• Carlos Bauer

Vozes da Shoah: olhares homogêneos para memórias distintas

Para iniciar a discussão, podemos olhar para um marco da indústria cinematográfica: o filme Shoah (1985), de Claude Lanzmann. Produzida durante mais de uma década, a obra não explora imagens ou reproduções do massacre nazista. Lanzmann toma o caminho do testemunho, trazendo vítimas e carrascos para o primeiro plano. Seu foco não é a documentação escrita, mas os relatos de quem viveu a tragédia.


A Enciclopédia do Holocausto, organizada digitalmente pelo Museu do Holocausto dos Estados Unidos, afirma categoricamente que a documentação escrita não seria capaz de abranger as proporções da tragédia. Além da execução sumária dos prisioneiros, os nazistas explodiram câmaras de gás e queimaram arquivos, já antevendo o pós-guerra. Himmler, um dos homens mais importantes do regime nazista, nos anos finais da guerra, ainda acreditava em uma rendição que poupasse a alta cúpula do NSDAP (Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães).


Se por um lado a documentação era insuficiente para respostas imediatas, as memórias dos sobreviventes dos campos eram inundadas de vivências na indústria da morte alemã. Eram indivíduos dos lugares mais diversos, aprisionados por serem considerados diferentes, “associais” ou inimigos do regime. O primeiro momento não foi de relatos instantâneos, pelo contrário, muitos não foram ouvidos e retraíram-se no próprio trauma. Alguns países da Europa, principalmente os envolvidos diretamente com a colaboração, adotaram uma política de silenciamento. Como bem aponta Denise Rollemberg, no livro Resistência: memória da ocupação nazista na França e na Itália, referenciando-se em Pierre Laborie, parcelas da sociedade francesa adotaram o “pensar-duplo”, uma memória que inflava a resistência e “esquecia” a colaboração.


A compreensão dos testemunhos foi fundamental para romper com silêncios e trazer à tona o que antes estava internalizado, com grande influência das teorias do trauma, desenvolvidas pela psicanálise, que promoveram enormes avanços para os outros campos de estudo. Esses traumas ganharam forma de relatos e suas representações passavam pela realidade dos seus locutores. Lanzmann, por exemplo, não acreditava na possibilidade de representar o Holocausto de maneira indireta, sabia que poderia recair em caminhos distantes da realidade. Por isso, trouxe os relatos daqueles que estiveram in loco em diversos campos de concentração.


A subjetividade da memória e do testemunho acabam por endossar a dificuldade de construir uma única narrativa para o público em geral. Para fins didáticos, a gama de vivências da Shoah é retraída e adaptada a uma experiência única de fácil entendimento para quem ouve, lê ou vê. Contudo, a representação é uma tarefa árdua exatamente porque as experiências, ainda que na mesma condição de vítimas, eram distintas, visto que o submundo dos campos de concentração era marcado por hierarquias entre os próprios prisioneiros, moldando as relações e perspectivas Um Kapo, prisioneiro responsável por administrar os demais, possuía uma posição diferente de um recluso comum por exemplo.


Peguemos dois exemplos de narrativas para compreender de que forma as experiências do Holocausto foram vividas e retratadas de maneiras distintas: Primo Levi e Miklos Nyiszli. O primeiro era um químico italiano com uma forte tendência literária. Acabou sendo capturado durante o nazi-fascismo (a Repubblica di Salò, 1943-45) por ser judeu e partisan: membro da resistência armada ao fascismo. Levi ingressou no complexo Auschwitz-Birkenau em 1944 e só saiu na libertação do campo. Seus relatos foram os que geraram maior impacto na opinião pública, pois retratavam de maneira detalhada o “submundo” do campo de concentração.


Escovas de cabelo das vítimas, encontradas logo após a libertação do campo de Auschwitz, na Polônia, depois de 27 de janeiro de 1945. Dokumentationsarchiv des Oesterreichischen Widerstandes.

Além de descrever a violência, Levi também demonstrou como os prisioneiros encontravam caminhos da sobrevivência, formando um verdadeiro sistema social baseado na vida e na morte. Principalmente, o italiano definiu a ideia de “zona cinzenta”, para além das classificações dicotômicas de bem e mal. Era cinzenta porque não estava na “escuridão” e nem na “luz”, mas mesclava os dois em comportamentos cotidianos. Levi descrevia os prisioneiros de Auschwitz de duas formas: os sobreviventes, que de alguma maneira integraram o sistema de vida ou morte, logo, entraram na zona cinzenta. E os muçulmanos, termo utilizado pela origem da palavra muslim, que representa uma submissão total às vontades de Deus, aqueles que não se integraram ao submundo do campo e morreram.


