• Diego Gambier

Sérgio Ricardo - um filme, um livro, uma música

No dia 23 de julho de 2020, o artista Sérgio Ricardo morreu aos 88 anos, no Rio de Janeiro. Ele foi um importante músico que viveu boa parte da sua carreira sob a vigilância da ditadura militar (1964-85). Quando se inicia o regime, após o golpe de 1964, os artistas se tornaram alvos do aparelho de repressão do governo. No entanto, mantendo-se combativos a repressão, procuravam “driblar” a censura através de letras que guardavam suas críticas políticas nas entrelinhas. Um dos poderosos artistas dessa turma foi Sérgio Ricardo, que teve um papel central na cultura brasileira desse período até os dias de hoje. Está mais que justificada esta homenagem a ele!


FILME:

Deus e Diabo na Terra do Sol” do Glauber Rocha (1964). Em um dos filmes mais celebrados de Glauber Rocha, que possui uma cinematografia extremamente política, Sérgio Ricardo foi escolhido para produzir a trilha sonora. Trata-se de um filme considerado um marco no cinema brasileiro. A história se passa no sertão da Bahia, mas com uma narrativa nada convencional que parte de conflitos entre cangaceiros e coronéis. O cenário nordestino vai estar presente em inúmeras outras obras de Sérgio Ricardo, mas é uma ótima ideia começar a conhecer por essa!



 

LIVRO:

Esse Mundo é Meu: as artes de Sérgio Ricardo” de Rafael Rosa Hagemeyer e Daniel Lopes Saraiva (2019). Essa biografia de Sérgio Ricardo tem como propósito enaltecer sua versatilidade como artista e reconhecer a devida importância do músico no cenário da música popular brasileira. Assim, o livro faz um papel importante já que o artista é um dos menos lembrados na música brasileira. Na importantíssima “Noite de 1967”, quando Chico Buarque e outros músicos da MPB também cantaram, Sérgio Ricardo fez uma performance marcante onde quebra seu violão como protesto contra o próprio sentido mercadológico do festival na época. Mas já dei muito spoiler, a leitura é mais valiosa e vale muito a pena.




 

MÚSICA:

Calabouço” de Sérgio Ricardo (1973). Acredito que já tenha ficado evidente o forte conteúdo político das músicas do artista, que foi alvo constante dos órgãos de censura no período ditatorial. Em uma de suas canções mais famosas, “Calabouço”, Sérgio homenageia o estudante Edson Luís assassinado por forças policiais, em 1968, no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro. Chamado para depor no DOPS, o cantor argumentou que o ‘cala boca moço’ era uma crítica aos meios de comunicação e não tinha a ver com a morte do estudante. Nem sempre os censores eram implacáveis, os artistas utilizavam de suas artimanhas para driblá-los e resistir nesse ambiente vigiado. Portanto, ele resistiu aos anos de chumbo e resiste até hoje através de seu legado artístico.


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