top of page

Um Império na província e o golpe de 1964

  • Foto do escritor: Arthur Lira
    Arthur Lira
  • há 2 dias
  • 10 min de leitura


Entrada da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), em Recife (PE) s/d. Reprodução.
Entrada da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), em Recife (PE) s/d. Reprodução.

A eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2023 e a consequente reestruturação de órgãos federais como a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) marcaram uma era de renovação e esperança, refletindo uma nova orientação política e administrativa no país – ou, talvez, uma já (parcialmente) conhecida... As instituições têm suas histórias, tensões e articulações. Em momentos distintos, elas nos ajudam a pensar o próprio país.


Sob a gestão da professora e doutora em educação Márcia Angela da Silva Aguiar, nomeada em março de 2023, a Fundaj pôs um fim na “Era bolsonarista” que assolou uma das maiores instituições de pesquisa social e promoção cultural do Brasil. Vinculada ao Ministério da Educação, a Fundaj foi, desde sua origem, em 1949, essencial para o fomento à educação, à cultura e ao desenvolvimento social no Nordeste.


Durante o governo Bolsonaro, a casa chegou a ser presidida pelo economista Alfredo Bertini, que em menos de seis meses no cargo foi substituído pelo escritor Antonio Campos – irmão do ex-governador Eduardo Campos –, através da indicação do senador Fernando Bezerra Coelho, então líder do governo no Senado. Um movimento peculiar de disputa das forças bolsonaristas em Pernambuco, onde funciona a sede do órgão. Mas aquela não fora a primeira vez que a instituição flertara com forças conservadoras e autoritárias. Em referência às mais de seis décadas do golpe civil-militar de 1964, este texto trará detalhes dos impactos do golpe na casa nabuquiana.


Um instituto de pesquisas sociais no Recife


O Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (IJNPS) foi um projeto idealizado pelo sociólogo pernambucano Gilberto Freyre em seu único mandato como deputado federal pela União Democrática Nacional (UDN), entre 1946 e 1951. Ao longo da história do instituto, a nomeação de seus diretores e, posteriormente, presidentes sempre esteve atrelada à correlação de forças e às articulações políticas, que durante muitas décadas foram capitaneadas pelo próprio Freyre.


Seja em sua estrutura organizacional ou mesmo no desenvolvimento de suas pesquisas, o pensamento freyriano foi uma hegemonia na instituição – e ainda o é. Conforme apontou Paul Freston (1989), o sociólogo pernambucano fez do espaço seu próprio império: um “império na província”.


Os primeiros diretores do órgão foram Antônio Gonsalves (1949-1951), Paulo Maciel (1951-1955) e Mauro Mota (1956-1970). É de se ressaltar a influência das relações pessoais do seu idealizador nas nomeações. O historiador José Antônio Gonsalves de Mello Neto, convidado pelo próprio Gilberto Freyre, era filho de Ulysses Pernambucano de Mello, primo do sociólogo. A rápida atuação de Gonsalves no IJNPS foi motivada pela impossibilidade que teve de acumular cargos públicos. Com isso, um funcionário da casa chegou à direção: Paulo Frederico do Rego Maciel, de uma família também ligada ao clã Freyre.


Como era de se esperar, as eleições de 1955 interferiram nos rumos do IJNPS. O jornalista Mauro Mota assumiu o cargo de diretor executivo do IJNPS em março de 1956, nomeado pelo presidente Juscelino Kubistchek, em meio à turbulenta destituição de Paulo Maciel e a inesperada e efêmera nomeação do poeta Ascenso Ferreira. A destituição de Paulo Maciel, protegido de Freyre, gerou um embate com o Governo Federal. Em seu lugar teria sido inicialmente nomeado Ascenso Ferreira, mas os protestos dos pernambucanos fizeram com que a nomeação do poeta fosse suspensa e, em seu lugar, fosse posto o nome de Mota.


Os relatos sobre esse acontecimento são difusos. A questão é que, apesar do grande capital social e político de Freyre (agora, ex-deputado), este era do grupo opositor ao presidente eleito. Mota chegara à direção do IJNPS com apoio do seu fraterno amigo e chefe da Casa Civil do governo JK, o pernambucano Álvaro Lins. Apesar das divergências, o bom relacionamento entre Mauro Mota e Gilberto Freyre, ao que tudo indica, garantiu a permanência do jornalista na direção do órgão.


