, inegável. Logo, não espanta que Hannah-Jones também tenha definido o 1619 Project como uma narrativa em prol das reparações devidas aos descendentes de escravizados para o contexto norte-americano: uma história reparatória, na expressão de Scott, que almeja um futuro (improvável?) em que a ferida tenha sido fechada.


Qual nação?

Não é de se estranhar, assim, que uma saraivada de objeções tenha sido direcionada ao projeto. Se os aplausos foram numerosos, as oposições também o foram – e continuam sendo. Alguns historiadores, fiéis ao espírito da disciplina, argumentaram que nada do que havia sido publicado pelo jornal novaiorquino era novidade e que o projeto submetia os “fatos da história” a uma visão política apriorística que os “distorcia”, transformando divergências de interpretação em problemas factuais. Por exemplo, Gordon Wood, Victoria Bynum, James McPherson, James Oakes e Sean Wilentz chegaram a escrever uma carta ao jornal solicitando uma série de “correções” e a retirada do ar do 1619 Project até que fossem feitas as alterações demandadas, mesmo que demonstrassem simpatia pela sua função pública maior.


Salvo uma inferência realmente duvidosa feita por Hannah-Jones – a Revolução de 1776 apresentada como uma revolta de senhores de escravos contra uma Grã-Bretanha “abolicionista” – e posteriormente amenizada pelos editores, nenhum dos apontamentos feitos pelos cinco historiadores supracitados era estritamente “factual”. Na verdade, sua insatisfação era resultante tanto de vaidade – visto que não foram consultados pelos organizadores do projeto – quanto de uma indisposição com a “politização” do passado efetuada pelo jornal. À sua maneira, esses historiadores refletiam aquela tensão (quando não um antagonismo) anotada por White entre o “passado histórico” – supostamente produzido enquanto um fim em si mesmo – e o passado prático.


Os críticos conservadores, dos moderados aos mais exaltados, compreenderam muito bem esse dilema. Políticos ligados ao Partido Republicano – como Newt Gingrich, Mitch McConnell e Tom Cotton – reagiram virulentamente à publicação, considerando-a uma mentira, um ataque à dignidade da nação, propaganda esquerdista e uma teoria da conspiração destinada a enfraquecer os laços de afeição da juventude para com a pátria. Cotton, em um momento de sinceridade bastante revelador, chamou a escravização de milhões de seres humanos de “um mal necessário” para que os Estados Unidos pudessem ter se tornado o “mais justo e perfeito” país da face da Terra – uma versão ensandecida da “marcha para a liberdade” com contornos obviamente racistas.


Por todos os Estados Unidos, aliás, legisladores republicanos têm lutado para impedir que o conteúdo do 1619 Project seja ensinado nas escolas e defendido a adoção de currículos “patrióticos” para conter o avanço da “revolução cultural” supostamente em curso. Qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência...


Para eles, o The New York Times simplesmente parte de um conluio para “destruir” os Estados Unidos por meio da aniquilação de seu passado, visto também, dizem eles, na luta pela remoção das estátuas confederadas do espaço público e na adoção da teoria crítica da raça, que se transformou em um literal objeto de ódio da direita estadunidense. Tudo isso não passaria de, na famosa expressão de Philip Roth, um complô contra a América.


Assim como em outras guerras de histórias anteriores, essas reações estridentes demonstram que, mais do que a verdade histórica, o que está em jogo é o poder de definição sobre o que pode e/ou não pode ser considerado “verdade histórica”. Igualmente, ao rejeitarem a existência de qualquer legado da escravidão ou o consignarem a um passado encerrado e sem peso para a atualidade, eles podem responder à questão “o que fazer?” não fazendo nada: um negacionismo de fato, mesmo que não necessariamente dos fatos.


Nessa visão, a América é inocente, e todos os conflitos sociais são causados por seus “inimigos”, em um reducionismo estupidificante, mas eficaz para os planos ideológicos do Partido Republicano, principalmente em circunstâncias de tensão sociopolítica exacerbada. O infame The 1776 Report, publicado às vésperas do fim da administração de Donald Trump, servia exatamente a estes propósitos.


Em um plano mais “sofisticado”, as contraposições ao 1619 Project não fugiram de um tom alarmista que não discutia a base documental da iniciativa, mas seu âmbito narrativo e finalidade política. Allen Guelzo, professor de Princeton e renomado historiador conservador da Guerra Civil, alertou para o niilismo encrustado no coração dessa polêmica anticapitalista disfarçada de “história”. Para ele, a escravidão seria apenas um “lamentável capítulo de um passado distante” e quaisquer tentativas de transformá-la numa “entidade vivente” no presente não passava de uma “teoria da conspiração” que dava ao público somente “amargura, fragilidade e corrupção intelectual”.


No fundo, o que assustava Guelzo não eram os “fatos”, mas o sentido que o projeto dava a eles, especialmente no que concernia o futuro: “se meus compatriotas acreditarem nesses niilistas”, ele parece gritar em desespero, “então a nação mesma estará ameaçada!” Outros repercutiram o pavor de Guelzo, acusando o The New York Times de “jacobinismo”, “desequilíbrio”, “desdém pela fundação da América”, “brincar com os fatos” e “instigar antiamericanismo”: o estilo denunciativo freestyle tem sido o predicado dessas recriminações.


Jonathan Leaf, em tom dramático, condenou o estrago que a iniciativa estaria fazendo “ao tecido da vida democrática” dos Estados Unidos, ao ensinar seus jovens que o país era fundamentalmente “maligno”, em uma evidente extrapolação interpretativa. Enquanto isso, os vetustos colunistas da National Review, Bíblia do conservadorismo estadunidense, esconjuravam a “revolução cultural” subjacente ao empreendimento e suas tentativas, segundo eles, de “alterar” o passado pátrio: as coisas tinham ido longe demais!



