• Marcelo Viana

Pensar os estádios como remédio para as cidades

O leitor que consome este texto pode não ser um grande admirador de futebol. No entanto, certamente compreende que, no Brasil, nossa sociedade está imersa no universo futebolístico. Tal característica, que varia no tempo e no espaço, é tão ampla e complexa que um olhar desatento pode deixar escapar elementos fundamentais quanto a sua organização ou mesmo simplificar questões que desafiam a inteligibilidade puramente racional. José Miguel Wisnik, em seu ensaio Veneno Remédio: o futebol e o Brasil (2008), propõe interpretar a relação do esporte com a nação brasileira a partir de fármacon. Segundo Wisnik, sendo o futebol uma droga que é, ao mesmo tempo, veneno e remédio, não seria possível compreendê-lo buscando simplificações.

Vale recordar que o futebol foi criado na Inglaterra, como esporte de elite, e se espalhou pelo mundo como prática associada às classes dominantes. Com o tempo, difundiu-se entre outras camadas sociais, popularizando-se. O futebol sofreu múltiplas transformações e suas bases foram alteradas para se adaptar aos novos torcedores. O caminho empreendido pelo esporte permitiu inicialmente a participação das camadas populares. Décadas mais tarde, no entanto, viu-se que o acesso ao futebol profissional nem sempre seguiria o sentido de sua popularização.

Justamente por sua capacidade metamórfica, é importante estar atento às análises como as feitas por Marcos Alvito (2014) sobre como a lógica do capital atingiu a cultura do futebol inglês a partir da criação da Premier League, nos anos 1990. O “neoliberalismo globalizado”, patrocinado por Margareth Thatcher, foi capaz de abalar toda a cultura do futebol inglês. A construção de arenas modernas, a veiculação em canais a cabo para “consumidores” do esporte, a venda de clubes para magnatas (cujas fortunas costumam ter procedências no mínimo duvidosas), são fatores que trouxeram, em contrapartida, ingressos com preços exorbitantes e um novo modelo de viver o futebol que, por sua vez, ignora a importância dos lugares para a construção de identidades sociais.

O futebol de matriz “espetacularizada”, como afirma Arlei Sander Damo (2006), contém três pilares essenciais: o monopólio, a globalização e a centralização por parte da FIFA junto de suas federações. O futebol brasileiro não está dissociado do futebol do resto do mundo. Ambos estão conectados desde a sua origem. Precisamos, portanto, reconhecer os legados de desigualdade e de injustiça social oriundos do imperialismo europeu. Com isso, devemos partir da construção do eurocentrismo, quer dizer, da organização e homogeneização do tempo e do espaço pela ótica europeia.

Esse processo, que chamaremos de elitização do futebol, altera também os fenômenos próprios da construção de memórias coletivas que se apoiam, muitas vezes, nas relações estabelecidas com o espaço físico. A partir da construção da memória afetiva com o espaço, por exemplo, o território se transforma em memória, tanto para o grupo quanto para o indivíduo. O futebol, para o povo brasileiro, é historicamente encarado como uma “hipérbole”; a presença dos corpos nos estádios de futebol, ao longo de mais de um século de jogo, é o enraizamento do pertencimento pela catarse.

Segundo Hilário Franco Jr, na obra A dança dos deuses (2007), por mais apoteótico que seja o futebol, ele não pode ser maior do que a cultura que o gerou, alimentou e reproduziu. Dito isso, se há um lugar onde os corpos da gente brasileira desfilaram com todas as suas corporificações, foi dentro das quatro linhas e nos encontros das arquibancadas. E, se tem um estádio que monumentaliza essa tradição, é o estádio Mário Filho, popularmente chamado de Maracanã.