Mauro Mota era o diretor do IJNPS durante o golpe de 1964 e Gilberto Freyre continuou (oni)presente na casa e chegou a chefiar o conselho diretor a partir de 1960. É bem conhecido o apoio vigoroso que o sociólogo pernambucano deu à ditadura. E, consequentemente, a defesa se estendeu ao instituto.


O IJNPS recebeu investimentos do regime militar face ao ânimo golpista de parte de seus intelectuais. Gilberto Freyre foi um dos principais intelectuais pernambucanos a declarar apoio à ditadura civil-militar de 1964. Em seu primeiro artigo pós-golpe, intitulado Forças Armadas: uma força suprapartidária na vida pública brasileira, Freyre afirmou que o Exército foi necessário em um momento “de agudo desajustamento internacional e para sobrepor aos interesses facciosos” (Diario de Pernambuco, Recife, 5 abr. 1964, p. 4). Para o sociólogo, os militares tinham relações históricas “especialíssimas” com o desenvolvimento do país, apontando momentos históricos como o advento da República.


Em 1969, o IJNPS organizou um evento para comemorar o quinto aniversário do golpe. Entusiasta dos militares, Freyre presidiu o encontro e ressaltou o significado do “movimento revolucionário para o Brasil”. A celebração contou com uma conferência de Antônio Carolino Gonçalves, que destacou o apoio prestado pelo IJNPS ao governo militar no estudo do Norte e do Nordeste do país: “A Revolução trouxe estabilidade para as instituições nacionais, abrindo novas perspectivas para o desenvolvimento social e econômico do país. Já podemos constatar os efeitos positivos da Revolução em todos os campos de atividades” (Boletim Interno do IJNPS, nº 44, abril/1969, p. 6).


Fernando Freyre chega à direção do IJNPS


No início da década de 1970, enquanto a ditadura se consolidava, no IJNPS terminava a “Era Mauro Mota” e tinha-se início a “Era Fernando Freyre”, a mais duradoura gestão à frente da casa. Foram trinta e dois anos de comando, incluindo sua transição de instituto à fundação.


Fernando Alfredo Guedes Pereira de Mello Freyre nasceu no Recife no dia 14 de outubro de 1943. Era o caçula de Gilberto e Magdalena Freyre e começou a trabalhar no IJNPS em 1963. Tendo iniciado como auxiliar de pesquisa, ascendeu sucessivamente (e rapidamente) a postos cada vez mais altos: diretor do departamento de administração, assessor chefe do gabinete do diretor executivo e, por fim, diretor executivo. Foi o diretor executivo mais jovem de toda história da entidade, com 27 anos.


Com a deposição do então governador Miguel Arraes de Alencar pelo golpe de 1964, o jovem Freyre chegou a assumir ainda importantes funções no novo governo pernambucano. Foi por um curto período assessor do interventor do Movimento de Cultura Popular (MCP), Carlos Frederico do Rêgo Maciel (irmão de Paulo Maciel), em 1964 e, posteriormente, oficial de gabinete do governador Paulo Guerra entre os anos de 1964 e 1965.


A década de 1960 foi frutífera para a família Freyre. Partidário do movimento político-militar golpista, Gilberto Freyre passou a integrar, em 1967, o recém-criado Conselho Federal de Cultura (CFC) durante o governo do general Castelo Branco. O CFC, cujo objetivo era a elaboração de um Plano Nacional de Cultura, exaltou uma visão sobre a cultura popular dista daquela “(...) perspectiva de defesa de uma arte nacional-popular, que colaborasse com a desalienação das consciências” (RIDENTI, 2000, p. 91), associado às esquerdas brasileiras.


A boa relação do sociólogo com a ditadura e com os principais personagens do movimento golpista em Pernambuco permitiu a ascensão cada vez maior de sua família nos cargos da esfera pública. Pai e filho se consolidavam nas estruturas institucionais e culturais do poder público. 


A nomeação de Fernando Freyre para a diretoria executiva do IJNPS foi o resultado de uma articulação política bem peculiar. Em outubro de 1970, Mauro Mota concluiu mais um mandato como diretor. O regimento previa que o dirigente continuasse no cargo até a nova nomeação, realizada por escolha presidencial em lista tríplice. O processo ocorreu entre outubro de 1970 e maio de 1971. O conselho diretor, presidido por Gilberto Freyre, enviou ao Governo Federal uma lista tríplice de nomes indicados para a diretoria executiva com vistas à escolha de um novo gestor, conforme previa o regime. À época os indicados eram: Waldemar Valente, diretor do departamento de antropologia; Ruy João Marques, ex-membro do conselho diretor; e Mauro Mota, chefe da casa desde 1956. Era provável a recondução de Mota, como ocorrera em outros términos de mandato. Porém, o novo Governo Estadual, que se iniciaria em 1971, modificou o processo de nomeação da direção do IJNPS (JUCÁ, 1991).


