• Victor Figols

As lições de um sociólogo para um historiador do esporte: Bourdieu e o campo esportivo

O sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002) foi um daqueles intelectuais da segunda metade do século XX dotados de uma habilidade incrível para interpretar o mundo em que vivíamos. A capacidade de Bourdieu para mobilizar e articular várias áreas do conhecimento o fez ser muito requisitado para dar palestras em diversos cursos das Ciências Humanas. Não por acaso, há inúmeros registros de palestras e seminários em cursos de Economia, Filosofia, Educação e, claro, História.

O célebre historiador britânico Eric Hobsbawm – em um texto escrito um ano após a morte de Bourdieu – dá conta que, desde muito cedo, o pensador francês estabeleceu uma forte relação com a História. Nas palavras de Hobsbawm, “o passado ocupa um lugar central na obra de Bourdieu, pois constitui o solo no qual o presente enterra as suas raízes, formando a base de nossa capacidade de compreender nossos próprios tempos e influenciá-los” (HOBSBAWM, 2020, p. 12). Hobsbawm nos avisa que a História feita por Bourdieu – que não era historiador – era marcada por uma visão estruturalista e que é inegável a sua contribuição para os historiadores.

Um dos conceitos bourdieusianos amplamente usado até hoje pelos historiadores, é a noção de campo. O sociólogo francês trabalhou com a noção de campo na economia, na política, na religião e nos meios científico, intelectual, artístico e literário, e arriscou pensar também sobre o campo esportivo, que aqui nos interessa. Mas antes de entrar na discussão sobre o campo esportivo, é necessário entender, ainda que minimamente, o conceito de campo de acordo com Bourdieu.

O campo, como define o autor, é: “universo relativamente autônomo de relações específicas entre os agentes envolvidos” (BOURDIEU, 2003, p. 65-66). Dito de outro modo, é uma estrutura na qual as relações entre os seus agentes são objetivas e específicas, e determinadas pelo habitus. O conceito de habitus pode ser simplificado como um conjunto de práticas de um grupo de indivíduos dentro da estrutura social. Essas práticas vão determinar, por exemplo, as diferenciações e a posição de um indivíduo (ou de uma classe social) na sociedade.

Assim, o alto grau de diferenciação de um grupo de indivíduos em relação a outros aumentará o nível de autonomia de um determinado grupo. É nesse processo que o campo surge como uma forma de explicar uma estrutura social que se autonomizou e constituiu um grupo específico de agentes que compartilham o mesmo habitus. Ao observar as práticas (habitus) de um grupo, Bourdieu consegue diferenciar, por exemplo, o campo econômico do campo religioso, ou do campo esportivo. Nesse sentido, para Bourdieu, um campo possui uma dinâmica interna específica e, em seu interior, os indivíduos que o compõem compartilham os mesmos princípios, regras e hierarquias.


Apesar do autor entender que essa estrutura social possui uma autonomia relativa, a dinâmica interna de um campo é marcada por constantes disputas (simbólicas) internas entre os próprios agentes, pela manutenção ou transformação do campo. Nas palavras do autor, “todo campo é lugar de uma luta mais ou menos declarada pela definição dos princípios legítimos de divisão do campo” (BOURDIEU, 2003, p. 149-150), no qual o habitus irá determinar não só os grupos que o compõem, mas também, consequentemente, suas disputas internas. Então, o campo é essa estrutura altamente especializada com dinâmica e lógica próprias e relativamente autônoma, que está em constante disputa entre os seus agentes.

Mas quando e como o conceito de campo esportivo apareceu nos trabalhos de Bourdieu?

O sociólogo se dedicou a pensar o esporte em pelo menos três momentos – em palestras que viraram textos. Em 1978, uma palestra deu origem ao texto Como é possível ser esportivo?[1] e, em 1983, outras duas palestras foram transcritas em forma de um único texto de título Programa para uma sociologia do esporte. Mais tarde, mais dois textos seriam publicados, um deles dedicado aos Jogos Olímpicos.

Aqui nos interessa o primeiro trabalho, o texto Como é possível ser esportivo?, no qual encontram-se suas primeiras tentativas de formular o conceito de campo esportivo. Bourdieu começa por diferenciar as práticas lúdicas do esporte moderno, ao chamar atenção para as condições históricas e sociais que fizeram uma prática se tornar um esporte, ou, em suas palavras: […] condições sociais que tornaram possível a constituição de instituições e agentes diretamente ou indiretamente ligados à existência de práticas e de consumos esportivos (BOURDIEU, 1983, p. 137).