O estádio foi remodelado para a Copa do Mundo de 2014 e para as Olimpíadas de 2016. A fórmula adotada para essa reconfiguração é um sintoma do Brasil atual: o processo neoliberal centrado em parcerias público-privadas. O futebol não estaria imune a este fenômeno. Se o novo estatuto do torcedor é uma ode ao consumismo, o futebol como produto tem se inspirado no modelo da Premier League. A destruição dos velhos estádios e a construção das novas arenas são um efeito dessa imposição que se afasta daquilo que caracterizava o Brasil como “país do futebol”. Esse processo de mercantilização do esporte ignora, também, a construção de memórias coletivas que se apoiam, muitas vezes, em territorialidades. Os estádios de futebol são formados, sobretudo, pela memória dos que os frequentam. Não há dúvidas de que o fenômeno atual, à brasileira, se inspira no modelo hegemônico europeu. O geógrafo Gilmar Mascarenhas afirmou que o estádio de futebol poderia ser interpretado como um microcosmo da reprodução social da cidade. Sendo assim, o estádio pode ser entendido para além de uma análise conceitual. O estádio pode ser compreendido como “uma categoria da prática social”. Assim como as ruas, os bairros e a cidade, o estádio tem a sua própria temporalidade. A cidade sempre é descompassada. O estádio também. E é por isso que, hoje, ficar em pé na cadeira do Maracanã, mesmo que o estatuto do torcedor proíba, não se restringe apenas a um gesto simbólico. Torna-se uma resistência à naturalização de um processo mais amplo e complexo que tem, na sua raiz, a expansão do legado moderno europeu. Por isso, embora o estádio tenha múltiplas temporalidades, ele é inteiramente vivido no tempo presente, pelo simples fato de que são os atores sociais que apoiam a carga temporal.

Vejam o caso do Maracanã. Os atores sociais que vivenciaram o antigo Maracanã começaram sua trajetória a partir dos anos 1920 e 1930, quando o futebol se profissionalizou no Brasil e surgiu a demanda por melhores praças de esporte. Por volta de 1948, antes mesmo da inauguração do estádio, por meio de jornais do período, é possível encontrar cidadãos adeptos do jogo moderno fazendo coro ao então estádio Municipal. Vale lembrar que o Brasil teve a honra de ser o país sede da IV Copa Jules Rimet, em 1950, a primeira Copa organizada após a II Guerra Mundial. O palco do evento que foi sucesso nacional e internacional seria concluído, de fato, somente no ano de 1965 – quando recebeu, inclusive, o nome de Mário Filho. O jornalista, que estava à frente do Jornal dos Sports, cumpriu um papel determinante para que o estádio fosse construído onde está localizado até os dias atuais.

Mário Filho se considerava um soldado na batalha pelo estádio. Junto de grande elenco, trazia a classe trabalhadora para ser sujeito ativo do processo de construção. Logo, desde antes mesmo do Maracanã ser inaugurado, o futebol e o estádio de futebol apresentavam-se como o lugar de participação do trabalhador brasileiro. O espaço da sociabilidade e do lazer das massas.

Jogo no Estádio do Maracanã, antes da Copa do Mundo de 1950. Fundo: Agência Nacional. Arquivo Nacional. Wikimedia Commons.

A final do mundial de 1950, por exemplo, recebeu mais de 200 mil pessoas de forma não oficial. A seleção uruguaia sagrou-se campeã do torneio, mas a população ganharia um monumento com potencial de reunir todas as classes. Em um domingo, perto do natal, no dia 15 de dezembro de 1963, Flamengo e Fluminense empataram sem gols para um borderô de mais de 177 mil pagantes. Outro momento memorável aconteceu quando João Saldanha comandava as feras de Saldanha. Nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 1970, que ocorreria no México, o escrete brasileiro e paraguaio jogou para 183.341 pessoas que estavam no Maracanã, de acordo com os números oficiais. Recorde oficial com direito a um gol do maior jogador de todos os tempos, Pelé.

