• Emanuel Antunes

A História não é tribunal

Atualizado: 3 de mai.

No encontro da Avenida Passos com a Praça Tiradentes é possível ver o Teatro João Caetano, o Real Gabinete Português de Leitura, entrincheirado entre os prédios na rua Luís de Camões, e até mesmo Camões num busto, que, com sua feição de pedra, vez ou outra pede uma nova pichação. Antes dele, o prédio da antiga sede da Federação Espírita Brasileira. “Lugares de memória” para uma quantidade grande de gente. Em frente à praça, a Fundação Leonel Brizola dá as caras com um número doze imenso e alarmante. No centro do espaço público, uma estátua de um Pedro I que se equilibra num cavalo. Com o golpe e a instauração da República, o nome da Praça da Constituição foi alterado para Praça Tiradentes.


Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro. Fonte: Prefeitura do Rio.

É justamente ao lado dela que duas viaturas estão paradas, fazendo a revista dos transeuntes e ordenando que veículos estacionem. O ônibus, que já tinha visitado uma dezena de bairros do subúrbio, foi parado; o sol que era compartilhado entre os moradores de rua que estavam na praça intensificou o calor no interior do transporte; as máscaras coladas nos rostos davam uma sensação de residir no inferno. No fundo do ônibus, um grupo com quase vinte jovens – em sua maioria negros, sem camisa, ansiosos pela praia de logo mais – ouvia uma canção feliz. Os policiais “solicitaram” que esse grupo descesse. A caixa de som foi junto e, por cerca de quinze minutos, ficou-se sem música – o que não deveria agradar a ninguém, mas agrada.


Todos revistados e, para o prazer dos agentes da lei, os jovens, devidamente humilhados, voltaram ao ônibus que seguiu na busca por Copacabana. Enquanto a euforia da turma retornava lá atrás, no meio do ônibus uma mãe tentava ensinar a filha, que deveria ter seus treze anos, como funciona um domingo no Brasil: “Você viu né? Não precisa ter motivo… eles vão parar porque viram os pretinho. Só vai descer os pretinho. Tu viu algum branco? Não viu. É assim, sempre é assim. Vai ser sempre assim e acabou”. A menina balançava a cabeça enquanto os embalos da condução espremiam os que estavam em pé entre as cadeiras.

“Vai ser sempre assim e acabou”. A descrença na mudança é uma mentira que contamos para nós mesmos. Todo animal quando atacado acredita que é possível mudar, mas uma mãe negra não pode incentivar a sua filha de treze anos a transgredir: é escrever um atestado de óbito. Ensina-se a obedecer, a baixar a cabeça – não por crença, mas por querer que se viva. “Nos dias de hoje é bom que se proteja, ofereça a face pra quem quer que seja” disse Ivan Lins e Elis cantou. O anseio de extermínio para com o povo negro no Brasil em pouca coisa mudou. A tortura como política de Estado, que se pensava extinguir na distensão, segue na perseguição diária na vida da menina de treze anos, da mãe ansiosa, dos meninos com a caixa de som. Na intensidade das injustiças, alguém irá dizer que “a História vai mostrar quem está do lado certo”, ou que “a História se lembrará deles” quando se morre pela verdade. Na boca de políticos brasileiros o que mais se escutou durante a pandemia foi que “a História não esquecerá”, ao se referirem às infâmias cometidas pelo Governo Federal e seus adeptos. Se eles nos matam aos montes, não há quem fique para lembrar.


Jesus Carlos/Memorial da Democracia

A História é tida como um ente que transita entre erros e acertos, reveladora das atrocidades, dos vilões, enquanto exalta os heróis ao passar do tempo. Não se pensa a História como produto do meio, mas um elemento externo e feita para ser um local de contemplação, retrato estampado nas paredes reproduzindo o passado como ele realmente foi. Reside uma espécie de conforto momentâneo em saber que lá, ao longe, anos depois, alguém se lembrará que fomos violentados. Pior ainda, o sujeito historiador se contenta em ser testemunha ocular. Olhar as coisas acontecerem, como Delacroix, e fazer uma pintura emocionada graças à visão privilegiada de sua janela social. Observo o panorama acreditando que a história tem problemáticas a solucionar. Uma delas é a percepção que a sociedade tem sobre si mesma e sobre o historiador, enquanto a outra é a percepção do historiador sobre si mesmo.


