• Pedro Russo

O olhar de Eduardo Coutinho sobre a violência da ditadura no campo

Atualizado: Mai 25

Escrito por Pedro Russo e Marco Escrivão


Em 1981, Eduardo Coutinho voltava para Pernambuco com o objetivo de retomar a gravação do longa-metragem Cabra Marcado para Morrer (1984), interrompida com o golpe civil-militar de 1964. O diretor iniciou uma busca pelos antigos personagens do filme que atuavam na luta pela reforma agrária no país, por meio das Ligas Camponesas. Em especial, Coutinho procurava Elizabeth Teixeira, esposa do líder camponês João Pedro Teixeira, personagem principal da primeira fase de gravação, assassinado em 1962.


O retorno do documentarista à região se deu aproximadamente dois anos após a assinatura da Lei de Anistia. Apesar de encontrar diversos personagens que conhecera em 1964, nenhum deles sabia do paradeiro de Elizabeth Teixeira, uma das personagens centrais do filme. Iniciou-se aí uma procura pela mulher que, após a morte do marido, assumiu a liderança das Ligas na região. Na época, Elizabeth vivia de forma clandestina: após o golpe, precisou se esconder da repressão e passou a circular por algumas cidades. Por fim, estabeleceu-se em São Rafael, no interior do Rio Grande do Norte, sob o nome falso de Marta Maria da Costa e com apenas um dos seus dez filhos.


Cabra Marcado para Morrer é um dos documentários mais importantes da cinematografia brasileira. Trata-se de um libelo sobre como se deu a repressão no campo antes, durante e depois do golpe de 1964 e de um olhar que, a partir do presente fílmico, ou seja, o início da década de 1980, ilumina este passado do país. Com base no longa-metragem, discutiremos algumas questões: se o país experimentava a volta dos exilados que se encontravam no exterior, que motivos levaram Elizabeth a se manter na condição de exílio em seu próprio país, mesmo quase dois anos após a Anistia? Por que ela continuava longe de seus filhos e usando outro nome? Por que reconhecidas lideranças de partidos políticos e organizações de oposição à ditadura assumiram para si a anistia e Elizabeth, liderança das Ligas Camponesas, não?


No início do filme a personagem apresenta um relato sobre as condições em que se encontrava quando decidiu “sumir do mapa”, pouco depois do golpe. Após ser questionada por Coutinho se tinha esperança de ver a finalização do filme, ela responde: “Eu não tinha mais esperanças, de nunca mais encontrar nem sequer com meus filhos. Eu tinha medo. Eu sofri muito. Vocês são testemunhas, eu sofri demais. A perseguição era grande. Os caras tiveram muita vontade de me exterminar.”


Pôster do filme Cabra Marcado para Morrer. Wikimedia Commons.

A temática do medo que acometeu os camponeses após o golpe de 1964 é tratada pelas professoras Regina Novaes e Leonilde Medeiros. De acordo com a pesquisa de Medeiros sobre a resistência camponesa no estado do Rio de Janeiro:


os proprietários de terras e grileiros se apropriaram do discurso de luta contra a subversão para expulsar lavradores de suas terras. Os depoimentos que tivemos (durante a pesquisa de campo) reforçam a tese desenvolvida por Novaes (1997), em seus estudos sobre a Paraíba, de que o medo se espraiou, se interiorizou e inibiu resistência organizada.


Cabra Marcado para Morrer traz, a partir das memórias de Elizabeth Teixeira, um exemplo de como o medo foi alimentado pelas experiências concretas de violência. Dentre elas o assassinato e o desaparecimento forçado de duas lideranças camponesas da região de Sapé, na Paraíba, João Alfredo Dias e Pedro Inácio de Araújo, o Pedro “Fazendeiro”, ambos militantes das Ligas Camponesas e do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Dias e Araújo foram presos em abril de 1964 e estão desaparecidos desde setembro do mesmo ano. Foram encontrados, à época, em um matagal próximo à cidade, dois corpos carbonizados que, acredita-se, eram dos desaparecidos citados. No entanto, não foi possível confirmar suas identidades. O filme revela que jornais locais noticiavam que os corpos seriam de marginais executados pelo Esquadrão da Morte. Esse conjunto de informações nos fornece uma dimensão das formas de apagamento da memória empreendidas pela ditadura. Mais de quarenta anos depois, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) realizou uma busca pelos corpos dos dois líderes camponeses, mas não obteve sucesso.