Os muçulmanos, segundo Levi, possuíam os testemunhos integrais da realidade do campo: eram indivíduos esvaziados das suas características humanas, semelhantes a mortos ambulantes. Levi foi muito questionado, pois seus relatos não nos apresentam uma realidade extremamente cooperativa entre os prisioneiros, mas sim a luta diária pelo pão, pela sopa e por itens básicos trocados no mercado paralelo, desmontando possíveis ideias pré-concebidas acerca da solidariedade inevitável, já que os prisioneiros eram vistos como semelhantes em condições. Os que não compreendiam ou não se integravam a essa dinâmica acabavam mortos.


No Campo, porém, acontece o contrário. Aqui a luta pela sobrevivência é sem remissão, porque cada qual está só, desesperadamente, cruelmente só. Se um Null Achtzehn vacila, não encontrará quem lhe dê uma ajuda, e sim quem o derrube de uma vez, porque ninguém tem interesse em que um “muçulmano” a mais se arraste a cada dia até o trabalho; e se alguém, por um milagre de sobre-humana paciência e astúcia, encontrar um novo jeito para escapar ao trabalho mais pesado, uma nova arte que lhe propicie uns gramas de pão a mais, procurará guardar seu segredo, e por isso será apreciado e respeitado, e disso tirará uma própria, exclusiva, pessoal vantagem; ficará mais forte, e portanto será temido, e quem é temido é, só por isso, candidato à sobrevivência (LEVI, 1988, p. 129).

Os duros relatos de Levi despertaram críticas e reflexões de diversos tipos, inclusive entre judeus. Assim como ocorreu com Hannah Arendt no campo político, ao destacar o papel da colaboração de lideranças judaicas no Holocausto, o italiano foi criticado por demonstrar as relações mais complexas dentro do campo de concentração. Levi demonstrou que os campos de concentração eram estruturados em aspectos heterogêneos, como era o caso dos Sonderkommando, prisioneiros responsáveis por cremar os corpos mortos na câmara de gás. O dilema “existe colaboração voluntária sob coerção?” pautou os debates desde então.


Miklos Nyiszli descreveu a realidade dos Sonderkommando e teve uma trajetória muito parecida com a deles. Judeu e médico capturado durante as perseguições na Hungria, que acabou exercendo sua profissão em Auschwitz. Seu superior era ninguém menos que Josef Mengele, o “anjo da morte” nazista. Nyiszli insere-se exatamente na perspectiva da zona cinzenta, pois participou ativamente da “colaboração interna” do campo. Trabalhando como assistente de Mengele, coube a ele realizar autópsias e analisar as cobaias dos experimentos que buscavam comprovar a inferioridade do seu próprio povo.


A experiência de Nyiszli no campo, relatada no livro Auschwitz: o testemunho de um médico, mostra-se extremamente diferente da maioria das vítimas. Com acesso à água quente, roupas limpas e outros privilégios, o médico não poderia ter vivenciado o dilema dos muçulmanos apontado por Levi. Sua colaboração com Mengele moldou uma realidade que permanecia a de prisioneiro e vítima do Holocausto, mas o colocava em outra categoria de testemunha. Seus relatos diferem quanto à brutalidade e às relações do campo. Exemplo disso é o trecho do seu livro em que narra uma situação de canibalismo involuntário de corpos fervidos por ele:


Quatro homens vestidos com o uniforme listrado dos prisioneiros estavam ao lado dos caldeirões, traumatizados de horror. Eram os pedreiros poloneses que eu havia notado antes. Tinham acabado seu trabalho e estavam esperando no pátio que os guardas viessem e os levassem de volta para Auschwitz! Esfomeados, estavam à cata de algo para mastigar quando deram com os caldeirões que, por azar, haviam ficado sem guarda por alguns minutos. Pensando tratar-se da carne que o Sonde-kommando estava cozinhando, eles cheiraram primeiro e depois pegaram algumas partes que não estavam cobertas de pele; então comeram-nas (NYISZLI, 1960, p. 170).

A diferença entre os relatos de Levi e Nyiszli está na posição que ocupavam durante a construção do trauma. Levi, um químico, trabalhou no campo e exerceu sua profissão, mas isso não envolvia participar ativamente das seleções de gêmeos, judeus com doenças congênitas e outras cobaias do anjo da morte. Nyiszli não só vivenciou a morte, como fez parte da sua execução.