A festa das multidões, no “gigante de colosso”, teve o seu primeiro acontecimento trágico no ano de 1992. Na final do brasileiro entre Botafogo e Flamengo, ocorreu a queda de uma grade, sendo que três pessoas morreram e muitas ficaram feridas. Por conta do acidente, o estádio ficou fechado por 7 meses. No ano de 1994, por exigência da FIFA, a primeira de muitas que viriam, alterou-se a capacidade do estádio para receber as seleções do Brasil e do Uruguai. A partida valia uma vaga para a Copa de 1994, nos EUA. Nos anos 2000, tivemos a primeira grande reforma. Com mais uma exigência da FIFA para receber o primeiro mundial de clubes organizado pela entidade, reduziu-se ainda mais a capacidade do estádio. Após esse capítulo, o estádio, localizado em uma zona central do Rio de Janeiro, perdeu o posto de “maior de todos”.

No ano de 2005, com o fim da geral e, consequentemente, do geraldino – folclórico torcedor que frequentava a geral –, o estádio se esvaziaria do sentido e do simbolismo que se construíram historicamente ao longo do tempo. As últimas reformas, por exigência da FIFA, para a Copa do Mundo de 2014 e com grande interesse de atores locais, foram acompanhadas por um crime. Em artigo intitulado Vida e morte do Maracanã: a batalha do estádio em dois atos (2019), Erik Omena e Gabriel Silva informam aos leitores sobre os processos e os projetos que resultaram na destruição desse monumento histórico para o Brasil e o mundo. Os autores mostram como um bem tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) foi descaracterizado, acarretando a perda do seu modelo popular e público. Sob o pretexto da era dos megaeventos, um imaginário de modernidade foi imposto aos cidadãos. No corpo do artigo, saltam aos olhos como as relações criadas, historicamente, pelos cidadãos com o patrimônio cultural se ausentavam do debate.

Os monumentos, conforme mencionado no início deste texto, são lugares importantes para a construção de identidades sociais. No Brasil, os estádios de futebol são espaços de afirmação da identidade do país. Os monumentos são essenciais para a construção da memória coletiva. Embora José Miguel Wisnik seja pessimista e observe o futebol mais como veneno do que remédio no Brasil, ele inaugura novas possibilidades como, por exemplo, a de saber que país se quer afirmar por meio do futebol.

O uruguaio Eduardo Galeano, em O livro dos abraços (1989), descreve seu trajeto ao bairro de Heymarket, em Chicago. Nessa região, no ano de 1886, por meio de uma grande greve, no dia 1º de maio, os operários conquistaram o direito à jornada máxima de 8 horas diárias de trabalho. Desde então, o mundo comemora o Dia do Trabalho nesta mesma data. Caminhando pelas ruas, o original “mendigo do bom futebol” nota a ausência total de qualquer referência àquele acontecimento histórico. Frisa, inclusive, que o 1º de maio nos Estados Unidos é um dia como outro qualquer. Algo similar vem sendo feito com as novas arenas. Com o tempo, naturalizam-se aqueles espaços, frutos de imposições contraditórias.

Marcos Alvito alerta para as consequências da aceitação deste modelo, que sofre a resistência de grupos organizados. Ao longo dos séculos XX e XXI, o grupo social que se convencionou chamar de torcidas organizadas de times de futebol vem se apresentando como mais um movimento social importante nas lutas políticas e sociais. Nota-se o processo de marginalização ao qual as torcidas organizadas são frequentemente submetidas. Estas, como fenômeno social, são vistas quase exclusivamente por suas características violentas e passionais. Apesar dessas construções, os movimentos de torcidas organizadas têm se apresentando como ponta de lança de ações políticas na história recente.