Ao retomar suas dores, Elizabeth Teixeira não o faz de maneira individual, mas assume sua vivência sob o prisma coletivo invocando os companheiros mortos: “Antes eu era caladinha, não dizia nada, assombrada. Mas graças a Deus, hoje estou aqui, né? Contando a história. E o João Alfredo e o Pedro ‘Fazendeiro’?”. De fato, a força do filme ao apresentar as lembranças da personagem carrega consigo a potência de instaurar uma memória coletiva que não estava dada no momento do lançamento de Cabra Marcado para Morrer. Como aponta Regina Novaes em artigo sobre o referido filme: “Talvez se possa dizer que sem o filme não haveria hoje nenhuma figura emblemática, da época, conhecida nacionalmente.”


O documentário deu visibilidade aos casos de camponeses mortos e desaparecidos durante a ditadura. Na primeira metade da década de 1980, duas importantes ações de denúncias dos crimes cometidos por agentes do regime chegaram à opinião pública brasileira: o primeiro Dossiê dos Mortos e Desaparecidos (1984), organizado pela Comissão de Familiares e pelo Comitê Brasileiro pela Anistia do Rio Grande do Sul; e o Projeto Brasil: Nunca Mais (1985). Em ambos, João Alfredo e Pedro “Fazendeiro” são citados. Apesar disso, suas histórias só adquiriram visibilidade após o lançamento do filme de Coutinho.


Embora a gravação e lançamento de Cabra Marcado para Morrer tenham ocorrido durante o período de abertura política do país, ainda se vivia sob uma ditadura. Portanto, é preciso compreender que o medo presente no discurso de Elizabeth tem lastro nesse contexto político – mais especificamente no meio rural brasileiro da década de 1980. Há uma singularidade no que concerne à violação aos Direitos Humanos no campo, que deve ser observada. De acordo com o escritor e político Gilney Viana, em livro sobre a exclusão de camponeses da Justiça de Transição: “a maioria das mortes e desaparecimentos de camponeses e apoiadores durante a ditadura militar ocorreu no período seguinte à Anistia, 1979-1985.”


Desse modo, para compreender a situação de Elizabeth Teixeira, é necessário ter um olhar crítico e atento às especificidades da violência contra camponeses durante a ditadura. Tanto na historiografia quanto na grande imprensa tornou-se comum o discurso de que a violência da ditadura foi mais contundente entre os anos de 1968 e 1979, quando vigorava o AI-5. Essa afirmativa pode estar correta quando nos referimos principalmente às organizações políticas urbanas de oposição à ditadura. Essas organizações possuíam em suas fileiras, em grande medida, militantes provenientes das classes médias urbanas. No entanto, como apontado por Viana, a violência não cessou no meio rural após a assinatura da Lei de Anistia e do fim da vigência do AI-5. Além disso, as violações aos Direitos Humanos nos meios rurais não estavam circunscritas à ação dos órgãos de repressão da ditadura reconhecidos, como os DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) e os DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna).


Gilney Viana cita também um relatório da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) sobre como se dava a violência no campo entre 1981 e 1984. Segundo o documento: “a violência, às vezes, é exercida diretamente pelo proprietário. Mais frequentemente, entretanto, fazendeiros, grileiros ou empresas usam de pistoleiros profissionais ou de verdadeiras milícias privadas”. Assim, à época, não se pode afirmar que as garantias políticas concedidas pela Anistia seriam necessariamente asseguradas àqueles que viviam no meio rural. Aliás, o contrário era mais provável: percebendo novos tempos que se apontavam no horizonte, latifundiários teriam aproveitado a lenta transição para eliminar lideranças e, mais uma vez, reafirmar seu poder local pela violência e pelo medo.


De volta ao filme e de posse das reflexões acima, é possível compreender, então, a postura enérgica e preocupada do filho mais velho de Elizabeth, Abraão, no primeiro dia de filmagem, quando a entrevistada se revela para o mundo, saindo da condição de exílio. Abraão foi o responsável por expor o paradeiro da mãe, o que, em última instância, potencialmente, a colocava em risco. Levando-se em conta o grau de tensão e o jogo de relações que são colocados nesse trecho, Regina Novaes destaca que os sentimentos em plano são diversos, desde a alegria atordoada de Elizabeth “a mágoa de Abraão, a perplexidade de Coutinho. Todos tinham um pouco de razão. Em cena não há heróis ou bandidos, dominadores e dominados. Há interesses e sentimentos diferentes explicitados à flor da pele.”