Brent Stephens, colunista do próprio The New York Times, ecoou essa posição ao lamentar que a iniciativa tenha usado a história para “polarizar” o país, ao invés de acalmar os ânimos em circunstâncias de crise; o correto teria sido pagar deferência aos “ideais de 1776” ao invés de estimular uma leitura “partidária” do pretérito.


Fantasmas, história e democracia

Por trás dessas recriminações, está, no meu entendimento, uma recusa em enfrentar os fantasmas que perambulam por aí, em entender que a história “morta” de uns é a ferida aberta de vários e uma obsessão com a “honra nacional” que é apenas outro nome para medo. Esse medo exige uma versão higienizada, positiva, individualista e mistificada da história, entendida como uma hagiografia da nação oposta a um escrutínio responsável de seus pesadelos e terrores – que são, lembremos, presente para uma multitude de seus cidadãos e cidadãs. Sob essa perspectiva, o passado, no que tange às feridas históricas, deve ser mantido afastado da atualidade a todo custo, esterilizado e mumificado, porque não há nada a ser reparado, não há nada a ser feito, salvo contemplá-lo passivamente, com admiração e reverência (as mesmas exigidas dos estúpidos).


Se se concebe o pretérito enquanto um fardo a ser nomeado, encarado e, se possível, reparado, então a história – incluindo a atualidade por onde seus espectros perambulam – é realmente um problema a ser enfrentado, ainda que sem garantia de resolução. Agora, se o passado é simplesmente um conjunto de dados e fatos a ser transmitido para fins de “devoção” a certas figuras e eventos, ela nem sequer é um problema, salvo quando afrontada por outras concepções e exigências. Em uma situação de tensão acentuada, como é a dos Estados Unidos atuais, a politização da história é incontornável porque ela oferece aos sujeitos um meio de “navegar no presente”, na metáfora de Hartman, nem que seja durante uma tempestade.


Consequentemente, é impossível solucionar essas contendas com o recurso a “fatos históricos” supostamente neutros e anteriores a elas, pois inclusive o que pode ser considerado “fato” é disputável – e ganha essa disputa quem tem poder para fazer valer suas narrativas publicamente, independentemente de quão verídicas são. A polêmica ao redor do 1619 Project é um salutar lembrete disso, também porque demonstra que, a despeito de sua inegável crise, a história é ainda um recurso crucial nas lutas políticas de nosso tempo.


Mas tudo isso pertence a um panorama ainda mais sinistro: o do esvaziamento reacionário da democracia norte-americana, similar a outros processos de desdemocratização globais (o brasileiro incluso) e radicalizado pela eleição de Trump em 2016, pela Big Lie republicana – a ideia de que as eleições de 2020 foram fraudadas – e por estratégias de restrição/retirada de direitos políticos-eleitorais em estados controlados pelo Partido Republicano, que afeta sobremaneira negros e negras. Há, efetivamente, uma contrarreação às transformações sociais e demográficas das últimas décadas e ao surgimento de movimentos sociais com grande ressonância, dos quais o Black Lives Matter é o mais importante. O slogan trumpista Make America Great Again! é o símbolo máximo dessa contrarreação.


No que tange à história enquanto disciplina, há um assalto coordenado a perspectivas críticas ou que não se enquadrem no hiper nacionalismo exigido pela direita, representado pelas tentativas legais de barrar o ensino do 1619 Project ou assemelhados em sala de aula – casos da Louisiana, New Hampshire e Tennessee – e de forçar, também pela via legislativa, conteúdos “patrióticos” dedicados a congelar permanentemente os significados do passado – como ocorreu no Texas.


No fundo, tudo isso pode ser o reconhecimento de que, bem ou mal, as narrativas do 1619 Project e iniciativas análogas dizem verdades intoleráveis sobre a nação e que, por isso mesmo, precisam ser sufocadas. Se for isso – e creio que seja – então o problema da história torna-se, por extensão, o problema da democracia – e poucas coisas são mais importantes em nossos dias.


Passado prático, futuro aberto

Mas retornemos, enfim, ao passado prático. Para White, ele envolve o reconhecimento de que vivemos sob os detritos de situações anteriores e que, por isso mesmo, necessitamos de “táticas para viver” neles. Em parte, é isso que o 1619 Project, com todos seus limites, propõe em sua refiguração do passado norte-americano: uma maneira de confrontar a “pós-vida da escravidão”, no termo de Hartman, para imaginar (ou talvez possibilitar?) um futuro em que ela seja finalmente passada e criar as condições para novas maneiras de existir.


Talvez por isso os conservadores, sempre tão ciosos em impedir esses gestos, tenham tamanha aversão à iniciativa do The New York Times. E talvez também isso explique, por outro lado, a imensa popularidade e força política do projeto, independentemente das justas críticas que possam lhe ser feitas: sua força reside sobretudo em seu aspecto prático, isto, é do reconhecimento de que alguma coisa precisa ser feita para encerrar o evento e aplacar os fantasmas. O passado, como o futuro, continua em aberto.


Referências:

HARTMAN, Saidiya. Lose your Mother: a journey along the Atlantic slave route. New York: FSG, 2007.

SCOTT, David. A reparatory history of the present. In: Small Axe, vol. 52, p. vi-x, March 2017.

WHITE, Hayden. The Practical Past. Evanston: Northwestern University Press, 2014.


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