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  • Foto do escritorHigor Codarin

A vitória de Lula e a melancolia de esquerda

Atualizado: 5 de mar. de 2023

Apesar do título, este não é um texto pessimista em relação à vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais e a seu futuro governo, tampouco sobre a trajetória da esquerda brasileira. Trata-se de uma tentativa de analisar alguns desafios do governo recém-empossado, relacionando-os à busca necessária de sendas de futuro em um presente que, aparentemente desprovido de sentido, parece eterno.

Enzo Traverso, historiador italiano, em seu Melancolia de esquerda: marxismo, história e memória, aponta que o nosso século XXI nasceu moldado por um “eclipse geral das utopias” (TRAVERSO, 2018, p. 29). Ao contrário do século XIX – que nascia sob os auspícios da Revolução Francesa – e do século XX – impactado pela Revolução Russa de 1917 –, o século XXI se inicia sob o colapso da experiência comunista inaugurada pelos bolcheviques russos. Mas não foi apenas a experiência em si que colapsou: junto com ela, paralisou-se a imaginação utópica.


Sem perspectivas de futuro, confinou-se “a imaginação social dentro dos limites estreitos do presente” (TRAVERSO, 2018, p. 31). Em um tempo histórico em que parecemos condenados a viver no mundo tal qual ele é, parece ser mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo, que é, em essência, o catalisador da destruição desse próprio mundo. A noção de progresso que alimentava uma visão marxista da história, predominante no século XX, em que o mundo marchava para o socialismo e em que a “vida acabaria por vencer” (LENIN, 2004), parece fora de lugar em nossos tempos.


O “eclipse total das utopias” vem, portanto, a reboque de um processo de derrotas. Mas não só. Antes, as derrotas eram prenúncios das vitórias que viriam. Como escrevera Rosa Luxemburgo em meio à derrota da Liga Espartaquista e pouco antes de ser assassinada, “a história leva, irresistivelmente, passo a passo, em direção à vitória final.” (LOUREIRO, 2011, p. 399) Atualmente, as derrotas, aparentemente, são desprovidas de futuro: parecem apenas a confirmação de que os sonhos utópicos não são possíveis. Vivemos, portanto, processos de luto e as derrotas, enquanto catalisadoras do luto, nos tornam melancólicos e introspectivos. Daí, a importância da melancolia para esse texto.


Comumente, a melancolia pode ser compreendida como um “luto patológico”. Apesar de deitar raízes e significados diversos na história da humanidade, atualmente é caracterizada a partir das definições da psicanálise freudiana como um “desânimo profundamente doloroso” e “uma suspensão de interesse pelo mundo externo”. (FREUD, 2013, p. 58) Em outras palavras, pode ser caracterizada como um luto que não se completa, gerando uma relação de proximidade constante entre o enlutado e a dor.


Traverso, compreendendo as derrotas do século XX como geradoras de processos de luto, aponta para a importância do que ele denomina “melancolia de esquerda”. Ao contrário de imobilizadora e patologizante, a melancolia seria uma


[...] premissa necessária de um processo de elaboração do luto, um passo que o torna possível ao invés de paralisá-lo, e assim ajuda o sujeito a se tornar novamente ativo. Em suma, a melancolia poderia ser vista como um processo suscetível de possibilidades alternativas, entre as quais uma renovada capacidade de ação. (TRAVERSO, 2018, p. 94)

Aprofundando a concepção e vinculando-a, especificamente, ao regime de historicidade “presentista”, em que impera o “eclipse geral das utopias”:


Melancolia de esquerda não significa necessariamente nostalgia do socialismo real ou de outras formas malogradas de stalinismo. Mais do que um regime perdido ou uma ideologia, o objeto perdido pode ser a luta como experiência histórica que suscita lembranças e emoções, a despeito de seu caráter frágil, precário e efêmero. Nessa perspectiva, melancolia significa memória e consciência das potencialidades do passado: uma fidelidade às promessas de emancipação revolucionárias, não a suas consequências. (TRAVERSO, 2018, p. 106)

É neste sentido que se vislumbra a melancolia para esse texto: não como imobilizadora, mas como força criadora, reafirmando as potencialidades das “promessas de emancipação revolucionárias”. Contudo, ainda resta a pergunta: qual a relação entre a melancolia de esquerda e a vitória de Lula?


Reprodução

De início, algumas considerações sobre a vitória em si. Deve-se ressaltar que a vitória de Lula, referendada pela população brasileira para o exercício de um terceiro mandato presidencial, é a interrupção de seis anos de retrocessos sociais iniciados pelo nefasto governo Temer e aprofundados pelo ainda mais tenebroso governo de Bolsonaro.


Isso não quer dizer que antes do governo Temer os setores sociais brasileiros interessados em mudanças estruturais, visando a justiça social, não tenham sofrido derrotas. Ao contrário. É possível, inclusive, vislumbrá-las ao longo dos governos liderados pelo Partido dos Trabalhadores, entre os anos 2003-2016, quando mudanças estruturais esperadas não se realizaram e programas de transferência de renda não foram acompanhados de processos de politização que os mantivessem e aprofundassem. Contudo, houve, inegavelmente, uma mudança qualitativa e quantitativa nas derrotas e retrocessos ao longo dos governos Temer e Bolsonaro. Apesar de diferentes, os governos se unificaram em uma perspectiva de desmantelamento acelerado da estrutura de seguridade social protetiva do Estado.