Ainda sobre essa sequência, outro ponto chama atenção. Logo que a mãe, após os primeiros momentos de emoção, tenta iniciar uma fala mais contínua e estruturada, Abraão intervém e ordena: “Mãe, reconheça a abertura política do presidente Figueiredo”, o que é prontamente atendido por Elizabeth, que diz: “o presidente Figueiredo, graças a ele eu estou aqui hoje com a presença de vocês, que estão aqui. Porque foi o único governo e ele merece toda a dignidade nossa de ter dado esse amplo direito de que todos os presos políticos que se encontravam fora do Brasil voltar a encontrar-se com seus familiares.” Eis a contradição do processo de abertura política no Brasil, baseado na tutela e no agradecimento aos militares. Os mesmos que impuseram 21 anos de ditadura são a quem se deve reconhecer e agradecer pela abertura política. Uma ambiguidade do momento histórico que, de acordo com o professor Henri Gervaiseau, “parece assim se inscrever no próprio drama do encontro”. Ainda em diálogo com Novaes, sobre o agradecimento de Elizabeth a Figueiredo, ela reflete:


Estes agradecimentos podem ser interpretados como pura precaução [...], estratégia de um tipo particular de “exilado político” para voltar à sociedade. Mas, também podem ter sido expressão de um sentimento de gratidão verdadeira, afinal havia um presidente que naquele momento orquestrava a anistia.


Porém, ainda sim, em que pese toda essa conjuntura, Elizabeth está, durante as filmagens, saindo da clandestinidade e do seu exílio, tornando pública sua verdadeira identidade e sua história para toda aquela comunidade com a qual conviveu durante dezessete anos. Esse processo restabeleceu também a verve militante da personagem. Coutinho conta em off no filme que ficou três dias em São Rafael, conversando com Elizabeth em momentos diferentes e que ela, gradativamente, ficou mais à vontade com sua nova condição. Isso é perceptível, como a personagem vai decantando a emoção de deixar a clandestinidade, resgatando sua personalidade escondida, estando cada vez mais à vontade frente às câmeras e à comunidade.


Elizabeth Teixeira e Eduardo Coutinho. Acervo Instituto Moreira Salles.

No final do filme, quando a equipe já está dentro de uma Kombi para ir embora do vilarejo, Elizabeth profere um potente discurso de esperança nas retomadas: retomar a vida, reencontrar os filhos e a família e rearticular as lutas dos trabalhadores rurais. É notável que esse discurso só é possível agora que o medo da repressão está um pouco mais aplacado e a confiança lhe restituiu a força militante.


Em contrapartida, vale também destacar que esse discurso não é a última cena do filme. Caso fosse, teríamos ali – no limiar da abertura política com a democracia no horizonte – um final de euforia militante e uma crença irrestrita no porvir. O documentarista, no entanto, aponta que após mais de dois anos das gravações, Elizabeth só havia encontrado dois de seus outros oito filhos.


Conhecendo a história de Elizabeth Teixeira após Cabra Marcado para Morrer compreendemos que as fendas abertas com o golpe de 1964 e com o projeto imposto pela ditadura deixaram marcas objetivas e subjetivas, de caráter individual e coletivo, que ainda são visíveis e irresolutas. Coutinho estava atento a isso e a empolgação militante do momento histórico não permeou a realização do filme, assumindo a declarada linha benjaminiana do diretor ao reconhecer que o inimigo não tem cessado de vencer. Que o digam 2018, a volta dos militares ao primeiro escalão dos poderes da República e a barbárie escancarada em que estamos inseridos.


Créditos da imagem destacada: Cena do filme Cabra marcado para morrer. Reprodução.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


GERVAISEAU, H. O abrigo do tempo: abordagens cinematográficas da passagem do tempo. São Paulo: Alameda, 2012.

MEDEIROS, Leonilde (Org). Ditadura, conflito e repressão no campo: A resistência camponesa no estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Consequência, 2018. p. 69.

NOVAES, R. C. R. Violência Imaginada: João Pedro Teixeira, o camponês, no final de Eduardo Coutinho. Cadernos de Antropologia e Imagem (UERJ), Rio de Janeiro, v. 3, p. 187-210, 1996.

___________. De corpo e alma. Catolicismo, classes sociais e conflitos no campo. Rio de Janeiro: Ed. Graphia, 1997. 238 p.

VIANA, Gilney (Coord). Camponeses mortos e desaparecidos: excluídos da Justiça de Transição. Brasília: Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, 2013. p. 22.


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