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  • Foto do escritorNathália Fernandes

Das “Copas Clandestinas” às edições televisionadas: o futebol de mulheres

O leitor e a leitora que acompanham meus textos já sabem que, por aqui, procuro sempre trazer algum assunto que relacione futebol, política e o panorama atual da nossa sociedade. Neste texto, trato especificamente do futebol de mulheres e da Copa do Mundo de futebol de mulheres que, em 2023, será realizada na Austrália e na Nova Zelândia. Desde 1991, a FIFA organiza uma Copa do Mundo de Futebol Feminino a cada quatro anos, mas nem sempre foi assim. Nesse sentido, vamos conversar um pouco sobre as proibições ao futebol de mulheres e de que maneira esse histórico se reflete nos campeonatos organizados para a categoria até os dias de hoje.


O futebol de mulheres foi proibido no Brasil pelo decreto nº 3.199 de 14 de abril de 1941. Este decreto não foi o primeiro cerceamento explícito ao futebol de mulheres no mundo, uma vez que vinte anos antes a Federação Inglesa de Futebol (FA) já havia proposto um documento que estabelecia o banimento do futebol de mulheres e proibia sua prática nos campos e clubes dos times associados à federação. Contudo, mesmo com as proibições vigentes, as mulheres inglesas e brasileiras seguiram praticando o esporte, ainda que de maneira mais escondida.


Jornal no Museu do Futebol em SP. Reprodução.
Jornal no Museu do Futebol em SP. Reprodução.

Entretanto, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, o futebol de mulheres ganhou cada vez mais evidência ao redor do mundo, fazendo com que clubes e times se formassem para a prática do esporte. Na década de 1960, o banimento inglês foi revogado, e algumas federações, como a Federação Italiana de Futebol Feminino, foram criadas.


Essa federação, com o apoio e o patrocínio de alguns empresários que passaram a ver no futebol de mulheres uma fonte de público e renda, iniciou um projeto para criar uma “Copa do Mundo” de futebol de mulheres.[i] As duas edições, realizadas na Itália e no México em 1970 e 1971, respectivamente, chamaram a atenção da sociedade, da mídia e, claro, da FIFA. Esses torneios, que se intitulavam “Campeonatos mundiais femininos” não eram reconhecidos, nem organizados pela FIFA, entidade máxima gestora do Futebol Association. Por isso, são chamadas de “Copas Clandestinas”.[ii]


A edição de 1970 foi sediada na Itália. Segundo reportagem do Jornal do Brasil, a cidade de Turim foi escolhida para sediar a final do campeonato por ser considerada o berço do futebol masculino italiano no final do século XIX. As outras partidas aconteceriam nas cidades de Nápoles, Palermo, Roma, Bolonha, Gênova e Milão.[iii] Ainda não foi possível confirmar se todas essas cidades efetivamente sediaram os jogos da Copa de 1970 – por falta de cobertura da imprensa –, mas há registros de que, na partida final disputada em Turim, a Itália foi derrotada pela Dinamarca pelo placar de 2x0.[iv]


A Copa de 1971, realizada no México, obteve uma maior cobertura das imprensas brasileira e mexicana – e foi o mundial feminino que mais chamou a atenção da FIFA. Jornais do México traziam reportagens de destaque sobre o evento no país. Em notícia intitulada “Copa del Mundo para Mujeres”[v], o jornal destacou o fim do banimento inglês, a realização de jogos entre selecionados da Grã-Bretanha e ainda a criação de uma Liga Inglesa de Futebol Feminino. A notícia ainda mencionava a criação da Copa do Mundo Feminina naquele ano. O interessante aqui é a ênfase dada à luta das mulheres – nesse caso, sobretudo as inglesas – para o reconhecimento e a validação da prática do futebol de mulheres, que vinha sendo praticado sob ares proibitivos havia décadas.


Copa Mundo Feminina ocorrida no México em 1971. Reprodução.

Em outra reportagem nomeada “La ‘fuerza’ de las italianas contra la técnica argentina”[vi], o periódico narrou a disputa pelo terceiro lugar, sediada na Cidade do México. É interessante observar que a nota efetivamente destacava qualidades técnicas de ambas as equipes e reproduzia o questionamento do técnico argentino quanto à arbitragem do mundial. Diferente do que acontecia em outras reportagens, esta não destacava os atributos físicos das jogadoras. A nota mencionava ainda a necessidade da apresentação de ingressos para a entrada no estádio e declarava que a partida seria disputada e interessante.