Dois momentos no tempo presente tornaram a máxima “a História absolverá” uma espécie de panfleto nos discursos. O primeiro é o golpe de 2016, quando a presidente Dilma Rousseff foi retirada do cargo; o segundo, a prisão do ex-presidente Lula graças a algumas apresentações PowerPoint e um processo cheio de convicções. A verdade é que se tinha a certeza da não existência de crimes de responsabilidade por parte de Dilma; outra verdade notória eram as intenções de Sérgio Moro, e aliados, com a prisão de Lula. As eleições de 2018 escancararam os dois acontecimentos, os quais, já mostravam seus objetivos. Tragédia posta e crença de que “a História faria justiça”.

Essa noção de justiça – por meio das narrativas históricas num futuro próximo onde existe a garantia da vitória – manifesta o teor da dominação ideológica sob a qual estamos, que incentiva a espera e a passividade. Atentando para os ambientes acadêmicos, onde a História é construída como ciência, em que medida nossos centros se tornaram espaços de debates aprofundados, mas sem propósito de transformação social? As escolhas que fazemos nas pesquisas refletem a noção da História como um “tribunal do futuro” e nunca elemento modificador do presente? A iminência da vitória pode ser a “melhora da morte” e os historiadores sabem disso – ou deveriam saber. Não está entre nossas funções a desnaturalização, o destaque para o “nem sempre foi assim”? A História não absolverá nem condenará, visto que o conflito é constante, interno e externo a ela. A memória, por ser terreno de disputa, precisa que a verdade seja estampada a todo instante. E esse é um dos limites da História: ela elucida, demonstra, deixa tudo em evidência, mas não destrói a possibilidade do desastre. Ela não é elixir, bula de remédio ou manual, mas pode ser espaço de escuta e observação.

A Justiça, escultura de Alfredo Ceschiatti. Supremo Tribunal Federal. Fonte: Marcello Casal Jr./ Agência Brasil.

Mesmo imerso na lógica neoliberal, como todo e qualquer trabalho no tempo presente, o ofício do historiador apresenta a possibilidade de oferecer suprimentos para mudanças. Um historiador enfurnado em seu escritório se esquece até de si: vira mobília, escondido sob a poeira. Assina um acordo íntimo com o capital quando silencia em todos os fronts; não comunica nem em sua prática cotidiana, nem nos amontoados de folhas que redige. Escreve sobre os operários, mas se imagina acima do chão da fábrica. Fala inclusive que aqueles operários não tinham consciência de classe, por isso não se rebelavam. Não se rebelavam. Exige a revolta dos mortos enquanto escreve uma narrativa plastificada, cheia de pudor, inofensiva. Todo presente é uma encruzilhada e o historiador é agente político mesmo quando não se pensa assim. Precisa lidar com os vivos do seu tempo, suas angústias, medos e desejos. Se é insensível com o metrô lotado, com a criança que padece na fome, como pode construir narrativa viva, capaz de lembrar dos que sofreram no passado? Que nome podemos dar para o sujeito que sabe quem cometeu o crime e o modo como foi feito, e mesmo assim não levanta a voz? Falar se torna um dever ético.


A História não é tribunal, mas pode ser um instrumento precioso para que a garota de treze anos, ao perceber a praça, o ônibus e a cor da pele, consiga imaginar um futuro que não seja sempre assim. É instrumento de mudança quando é feita na transformação, não afastada dos conflitos, mas fabricada em meio às derrotas e descrenças. Ou se coloca no combate ou observa sua extinção como ciência. Gritar na certeza de que alguém escuta, mesmo que as aparências sejam outras. Nutrir as narrativas com esperança é o mínimo que podemos fazer enquanto tudo está no breu.


Chico Buarque e Paulo Pontes (1982, p. 161) disseram: “eles pensam que a maré vai mas nunca volta”. Ela há de voltar, porque o faremos. Não porque nos é dado, não porque um dia julgarão.




 

REFERÊNCIAS

BUARQUE, Chico; PONTES, Paulo. Gota D’Água. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.


Como citar este artigo:

HOLANDA, Emanuel Antunes da Silva. A História não é tribunal. História da Ditadura, 17 mar. 2022. Disponível em: https://www.historiadaditadura.com.br/post/ahistorianaoetribunal. Acesso em: [inserir data].


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