O advogado Eraldo Gueiros Leite, político da Aliança Renovadora Nacional (Arena), tomou posse em março de 1971 na condição de governador biônico do estado de Pernambuco, substituindo Nilo Coelho. O ex-procurador-geral da Justiça Militar do governo Castelo Branco e ministro do Superior Tribunal Militar de Costa e Silva foi nomeado como governador de Pernambuco pelo ditador Emílio Garrastazu Médici.


Mauro Mota chegou a acumular a função de diretor do IJNPS e do Departamento de Cultura durante o período de transição, mas, com a nomeação do novo diretor executivo, desvinculou-se definitivamente do órgão de pesquisa social. Fernando Freyre, que não figurava a lista tríplice, não apenas substituiu o nome de Mota no pleito como foi a escolha oficial do gabinete da Presidência da República, em uma provável manobra de Gilberto Freyre. Desta vez, ele não perderia a indicação. 


O Clã Freyre e as tessituras do golpe de 1964


O Clã Freyre foi protagonista nos embates contra a universidade em 1964. A família foi contra a permanência de João Alfredo da Costa Lima na reitoria da Universidade do Recife (atual Universidade Federal de Pernambuco) após o golpe. Segundo o historiador Dimas Brasileiro Veras (2018, p. 70), “ainda no mês de abril [de 1964] um grupo de estudantes liderados por Fernando Freyre, aluno da FDR e filho primogênito de Gilberto Freyre, visitou a sede do Diario de Pernambuco para exigir das autoridades a saída imediata do professor João Alfredo”.


Em maio de 1964, o sociólogo atacou o reitor em artigo intitulado O Caso da Universidade do Recife, sugerindo a deposição de João Alfredo pelos militares e acusando as ações da universidade de comunistas, anticonstitucionais e antibrasileiras (Diario de Pernambuco, Recife, 5 mai. 1964, p. 4). A partir dos ataques liderados por Gilberto Freyre, o reitor recebeu uma grande coerção de intelectuais conservadores.


Apesar da posição de Freyre frente aos acontecimentos pós-golpe e no combate à esquerda pernambucana, o sociólogo acolheria junto ao IJNPS aqueles “esquerdistas” que lhe eram próximos. É o caso emblemático do historiador Amaro Quintas, afastado do cargo de professor da Universidade do Recife e perseguido pela ditadura, entre os anos de 1964 e 1965.


Quintas contou com o apoio do grande amigo para escapar da pior face da repressão. Com trânsito livre junto ao Alto Comando do IV Exército, Freyre provavelmente evitou um mal maior para o historiador, mas não a cassação dos direitos políticos de Quintas e o impedimento de lecionar em instituições federais. Segundo Thiago Nunes Soares (2021, p. 92-93): “esse caso é representativo para pensarmos como era complexo o mosaico das relações sociais na universidade, por serem marcadas por situações de adesão ao regime, paradoxos, cooperação e adequação, em face dos impactos interventivos da ditadura”.


Quintas foi o primeiro diretor do Departamento de História Social do IJNPS, cargo que exerceu até 1964, quando foi cassado. Em setembro de 1965, sua filha, Maria de Fátima de Andrade Quintas foi contratada como assistente de pesquisa social (Boletim Interno do IJNPS, nº 22, Portaria nº 29 de 16 de setembro de 1965). Entretanto, o próprio Quintas seguiu desempenhando pesquisas para o IJNPS, com contratos temporários. Na segunda metade da década de 1960, é possível encontrar referências nos boletins internos do IJNPS a trabalhos científicos produzidos por ele naquele período.


Em 1968, Quintas manteve atuação constante na instituição: concluiu o estudo sobre as cheias no Recife, iniciado em 1967; deu continuidade ao trabalho acerca da moda feminina; e passou a se dedicar aos temas de Oliveira Lima na imprensa recifense e da História Social do Seminário de Olinda. Além disso, coordenou o estudo sobre a questão social agrária, que contou com a participação de jovens norte-americanos no IJNPS.


A relação entre Gilberto Freyre e Amaro Quintas durante o regime militar é um exemplo da complexidade engendrada nas relações entre os indivíduos, as instituições e o regime autoritário.


