• Bruno Laitano

Um historiador às margens

Não sei ao certo de onde vêm os leitores que, neste instante, acompanham o texto que escrevi. Não sei qual é a sua formação, em que área trabalham, quais são as suas orientações políticas ou teóricas. No entanto, tratando-se de um site feito por historiadores e consumido principalmente pelos pares, posso presumir que a maioria daqueles que me leem vive os dramas da graduação ou da pós-graduação em História, dá aula em escolas de ensino fundamental e médio ou em alguma instituição universitária.



Se for o caso, também posso presumir que um rosto familiar lhes chamou a atenção na imagem que ilustra o artigo: Leandro Karnal, nosso colega de profissão. Graduado em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) em 1985 e doutor em história social pela Universidade de São Paulo (USP) no ano de 1994, Karnal é colunista d’O Estado de S. Paulo, palestrante e apresentador do programa CNN Tonight, ao lado da advogada Gabriela Prioli e da jornalista Mari Palma.


Durante vinte e três anos, foi professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp. Possui mais de três milhões de seguidores no Instagram, quase cem mil no Twitter e outros dois milhões em sua página no Facebook. Seu canal no YouTube, o Prazer, Karnal, já conta com mais de novecentos e noventa mil inscritos. É bastante provável que esses números se alterem, para mais ou para menos, entre a escrita e as variadas leituras deste texto. São dados que logo já estarão desatualizados. Analytics à parte, o fato é que Karnal é pop.

Há tempos alguns de nossos colegas têm se dedicado a entender o sucesso de Leandro Karnal. A historiadora e socióloga Lidiane Soares Rodrigues (2018) inseriu-o no contexto do estabelecimento de um “mercado de reações” aos governos Lula e Dilma, no qual ele ocuparia um lugar um tanto periférico. Nesse sentido, o pensador seria fruto de uma nova dinâmica estabelecida entre jornalistas, professores e outros profissionais das mídias contemporâneas. Fernando Nicolazzi (2018), por sua vez, analisa duas palestras de Karnal – uma conferência proferida para os funcionários da Hinode, situados em diferentes progressões ranqueadas de carreira, e uma aula inaugural do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Uberlândia – e ressalta sua indistinguível habilidade de adaptação às audiências.


Ambos os autores citados parecem concordar que o historiador pop e sua capacidade de transitar entre terrenos tão diferentes – como um compromisso acadêmico, um evento corporativo ou mesmo um talk show de uma importante rede de televisão – são resultados da adaptação a uma razão de mundo supostamente neoliberal, em simbiose com as filosofias que lhe dão sentido: o empreendedorismo, a meritocracia, o consumo e a realização individual. Estou de acordo com algumas dessas observações, mas certos elementos escapam aos autores no afã de avaliar criticamente o comportamento de um personagem tão (ao meu ver, injustamente) controverso em nosso meio.


Entendo que certos paradigmas ético-morais fazem-nos enxergar com maus olhos uma conferência como aquela proferida aos funcionários da Hinode, baseada em um discurso largamente desconstruído ao longo da formação em História. Porém, concordemos com aquele conjunto de ideias ou não, o fato de Karnal ser um historiador não o impediria de sustentar visões de mundo que não sejam habituais entre os seus pares. Me parece tão óbvia a separação entre orientação política e seriedade profissional que a suposta adesão a um espectro sequer frequenta o meu juízo. De todo modo, a importância dos artigos que mencionei no parágrafo acima é clara: transitar entre o público e o privado – coisa que o nosso colega faz muito bem, e é aí que devo chegar – só parece ser possível obedecendo aos requisitos de cada espaço. A despeito dos incômodos que ela pode causar a alguns de nós, me pergunto se a trajetória de Leandro Karnal, da academia aos auditórios, não é menos um absurdo do que um exemplo a ser apreciado de perto.


Antes que me acusem de resignação diante do neoliberalismo (deduzindo que este seja um contra-argumento iminente ao meu texto), insisto que, hoje, produzir História também é oferecer um serviço a uma audiência. Entretanto, não me parece que a maioria de nós esteja devidamente preparada para ingressar neste mercado, seja pela falta de competências específicas – sobre as quais comentei ligeiramente no primeiro texto de minha coluna –, seja em razão da antipatia que a nossa comunidade em geral nutre pela iniciativa privada. Da forma como enxergo a questão, é essencial que esses obstáculos sejam enfim superados. Afinal, por vezes são justamente os projetos que se beneficiam do engajamento mercadológico aqueles que mais se destacam.


De acordo com Marcelo Róbson Téo (2018), a estrutura das universidades e o mercado de consumo disputam de forma relativamente desigual a produção de conteúdos sobre História e, dessa forma, devem logo encontrar um ponto em comum. Este acordo pode ser justamente o trânsito entre um lugar e outro.


No caso de Leandro Karnal, o balanço pendeu eventualmente para um só lado, visto que deixou seu posto na Unicamp a fim de se dedicar integralmente às palestras e ao talk show, entre outros projetos pessoais. No entanto, acompanhando as redes sociais do historiador, percebi que muitos de seus seguidores manifestam significativo interesse pela História. Eu mesmo o sigo em diferentes plataformas desde que iniciei a graduação, e estou sempre atento ao que ele tem a dizer.


Não me parece coincidência o fato de que Karnal, com tanta influência e com tantos espectadores, pode ser aquele que inspira em muita gente o desejo de possivelmente ingressar em um curso de História. A sua visibilidade é imensa. Com todas as legítimas objeções que alguns colegas possam ter em relação ao seu trabalho, é ele quem tem sido uma referência profissional para muitas pessoas interessadas em nosso campo de atuação. Ele não é um historiador às margens somente porque seus pares teimam em exclui-lo, marginalizando-o, mas também porque abre novos caminhos para seus colegas de profissão. Se Téo (2018, p. 377) está correto ao afirmar que devemos buscar “formas possíveis de convivência e interação entre o historiador, a sociedade e o mercado”, Leandro Karnal não deveria provocar qualquer mal-estar, mas ser visto na qualidade de alguém com quem temos muito a aprender.


Referências


NICOLAZZI, Fernando. Muito além das virtudes epistêmicas. O historiador público em um mundo não linear. Maracanan, Rio de Janeiro, n. 18, p. 18-34, jan./jun. 2018.

RODRIGUES, Lidiane Soares. Uma revolução conservadora dos intelectuais (Brasil/2002–2016). Política & Sociedade, Florianópolis, v. 17, n. 39, p. 277-312, mai./ago. 2018.

TÉO, Marcelo Róbson. Desequilíbrio de histórias parte I: um problema do campo das humanidades (?). Tempo & Argumento, Florianópolis, v. 10, n. 23, p. 358 ‐ 380, jan./mar. 2018.


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