A exclusão desses grupos do interior dos estádios, construindo-se uma visão generalizante de associação com a violência física, demonstra também como opera parte desse projeto de elitização do futebol. Ao expulsar as torcidas organizadas, neutraliza-se parte essencial das manifestações contra a expropriação dos estádios pelas elites. Retiram-se desse espaço, por exemplo, os trabalhadores mais pobres, impossibilitados de arcar com os altos preços dos ingressos. Nega-se o direito ao estádio às torcidas historicamente marcadas pela intensa militância. Repensar a retomada do Maracanã, portanto, deve ser enxergado como um movimento político de luta social. Pois, para além de recuperar a participação do trabalhador brasileiro no espaço de sociabilidade que ele mesmo criou, pensar os estádios como remédio para a cidade, ou melhor, pensar os estádios para repensar a cidade pode ser um caminho importante para repensar parte essencial da estrutura social brasileira e o projeto que as elites nacionais defendem.

O debate atual acerca das estátuas constata que a eliminação de um monumento é um ato político. A reocupação de um monumento, reivindicando-o, também é um ato político. No interior dessa disputa narrativa pelo direito à memória, percebe-se que as novas arenas falam mais do tempo em que foram construídas/erguidas do que dos agentes sociais que as temporalizam. Sendo assim, o convite para pensar os lugares de memória e as formas como os indivíduos organizados podem ocupar aquele espaço e construir sua própria história é um movimento legítimo que, como parte de um processo mais amplo, tem ocorrido pelo mundo.

O presente se afirma com a certeza da resistência e da ampliação das lutas a partir de grupos organizados. Torcedores dos mais diversos gêneros, das mais diversas classes e dos mais diversos lugares, no futuro, dirão como a cultura do futebol sobreviverá nas novas arenas. Galeano, injuriado com a ausência de marcas em Heymarket que rememorassem o Dia do Trabalho, acompanha seus amigos à melhor livraria de Chicago. Lá, observa um cartaz que reproduzia um provérbio africano: “Até que os leões tenham seus próprios historiadores, as histórias de caça continuarão a glorificar o caçador”.


Crédito da imagem destacada: Selo Comemorativo do Campeonato Mundial de Futebol de 1950 (Copa do Mundo de 50). Autor: Brasil Correio. Wikimedia Commons.


  1. O conceito de fármacon apresentado na obra de Wisnik é uma categoria de análise que tenta auxiliar o pesquisador em suas observações sobre o objeto de estudo. Tal conceito aparece de forma mais detalhada no capítulo III e deve ser interpretado como registro teórico que possibilitou ao autor tecer novos olhares acerca da cultura brasileira. O fármacon foi inspirado em um ensaio de Jacques Derrida intitulado A farmácia de Platão. O conceito abarcaria o venenoso remédio que representa a ambivalência que, segundo o próprio autor, são recorrentes na representação do Brasil. Sendo assim, o futebol e, consequentemente, o país estão simultaneamente em estado conflitivo. Nas palavras do próprio autor, o papel do fármacon é: “(...) a força que revira em seu contrário, o mesmo que se transforma em outro, o avesso do avesso” (p. 243). O fármacon seria o responsável por permitir a ascensão do negro em um esporte que o excluía e extraíra de sua violenta história as contradições e superações pela dimensão lúdica. Seria, portanto, a superação pela potencialidade daquilo que representaria o remédio da civilização.

  2. O geógrafo Gilmar Mascarenhas foi um intelectual brasileiro que pensou os estádios de futebol no Brasil e no mundo. Sobre a relação do estádio com a cidade, ver: Ludopédio.

  3. Ver: LANDER, Edgardo (Org). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciencias sociais. Perspectiva latinoamericana, CLACSO, Ciudad Autónoma de Buenos Aires, Argentina, set. de 2005.

  4. Ver: MOURA, Gisella de Araujo. O Rio corre para o Maracanã. Rio de Janeiro: Editora FGV, 1998.

  5. As feras de Saldanha foi uma forma que o então técnico, João Saldanha, utilizou para resgatar a autoestima dos jogadores e que sem alerdes, caiu no gosto da torcida brasileira. Ver: Ludopédio.

  6. Ver GALEANO, Eduardo. El Libro de los abrazos. Buenos Aires: Siglo veintiuno, 2010.

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