Ao contrário da afinidade com Amaro Quintas, as pressões exercidas por Gilberto Freyre contra João Alfredo por meio da imprensa foram significativas para a renúncia do reitor em junho de 1964, quando pessoas ligadas ao novo regime assumiram o controle da Universidade do Recife. O próprio Paulo Frederico do Rego Maciel, ex-diretor do IJNPS e aliado de Freyre, foi o terceiro reitor da universidade durante a ditadura. A gestão de Paulo Maciel, entre os anos de 1975 e 1979, marcou o período em que a universidade mais estabeleceu projetos e parcerias com o IJNPS.


Rodrigo Patto Sá Motta (2014, p. 50) pondera que “há muito ainda a analisar e explicar sobre o regime militar brasileiro, cuja história é eivada de ambiguidades e paradoxos, algumas vezes raiando a contradição”. Essas relações são ainda mais observáveis em órgãos como o IJNPS, cujo controle indireto do Estado permitiu um maior enredamento de arranjos desse tipo em estruturas complexas que permeiam ainda hoje as instituições federais. Uma história das instituições, é a história das tensões dos grupos que as forjam.


A trajetória do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, posteriormente Fundação Joaquim Nabuco, revela como as instituições não são meros aparelhos administrativos, mas espaços de disputas. A Fundaj constituiu-se, desde sua origem, como um verdadeiro “império na província”. A dinâmica interna do órgão esteve sempre profundamente vinculada as redes de poder, governamentais e intelectuais, que moldaram tanto sua estrutura administrativa quanto suas agendas de pesquisa. O golpe de 1964 operou como um contexto favorável à sua reorganização e fortalecimento, sobretudo diante do alinhamento de parte de seus principais quadros ao novo regime.


A redemocratização, por sua vez, não implicou necessariamente a substituição imediata dessas redes. Como em tantas outras instituições federais, a transição política conviveu com permanências estruturais, memórias seletivas e continuidades administrativas que atravessaram décadas. A presença prolongada do clã Freyre na direção da instituição é exemplar dessa dinâmica, evidenciando como certos apoiadores ou beneficiários do regime autoritário mantiveram posições estratégicas mesmo após 1985. Fernando Freyre presidiu a Fundaj até 2003. Pensar essa história institucional, portanto, é também refletir sobre os modos pelos quais o Estado brasileiro lida com seu passado autoritário: entre silêncios, acomodações e disputas narrativas. Ao revisitar os impactos do golpe de 1964 na casa nabuquiana, nos propomos a compreender que a história das instituições é inseparável das correlações de forças que as moldam, e que a democracia, para além de um marco formal, exige o enfrentamento crítico dessas permanências.


Referências:

FRESTON, Paul. Um império na Província: o Instituto Joaquim Nabuco em Recife. In: MICELI, Sérgio (Org.). História das Ciências Sociais no Brasil. Vol. 1. São Paulo: Vértice, Editora Revista dos Tribunais, IDESP, 1989, p. 316-358.

 JUCÁ, Joselice. Joaquim Nabuco: uma instituição de pesquisa e cultura na perspectiva do tempo. Recife: FUNDAJ / Ed. Massangana, 1991.

MOTTA, Rodrigo Patto Sá. A modernização autoritário-conservadora nas universidades e a influência da cultura política. In: REIS; Daniel Aarão; RIDENTI, Marcelo; MOTTA, Rodrigo Patto Sá (Orgs.). A ditadura que mudou o Brasil: 50 anos do golpe de 1964. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

 RIDENTI, Marcelo. Em busca do povo brasileiro: Artistas da revolução, do CPC à era da TV. Rio de Janeiro: Editora Record, 2000.

 SOARES, Thiago Nunes. UFPE: repressão, expansão e modernização (1959-1974). In: SILVA, Marcília Gama da; SOARES, Thiago Nunes (Orgs.). Pernambuco na mira do golpe, Volume 1: educação, arte-cultura e religião. Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2021, p. 82-114.

 VERAS, Dimas Brasileiro. Palácios cariados: a elite universitária e a ditadura militar – o caso da Universidade Federal de Pernambuco (1964–1975). 413 f. Tese (Doutorado em História). Programa de Pós-graduação em História, Universidade Federal de Pernambuco: Recife, 2018.


Como citar este artigo:

LIRA, Arthur. Um Império na província e o golpe de 1964História da Ditadura, 17 mar. 2026. Disponível em: . Acesso em: [inserir data].

bottom of page