Assim, mais do que uma vitória, com o perdão da tautologia, Lula tornar-se presidente é o símbolo da possível interrupção de derrotas sucessivas a que estávamos submetidos.


Nessa perspectiva, como nos víamos soçobrados pelos escombros do desmantelamento do Estado proporcionado por Bolsonaro, talvez não haja melhor momento para elaborarmos o luto do que nesses próximos quatro anos de governo Lula. Elaborarmos o luto, ressalte-se, baseados na melancolia de esquerda definida por Traverso.


Em diversas entrevistas e comícios, Lula disse que, se o povo o escolhesse para ser o próximo presidente, não poderia errar. Mais do que retórica, o atual presidente sabe que não é apenas o seu destino que está em jogo nesses próximos quatro anos. Realizar um bom governo significa diminuir as chances de crescimento da extrema-direita no Brasil e, ao mesmo tempo, ganhar corações e mentes para uma sociedade mais justa, igualitária e fraternal, recuperando também a credibilidade da política como arena, por excelência, da mobilização popular em busca da melhoria de vida individual e coletiva. Sendo assim, seu terceiro mandato está, mais do que os outros dois, no olho do furacão.


Alguns prenúncios desse início de mandato são positivos. A histórica posse e seus históricos e importantes simbolismos, os impecáveis discursos de Lula no Congresso e no Parlatório, a presença popular na Esplanada dos Ministérios e a posse de alguns dos ministros, com belos e impactantes discursos.


Posse de Silvio Almeida como ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania.

Apoiados nesses prenúncios é que devemos nos fazer valer da melancolia de esquerda, resgatando as “possibilidades do passado” e sendo fiéis às “promessas de emancipação revolucionárias”. Os quatro anos de governo Lula serão um terreno fértil para fazer brotar esperanças novas. Antes empenhados em impedir retrocessos, passamos, à esfera das proposições, levando conosco essa melancolia.


É necessário que, ao mesmo tempo e a cada vez, saibamos dar sustentação ao governo, fazendo a “análise concreta da situação concreta” (LENIN, 1966), e tencioná-lo, fazendo-o avançar sobre os limites que já apareceram e os que, invariavelmente, continuarão a aparecer. Os gritos de “sem anistia” ao longo do segundo discurso de Lula no dia 1º de janeiro devem dar o tom da relação dos setores sociais com um governo que, pressionado por uma extrema-direita articulada e por uma elite mesquinha e autoritária – vide os deploráveis e lamentáveis eventos de oito de janeiro em Brasília – deve se sentir amparado para avançar em direção à resolução de questões urgentes.


Que a melancolia de esquerda esteja presente ao longo desses quatro anos de mandato, reavivada pelos movimentos sociais e partidos políticos, mas também capitaneadas pelo próprio Lula e demais figuras integrantes do governo. Que Lula continue, em suas ações de governo, politizando a questão da fome como o fez em seu segundo discurso, ao demonstrar o contraste entre dois tipos de brasileiros que se dividem em filas: muitos, com fome, nas filas de ossos; outros, com tanto, nas filas para comprar carros importados.


Esse é nosso desafio. Assim, e somente assim, abriremos sendas de futuro em um presente tão desprovido de utopias.


Créditos da imagem destacada: O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante cerimônia de posse, no Palácio do Planalto. Autor: Marcelo Camargo/Agência Brasil. Wikimedia Commons.


 
  1. Essa frase, de acordo com Mark Fisher é atribuída tanto a Fredric Jameson como a Slavoj Zizek. Para maiores detalhes, cf. FISHER, Mark. Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? São Paulo: Autonomia Literária, 2020.

  2. Baseando-se, sobretudo, nas reflexões de Reinhart Kosseleck e da antropologia de Marshall Sahlins, regime de historicidade é um conceito de François Hartog para explicar como uma determinada sociedade, em determinado contexto histórico, articula as três categorias do tempo: passado, presente e futuro. Segundo o autor, em nosso tempo histórico, “presentista”, o presente absorvera, em si, as categorias passado e futuro, transformando-se em um “presente perpétuo”. Para maiores detalhes, cf. HARTOG, François. Regimes de historicidade: presentismo e experiências do tempo. Belo Horizonte: Autêntica, 2013 e HARTOG, François. Crer em História. Belo Horizonte: Autêntica, 2017; HARTOG, François. Crer em história. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017.


REFERÊNCIAS:

FREUD, Sigmund. Luto e melancolia. São Paulo: Cosac Naify, 2013.

HARTOG, François. Regimes de historicidade: presentismo e experiências do tempo. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.

_____. Crer em História. Belo Horizonte: Autêntica, 2017; HARTOG, François. Crer em história. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017.

LENIN, Vladimir. Collected works. Moscou: Progress, 1966.

LENIN, Vladimir. Obras escolhidas, tomo III. São Paulo: Alfa-Ômega, 2004.

LOUREIRO, Isabel (Org.) Rosa Luxemburgo: textos escolhidos. Vol. II, 1914-1919. São Paulo: Editora da UNESP, 2011.

TRAVERSO, Enzo. Melancolia de esquerda: marxismo, história e memória. Belo Horizonte: Editora Âyiné, 2018.


Como citar este artigo:

CODARIN, Higor. A vitória de Lula e a melancolia da esquerda. História da Ditadura, 27 fev. 2023. Disponível em: https://www.historiadaditadura.com.br/post/a-vitoria-de-lula-e-a-melancolia-de-esquerda. Acesso em: [inserir data].


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