Primo Levi. Wikimedia Commons

Compreender essa diversidade de testemunhos é essencial para problematizar suas representações. Observar a Shoah como um processo heterogêneo é um trabalho atual, ainda mais quando as obras que a abordam focam em uma perspectiva unificada. É como se todos vivessem o Holocausto de maneira semelhante e testemunhassem da mesma forma. A dicotomia carrasco x vítima é o passo inicial na análise do genocídio, mas permear todas as relações sociais do desastre desta forma é negar sua complexidade.


Da mesma forma, representações vazias de problematizações e significados adentram na simples midiatização do trauma. Utilizar o Holocausto de maneira homogênea e sem significado representa o foco na bilheteria, não na compreensão e muito menos na memória exemplar apontada por Tzevetan Todorov, pensador búlgaro, em Os abusos da memória.


Segundo Leila Danziger, Alvin Rosenfeld, professor americano especialista no antissemitismo, aponta a responsabilidade da mídia na criação de uma “pornografia do Holocausto”: é o entretenimento pelo trauma. Toda a subjetividade do testemunho é solapada pela narrativa romantizada ou espetacularizada, completamente vazia de significados pedagógicos.


O trauma e o sofrimento caminham lado a lado quando o assunto é o Holocausto. Sua construção e execução levaram a inúmeras discussões: os direitos humanos, o conceito de genocídio, o trauma e o testemunho etc. Todavia, é sempre importante enxergar a complexidade de processos históricos, assim como o papel dos indivíduos neles inseridos. É um caminho que parte do revisionismo histórico, totalmente desvinculado de uma perspectiva negacionista, passando pela psicanálise e chegando ao campo cultural, levando em consideração a ligação destas áreas.


Se o interesse é representar o trauma, que seja pelo seu conteúdo e por tudo que ele representou e pode representar. Ele deve ser observado de maneira didática e utilizado como tal. Trabalhos que caminham pela trilha da espetacularização não agregam em nada, apenas impressionam pessoas com pouco aprofundamento no tema, esvaziam relações complexas e lucram em cima de memórias cada vez mais disputadas.


Créditos da imagem destacada: Auschwitz-Birkenau, 2020 (Acervo pessoal o autor).




Referências:

DANZIGER, Leila. Shoah ou Holocausto: a aporia dos nomes. Arquivo Maaravi: Revista Digital de Estudos Judaicos da UFMG. Belo Horizonte, v. 1, n. 1, out. 2007. ISSN: 1982-3053.

LA CAPRA, Dominick. Notes to page 109-110. In: FRIEDLANDER, Saul (Org.) Probing the limits of representation. Nazism and “The Final Solution”. London: Harvard University Press, 1992.

LEVI, Primo. A trégua. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

LEVI, Primo. É isto um homem? Rio de janeiro: Rocco, 1988.

LEVI, Primo. Os afogados e os sobreviventes: os delitos, os castigos, as penas, as impunidades. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e terra, 2016.

NYISZLI, Miklos. Auschwitz: o testemunho de um médico. Rio de Janeiro-São Paulo: Record, 1960.

ROLLEMBERG, Denise; QUADRAT, Samantha Viz (Org). A construção social dos regimes autoritários: Legitimidade, consenso e consentimento no século XX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

ROLLEMBERG, Denise. Aos grandes homens a Pátria reconhecida: Os justos no Panthéon. In: ARAUJO, Maria Paula; FICO, Carlos; GRIN, Monica (orgs). Violência na história: Memória, trauma e reparação. Rio de Janeiro: Ponteio, 2012.

ROLLEMBERG, Denise; VAINFAS, Ronaldo. Historiadores franceses na zona cinzenta: lembranças da guerra. Revista hist (São Paulo), n. 176, a07716, 2017 http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9141.rh.2017.121976.

ROLLEMBERG, Denise. O silencio da memória, 2013. In: https://www.geledes.org.br/o-silencio-da-memoria-por-denise-rollemberg/, acessado em 28/04/2021.

SARLO, Beatriz. Tempo passado: cultura da memória e guinada subjetiva. São Paulo: Companhia das letras, 2005.

Site: USHMM (United States Holocaust Museum). https://www.ushmm.org/, acessado em 28/04/2021.


  1. Após a rendição de Mussolini em 1943, os nazistas o libertaram da prisão e instauraram um Estado fantoche no norte da Itália. A referência a esse período e governo é quando o termo “nazi-fascismo” é aplicado de maneira correta.


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