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A biblioteca de... Rodrigo Turin

A partir de entrevistas curtas, a série “A biblioteca de...” é um convite para nossos leitores conhecerem mais o universo de nomes importantes da historiografia. Aquele ou aquela que nos inspira pode indicar caminhos de leitura fundamentais para o nosso aprendizado. Por isso, conhecer o que essas referências leem é mais do que uma simples curiosidade: é, antes de tudo, um modo de descobrir novos horizontes de saber.


Rodrigo Turin

O convidado desta edição é o historiador Rodrigo Turin. Professor Associado de Teoria da História na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), bolsista de produtividade do CNPq e pós-doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP), Turin fez seu doutorado em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com estágio na École des Hautes Études em Sciences Sociales sob a orientação de François Hartog. Mestre em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e graduado no mesmo curso pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), foi professor visitante na EHESS entre 2018 e 2019 no âmbito do Centre des recherches historiques (CRH). Sua experiência acadêmica se concentra na área de história, com ênfase em história da historiografia, teoria da história e história intelectual. Atualmente é coordenador do LETHE – Laboratório de Estudos em Teoria, Historicidade e Estética e empreende pesquisas nas quais busca investigar os efeitos e os desafios que a crise climática e os debates acerca do Antropoceno trazem para a consciência histórica moderna. Também se dedica, correlatamente, ao estudo das temporalidades próprias às dinâmicas dos neoliberalismos.


Quais foram as suas primeiras experiências de leitura?


Não venho de uma família de leitores, havia poucos livros em minha casa. Mas havia três coleções, expostas em uma pequena estante, que se tornaram minhas primeiras leituras. Uma delas era a Barsa, naquela edição vermelha da década de 1980. Além de me ajudar nos trabalhos escolares, ler os verbetes e ver as imagens era como abrir uma janela para o mundo, alimentando a minha curiosidade. Além dessa coleção, as outras duas eram de Jules Verne e de Machado de Assis, com cerca de quatro livros de cada autor. Ali foi a entrada no mundo da ficção literária.


Nos canteiros da história, quais livros você sugere para quem está iniciando a sua trajetória?


Costumo indicar aos alunos que estão entrando no curso o livro do Antoine Prost, Doze lições sobre a história. Além de ser didático e com discussões bem feitas, ele traz trechos de diversos historiadores e filósofos da história, ampliando o leque de referências dos alunos. E sempre sugiro aos calouros a leitura de Kafka e Borges, para ampliar o horizonte do possível.


Qual livro você mais gostou de escrever?


O pequeno ensaio Tempos precários, que saiu pela editora Zazie.


Qual a importância da leitura para historiadoras e para historiadores em formação?


Formar-se historiador é, em grande medida, reaprender a ler. O historiador é, acima de tudo, um leitor, seja de livros, documentos, imagens... A formação atual dos cursos cada vez mais privilegia o espaço da sala de aula, aumentando muito a carga horária que os alunos precisam fazer. Com isso, retira-se dos alunos o tempo necessário para a leitura, que, na minha visão, deveria estar no centro da formação. A aula deve servir como um mapa, um espaço de orientação, cuja realização se dá, de fato, no terreno da leitura.


Qual livro você escreveu e teve maior repercussão e crítica? A que você atribui essa recepção?


A História (in)disciplinada, livro coletivo que organizei com os colegas Fernando Nicolazzi e Arthur Ávila. O livro foi fruto de três anos de discussões, em um espaço de afetos e de intensas trocas intelectuais. A repercussão se deve, em grande medida, ao próprio contexto da disciplina histórica, que vive diversos desafios institucionais, sociais e tecnológicos. O livro é uma expressão desse contexto, ao mesmo tempo em que procura intervir nele, ressaltando a historicidade da disciplina e, portanto, a sua abertura a novas formas de produção e circulação do conhecimento.


Em seu processo de escrita (pesquisa e criação) como lida com os horizontes de recepção?


A gente sempre escreve projetando algum tipo de leitor ideal. No meu caso, acho que me divido entre, por um lado, projetar a leitura de alguns/algumas colegas e amigos próximos, que acompanham a minha trajetória e interesses, e, por outro lado, projetar a leitura realizada por alunos, desejando que o texto os afete de alguma maneira. Se conseguir chegar perto do meio termo entre essas duas projeções, me sinto realizado. Hoje, infelizmente, cada vez mais esse leitor ideal se materializa em função do capitalismo universitário, com sua produção acelerada, sua demanda de internacionalização acrítica e suas formas burocráticas de avaliação. A nossa condição de leitura e de projetar leitores e leitoras tem sido profundamente prejudicada.


Em sua biblioteca, tirando os seus livros, quais são as autoras e os autores mais presentes?


Dos livros acadêmicos, Koselleck, Foucault, Benjamin.


Quais são seus livros preferidos fora dos campos da história?


Tenho dificuldade em listar um ou dois livros preferidos, no mesmo dia posso mudar de ideia diferentes vezes. Mas Em busca do tempo perdido, do Marcel Proust, com certeza sempre está entre eles, assim como Grande Sertão: Veredas, os contos de Tchekkov, a Comedia de Dante, Ópio e Memória e Rosa de Ninguém, do Paul Celan... Se respondesse a essa pergunta amanhã, a lista já seria outra...


Qual o futuro dos livros e da leitura pensando nos amplos processos de digitação na atualidade?


Em um futuro próximo, a leitura realizada em diferentes formatos coexistindo, papel, ebook, audiobook, leitura mediada por Inteligência Artificial... como hoje em dia, só um pouco diferente... Fora desse futuro próximo, minha imaginação não alcança.


Qual tema abordará em seu próximo livro?


Os impactos da catástrofe climática nos modos de temporalização da sociedade contemporânea. A partir do estudo de novos conceitos e de linguagens políticas, busco mapear como estamos reconfigurando profundamente aquilo que entendemos por “futuro” e suas diferentes implicações, inclusive historiográficas. Agora estou organizando também um livro coletivo, com o Walter Lowande, que busca fazer um primeiro (e incompleto) balanço de como a disciplina histórica, em suas diferentes áreas, tem incorporado e trabalhado os desafios colocados pela mudança climática.

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