• Tasso Brito

Quando o carnaval chegar: relato de um isolamento que se finda

Quem me vê sempre parado

Distante, garante que eu não sei sambar

Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Eu tô só vendo, sabendo

Sentindo, escutando e não posso falar

Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

(Chico Buarque, Quando o carnaval chegar)



Reprodução.

É, eu sei! Essa era para ser uma coluna sobre temas ligados à ditadura. Mas tudo o que aconteceu no Brasil desde março de 2020 me impele a escrever sobre as novas auroras que vão brilhar. Quero escrever sobre o depois da pandemia. Não se trata de prever o futuro, conjecturar as possibilidades ou algo do tipo, mas de escrever sobre mim. Estas reflexões nasceram de uma conversa entre amigos no Whatsapp, na qual o tema era minha opção radical pelo isolamento diante da pandemia da covid-19.


Dias antes da Organização Mundial da Saúde (OMS) decretar que o mundo passava por uma pandemia, eu me divorciei. Foi o fim de um relacionamento de mais de 15 anos. Assim como um animal machucado, vim lamber as feridas na toca de meu bando. E, assim, a pandemia passou a ser vivida com a família reunida depois de alguns anos morando em outras cidades. Preocupados uns com os outros, cinco pessoas passaram a dividir a expressão: quando tudo isso passar! Não houve visitas, nem saidinhas, nem nada. Não houve concessões.


Claro que somos neuróticos, a pandemia foi nosso Bat sinal. No céu de uma cidade que passava a ser hostil, vestimos nossas capas para sermos heróis uns dos outros. Complexo de Messias compartilhado, pautado em acontecimentos reais, afinal temos dois idosos em casa, e uma das irmãs com cardiopatia. Compartilhamos a fantasia infantil do super-herói, mas um herói trágico moderno, pois nunca poderíamos vencer. Não podendo derrotar o vírus, passamos a escolher o quê e como perder. Aqueles amigos que se renderam ao negacionismo foram os primeiros. Em especial uma amiga que ao perder o pai para a covid-19, passou a aglomerar constantemente em festinhas, idas a praias e bares no auge da transmissão. Certo dia, ela zombou de outra amiga que acabara de contar seu medo de se infectar, pois tinha dois filhos.


Outras perdas foram paixões não vividas. Logo no começo da pandemia, uma resposta a alguma foto no Instagram desencadeou longas conversas, poemas de Neruda, promessas, um encantamento profundo por aqueles cabelos ruivos. Mas nada de encontros, até o cansaço vencer. Agora, ela encontrou alguém que se faz presente.


Tempos depois, em um Simpósio temático virtual, outro encontro, sorriso de canto de boca, citações de literatura, inteligência a cada palavra, e lá estava eu mais uma vez encantado. Dias de conversas sobre nossas pesquisas, depois dicas de literatura, até troca de presentes – receber O Retrato de Dorian Gray foi encantador, mesmo que pelas mãos frias do entregador. Mais juras, encantos e promessas. Porém, sem que o encontro se realizasse, ela mudou e também encontrou alguém que tem presença real em sua vida.


Eu teria feito igual a elas, mas saber disso não me consolou à época.


Acumulando perdas, mas resistindo e insistindo. Ninguém em casa foi infectado. Pagaria esse mesmo preço, se necessário, de novo e de novo e de novo. Aceitar as paixões sombrias é difícil. Aceitar que nem na minha fantasia sou um herói virtuoso, de capa e espada, em certa medida é libertador, mas não deixa de ser nauseante.


Ao final do mês de agosto, estaremos totalmente imunizados aqui em casa. Quando tudo isso passar, finalmente tá passando. E agora, o que fazer?


Não quero perdoar ninguém por esse tempo, pois o perdão só serve para quando eu me olhar no espelho e me sentir superior:

- Olha o quanto eu sou nobre, diria meu reflexo no espelho.

Não quero vingança, pois nada mais infantil do que achar que um ato pode reorganizar o mundo sem sentido.


Não há perdão e nem vingança, só aceitação.


Também, não se trata de acusar o outro: “se você tivesse se isolado”, “se não se negasse a vacinar”. Eu teria passado melhor? Isso é outra ilusão infantil, o outro não é governado pelo meu desejo. Cada um fez o que fez, cada um com suas razões e possibilidades. Mesmo assim, o que farei no mês que vem? Quando tudo isso passar para mim?


Não tenho resposta. Mas tenho um encontro inesperado marcado, uma mulher capaz de povoar minha cabeça de mistérios e fantasias, afinal as neuroses têm seu lado charmoso, que é essa força criativa para a libido. Um amigo me chamou para ensinar seu filho a andar de skate na orla de Olinda. Estou desenhando melhor e tocando violão melhor. Virei mais filho dos meus pais e mais irmão das minhas irmãs. Hoje somos capazes de dizer que quando isso tudo passar vamos ter menos contato, ficamos felizes por isso, e não deixamos de nos amar ao dizer e sorrir pela possibilidade que se aproxima. Ou melhor, por amor é que dizemos e sorrimos.


Depois da pandemia: aceitar as perdas, o que nada mais é do que a nobre arte de elaborar o luto. Aceitar os lucros e levar a vida em frente.


Porém, é preciso que aceitem meu direito aos afetos sombrios, terei ressentimento por aqueles que fizeram pouco caso de todas essas mortes, quem não quis se vacinar, quem se negou a usar máscara. Não quero reconciliação. Não quero partilhar essa nova aurora que nasce ao fim desse mês, ela é minha e nela vou brilhar e me aquecer.


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