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  • Foto do escritorMonyse Ravena

A disputa das ideias e a luta contra o autoritarismo, antes e depois das eleições

Virou quase um lugar comum ouvir que vivemos a eleição mais importante do Brasil desde a redemocratização. De um lado, um projeto democrático de nação; e, de outro, o flerte com o neofascismo. Desse ponto de vista, as coisas parecem fáceis: não há por que não se engajar em favor do primeiro. Mas por que foi tão difícil convencer milhões de pessoas de que o autoritarismo de Jair Bolsonaro não pode ser o caminho para o Brasil? Alvaro Garcia Linera, intelectual e ex-vice-presidente da Bolívia, refletindo sobre o golpe que tirou Evo Morales da Presidência em 2019, nos oferece pistas para pensar a situação brasileira. Afinal, existe uma identidade entre as classes dos países latino-americanos, que as aproxima a partir de características compartilhadas, como religião e costumes, mas também a postura de suas elites. Nas palavras de Linera se referindo ao golpe sofrido por ele e o então presidente Evo Morales que levou ao poder Jeanine Añez, apoiada por setores militares bolivianos:



O que aconteceu em 2019 nos trouxe várias lições. A primeira é que todo processo de igualdade social gera uma reação conservadora, é inevitável. E é preciso tomar cuidado com essa reação, que é não só das elites, que são poucas, como também de setores médios tradicionais que veem com preocupação que um indígena, um operário, um trabalhador rural ou uma mulher negra, que deveria estar preparando a comida, torne-se governante.

A memória dos governos petistas de Lula e Dilma, por si só, não foi suficiente para convencer imensas parcelas da população a dar mais um voto de confiança em Luiz Inácio. Como pano de fundo da disputa, temos o fortalecimento das ideias conservadoras que tomam corpo na sociedade. O conservadorismo moral não é tema menor nessas eleições, não pode ser ignorado. Mas como encarar o debate daquilo que aos nossos olhos de muitos e muitas parece absurdo?


Foto Agência Brasil. Wikimedia Commons.

Sobre isso, como nos lembra Neuri Rosseto em entrevista ao Instituto Tricontinental: “as contribuições de Gramsci nos alertam para as lutas cotidianas pela hegemonia e pela necessidade urgente de um projeto societário que venha a ser construído com a centralidade das lutas dos trabalhadores”. A ausência da discussão cotidiana com o povo ao longo de anos pode estar na gênese desse vazio. A possibilidade do acesso à universidade fortalecida nos governos de Lula e Dilma teve papel importante nessa disputa de ideias, mas ela abarcou uma parcela muito pequena da sociedade. Discutir e ouvir de todos aqueles dispostos a discutir um projeto de país, desde as miudezas que afetam a vida de cada um, como o buraco em cada rua, precisa ser tema das conversas cotidianas.


Ainda usando os conceitos do filósofo italiano Antonio Gramsci, a eleição de 2022 cobrou o preço da disseminação de preconceitos ditados por anos pelos aparelhos privados de hegemonia contra amplos setores da sociedade. Entre esses aparelhos, destaco aqui a mídia comercial, que há anos colabora com a formação de estereótipos daqueles que se colocam, de alguma maneira, contra a ordem. Seja nas suas páginas de jornais ou sites ou telas de TVs, celulares e cinemas que apresentam grandes latifundiários como ambientalistas, seja na amplificação do jornalismo declaratório ou nos editoriais que cobram o comprometimento com o neoliberalismo para que alguém possa ocupar a cadeira de presidente da República.


Além dos grandes grupos de comunicação que operam como aparelhos privados de hegemonia, é preciso encarar o fato de que lidamos com grupos conservadores que produzem comunicação e que sabem usar as mídias. Posar para uma foto com uma arma em um dia e postar que esteve em uma festa elegante no seguinte não é uma postura aleatória, da mesma maneira que destilar preconceito e desinformação. Parte da sociedade quer se sentir autorizada a ser preconceituosa, intolerante e não quer ser punida por isso – e esse aspecto é o mais preocupante


Mesmo diante do resultado das eleições em que Bolsonaro sai derrotado, o bolsonarismo, como movimento de uma parte da sociedade, segue vivo e forte, o que nos impõe mais uma vez o desafio cotidiano da disputa das ideias em todos os setores sociais. Termino afirmando que as diversas iniciativas editoriais e de divulgação científica do História da Ditadura continuam tendo lugar e importância nessa disputa. Em coletivo temos mais possibilidades nessa peleia.



Como citar este artigo:

RAVENA, Monyse. A disputa das ideias e a luta contra o autoritarismo, antes e depois das eleições. História da Ditadura, 16 jan. 2023. Disponível em: https://www.historiadaditadura.com.br/post/a-disputa-das-ideias-e-a-luta-contra-o-autoritarismo-antes-e-depois-das-eleicoes. Acesso em: [inserir data]


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