É nesse esforço de compreensão da realidade específica do esporte moderno que está a ideia de campo esportivo, ou seja, um conjunto de práticas que foi se autonomizando e se especializando, a ponto de constituir um campo específico. E, para isso, Bourdieu propõe fazer uma genealogia do esporte moderno, compreendendo como uma prática social se tornou tão específica a ponto de constituir um campo.

Isto quer dizer que uma das tarefas mais importantes da história social do esporte poderia ser sua própria fundação, fazendo a genealogia histórica da aparição de seu objeto como realidade específica irredutível a qualquer outra (BOURDIEU, 1983, p. 137).

Photo by Jannik Skorna on Unsplash

Bourdieu é assertivo quando diz que o campo esportivo possui uma realidade específica, uma historicidade própria, mas isso não significa dizer que ele está fechado em si mesmo. Um historiador do esporte, ao reconstituir esse campo esportivo – ou melhor, ao historicizá-lo –, precisa ter em mente e identificar quem eram seus agentes (internos ou externos ao campo) e as disputas envolvidas. E, ainda que Bourdieu afirme que o campo possui uma autonomia, é preciso sempre considerar que o esporte não pode ser dissociado dos aspectos sociais, culturais, políticos e econômicos nos quais está inserido, e que, portanto, sofre interferências externas, como, por exemplo, dos agentes econômicos que estão constantemente disputando pelo monopólio do campo.

Nesse sentido, talvez a maior contribuição de Bourdieu para um historiador do esporte seja essa reflexão sobre como pensar o campo esportivo, isto é, a compreensão de que o esporte possui uma historicidade própria:

[...] a história do esporte é uma história relativamente autônoma que, mesmo estando articulada com os grandes acontecimentos da história econômica e política, tem seu próprio tempo, suas próprias leis de evolução, suas próprias crises, em suma, sua cronologia específica. (BOURDIEU, 1983, p. 137)

Respeitar a “realidade específica” do esporte é, antes de mais nada, colocá-lo à luz do tempo, respeitando a sua cronologia própria. Esse exercício – que parece uma premissa óbvia para qualquer historiador – evita o reducionismo de que um esporte como o futebol seja entendido como um mero reflexo da sociedade. Na leitura bourdieusiana, olhar para a “realidade específica” do esporte só é possível com um esforço de observação e descrição dos agentes esportivos e de seus interesses, ou seja, é preciso conhecer as regras do campo para melhor compreendê-lo. E, para isso, é preciso compreender o campo esportivo como um espaço de constantes disputas – tanto pelos agentes internos, quanto pelos agentes externos. Por exemplo, o campo é disputado por jogadores, torcedores, clubes e federações, mas também por emissoras de televisão e rádio, pela mídia impressa, pelos patrocinadores (agentes econômicos) e até mesmo pelo Estado (quando dita as “regras do jogo” com legislações voltadas especificamente para o esporte). É preciso enxergar a complexidade do campo esportivo – ir além. É essa a graça de ser um historiador do esporte.

Por isso, uma das lições de Bourdieu para um historiador do esporte é de não se limitar apenas em analisar as dinâmicas internas do campo. É um exercício de historicizar a cronologia própria do esporte e perceber como essa realidade específica se relaciona com o mundo que o cerca e, então, estabelecer relações. É um convite para pensar em “estudar o esporte através do esporte” (MELO, 2013, p. 13) e além do esporte. É usar o esporte para compreender o próprio esporte, mas também o mundo.


Referências

HOBSBAWM. Eric. Pierre Bourdieu: Sociologia crítica e história social. Editora Terra Sem Amos: Brasil, 2020.

BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.

BOURDIEU, Pierre. “Como é possível ser esportivo?”. In: _____. Questões de Sociologia. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1983, p. 136-153.

BOURDIEU, Pierre. “Programa para uma Sociologia do Esporte”. In: _____. Coisas ditas. São Paulo: Brasiliense, 1990b. p. 207-220.

MELO, Victor Andrade de. [et. al.]. Pesquisa histórica e história do esporte. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2013.


[1] O texto chegou ao Brasil em 1983, no livro Questões de Sociologia.

455 visualizações

Posts recentes

Ver tudo

© 2021 POR HISTÓRIA DA DITADURA - CRIADO POR DOING IDEIAS.

  • Facebook Basic Black
  • Twitter Basic Black
  • Preto Ícone Instagram