• Thiago Mourelle

Vida acadêmica e saúde mental: um debate necessário

Atualizado: Set 9

Você já ficou sem dormir para terminar um trabalho da faculdade? Já pensou em desistir? Já brigou com amigos ou parentes porque estava estressado por problemas relacionados ao seu curso de graduação, mestrado ou doutorado? Já se viu obrigado a escrever um artigo mesmo sem estar inspirado ou sem ter tempo para pesquisar sobre o tema? Acho que todos nós temos uma resposta afirmativa para pelo menos uma dessas perguntas. Ou, talvez, para todas.


Falar sobre saúde mental sempre foi um tabu, que aos poucos vem sendo derrubado. Mas quando relacionado ao mundo acadêmico, o silêncio ainda persiste. Falamos sobre ideias progressistas... Sobre aceitação, democracia, empatia... Porém, muitas vezes nossas práticas não condizem com nossas palavras. A pressão sobre o estudante e sobre o professor é resultado de uma lógica de extrema competitividade, cobrança excessiva e desrespeito ao próximo.


Este texto não versará sobre autoajuda, não é escrito por um profissional da área de saúde e não tem o objetivo de trazer soluções mágicas. A meta aqui é ampliar a discussão, tocar no problema e trazer impressões de quem já viu a saúde mental de amigos, colegas, professores e alunos ser atingida pela lógica cruel que rege nossa vida acadêmica.


Desde o momento do vestibular, o estudante já é lançado em um ambiente de competição desleal. Muitas vezes, com apenas 16 ou 17 anos, se sente pressionado pela família, por amigos e até por si mesmo a escolher uma carreira universitária. Vê-se diante de uma escolha que pode decidir o seu futuro financeiro, profissional e emocional para o resto da vida – pelo menos é assim que grande parte dos adolescentes enxerga esse momento.


Photo by Tony Tran on Unsplash

A falta de orientação profissional e de apoio psicológico faz, muitas vezes, a aluna ou o aluno cursar quatro ou cinco anos de um curso de graduação para depois perceber que não era aquilo que queria para a sua vida. Quantos colegas nossos já optaram por um segundo curso, por insatisfação com o primeiro? Ou quantos já abandonaram a faculdade no meio da graduação? Quantos desistiram do mestrado ou do doutorado?


Outra questão importante: estudantes que são mães ou pais muitas vezes têm dificuldade de estudar ao mesmo tempo em que cuidam de seus filhos e filhas. Poucas universidades brasileiras possuem creches de apoio e também não são muitas as que têm profissionais de psicologia à disposição. Algumas vezes, até mesmo professores são intransigentes com situações relativas à maternidade ou à paternidade, o que leva ao abandono de disciplinas e até mesmo do curso por parte da aluna ou do aluno.


É muito comum os estudantes se queixarem da pressão psicológica, de ficarem sem dormir durante o final de um período da faculdade, da correria para se formar, da quantidade exagerada de trabalhos passados por professores, da falta de espaço para diálogo. O prazer de estudar, de obter conhecimento e se capacitar naquilo que gostamos acaba dando lugar à ansiedade, ao nervosismo e ao medo... Medo de não conseguir, de não ser bom o suficiente... E de ficar pelo caminho. A saúde mental é afetada e, muitas vezes, sem que familiares e amigos sequer percebam.


Não só os estudantes, mas os próprios professores também são vítimas de um sistema da avaliação que os obriga a uma produção intelectual incessante – como se preparar aulas, buscar capacitação, orientar graduandos, mestrandos e doutorandos não já fosse, por si só, um trabalho árduo e muito importante para a universidade. A imposição de uma produção acadêmica incansável se reflete na pressão pela publicação de artigos e livros continuamente, ignorando que cada pessoa tem um tempo diferente para obter inspiração para a escrita e que cada pesquisa caminha num ritmo diferente a depender do método aplicado e dos recursos necessários para realizá-la.


Frequentemente, o prazer dá lugar à cobrança: o que deveria gerar satisfação se torna mero alívio pela finalização das tarefas. O término de um projeto já indica o início de outro, quase ininterruptamente, sem tempo para descanso. Muitas vezes, não gozamos de nossas realizações e estamos sempre preocupados com o devir. Não de uma forma saudável – porque pensar no futuro pode e deve ser algo natural –, mas de uma forma quase mecânica, como se fôssemos máquinas à procura do próximo parafuso a apertar.


Photo by Claudia Wolff on Unsplash

Não se trata de acabar com indicadores ou abolir completamente a produção, mas de colocar sobre a nossa vida acadêmica um olhar mais humano. Trata-se de compreender as diferenças entre as pessoas, seus limites, suas necessidades e, principalmente, perceber que a qualidade deve estar acima da quantidade de trabalho realizado. Afinal, os estudos e pesquisas são partes importantes de nós, mas existem outras coisas que também merecem a atenção em nossas vidas e que nos completam. O lazer, o ócio e os momentos de compartilhar a presença das pessoas que nos cercam são essenciais.


A vida acadêmica deve ser um espaço de realização, de prazer, onde produzimos conhecimento que será benéfico à sociedade, contribuindo para o desenvolvimento e aperfeiçoamento da coletividade. Nela, formaremos profissionais que serão essenciais para o próximo. Se estivermos formando professores, bacharéis, licenciados, mestres e doutores sob o viés da opressão e da falta de um olhar humano, prejudicando sua saúde mental, é claro que isso está sendo feito de uma forma errada.


É essencial que estejamos abertos para perceber as dificuldades e problemas da mente, assim como notamos quando uma pessoa está com um problema físico, como um braço quebrado, por exemplo. A mente também “quebra”, mas ninguém vê. Fiquemos atentos e trabalhemos juntos por uma vida acadêmica mais saudável, exigindo das pessoas quando preciso for, mas estendendo a mão quando necessário.



Créditos da imagem destacada: Photo by nikko macaspac on Unsplash.



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