Na imprensa brasileira, a cobertura do mundial assumia ares um pouco distintos. Em notícia do Jornal dos Sports, lê-se que a segunda Copa agora seria organizada pela Federação Internacional de Futebol Feminino. De acordo com a mesma reportagem, “foi um torneio bem organizado, que os homens consideraram uma reação superentusiástica das mulheres à atuação dos astros como Pelé, Riva e Bobby Moore, que disputaram a última Copa do Mundo de futebol masculino no México”.[vii] É interessante perceber que, mesmo elogiando o campeonato organizado em 1970 e reconhecendo seu sucesso, o jornal, de certa maneira, menosprezava o interesse das mulheres em praticar futebol, associando a criação dos eventos a uma “reação entusiástica” à Copa masculina, realizada no México no ano anterior.


Em outra reportagem do Jornal dos Sports sobre o II Campeonato Mundial Feminino, o texto afirma que os mexicanos estavam se preparando com muito afinco para o campeonato e que lamentavam que o Brasil – considerado, segundo a notícia, o país com o melhor futebol de mundo – não participaria do evento. A reportagem terminava afirmando que os mexicanos “esperam que o Mundial de Futebol Feminino seja um sucesso sob o ponto de vista técnico, porque o êxito em termos de turismo já está praticamente garantido, já que muita gente quererá ver de perto se as garotas curvilíneas batem bem na bola como os marmanjos.”[viii]


A partir da reportagem citada acima, é possível reiterar o que já foi apontado em outros textos: os estereótipos baseados na feminilidade e a beleza que se espera das mulheres permanecem presentes nos discursos da imprensa e da sociedade, mesmo em locais onde a prática desse esporte é permitida – e mesmo durante um torneio. É interessante ressaltar que a reportagem não questiona se a expectativa de ter um grande público poderia ou não se basear na capacidade tática e técnica do jogo praticado. Pelo contrário: para o redator, a presença de público estaria garantida porque as meninas curvilíneas estariam em campo e iriam despertar a curiosidade do público para ver se sabiam ou não bater bem na bola.


Tais reportagens apresentam dois aspectos importantes. O primeiro diz respeito ao contraponto do tom adotado pela imprensa dos dois países – México e Brasil – acerca do campeonato. Enquanto a primeira destacava fatos sobre o evento, a segunda sempre ressaltava aspectos do corpo feminino – o que estava em acordo com o senso comum referente à prática do esporte no país à época: o futebol deveria ser praticado apenas por homens.


Copa Mundo Feminina ocorrida no México em 1971. Reprodução.

Além disso, é digno de nota que poucos jornais se preocuparam em referenciar os campeonatos femininos. No México, além do El Informador, o jornal Sol de México também apresentou algumas reportagens sobre as copas; enquanto no Brasil, em pesquisas feitas por mim, somente nas edições do Jornal dos Sports foi encontrada alguma referência sobre os eventos.


Um segundo ponto diz respeito ao destaque que o evento ganhou. É evidente que a Copa do Mundo FIFA de Futebol Masculino era um campeonato muito mais famoso e que recebia muito mais atenção da imprensa e do público mundial. Porém, é necessário ressaltar a atenção que um campeonato “clandestino” – ou seja, sem o aval da entidade gestora do futebol mundial – recebeu na imprensa internacional, inclusive de países nos quais a modalidade era proibida por lei, como no caso brasileiro.


As mudanças no caminho: Rumo às edições televisionadas


A FIFA assumiu as rédeas da organização e da gerência do futebol de mulheres no final dos anos 1980, quando a modalidade já havia sido liberada e regulamentada no Brasil. Em 1991, a China sediou a 1ª Copa do Mundo FIFA de Futebol Feminino, demarcando que, a partir dali, o controle do futebol de mulheres estaria nas mãos da entidade – e mais, desconsiderando os mundiais que tinham acontecido anteriormente, relegando-os à “clandestinidade”.


Como já foi apontado por mim em outros textos, a proibição da modalidade e toda tentativa de apagamento deixaram legados à prática desse esporte ainda hoje. Foi somente em 2019 que o Grupo Globo transmitiu, pela primeira vez, a Copa do Mundo de Futebol Feminino no Brasil. Nos anos subsequentes, o grupo passou a transmitir partidas de outros campeonatos, como campeonatos estaduais (mesmo que a grande maioria dos jogos tenha sido transmitida em canais por assinatura pertencentes ao grupo, e não na TV aberta).


2023, como foi dito, é ano de Copa do Mundo de Futebol Feminino. O evento, que será sediado na Austrália e na Nova Zelândia, acontecerá entre os meses de julho e agosto e será o primeiro a contar com 32 seleções e a adotar formato semelhante ao que vigorou até 2022 para o futebol masculino. Contudo, se compararmos ao futebol de homens – que mesmo com o mundial tendo sido realizado em novembro de 2022, já contava com reportagens e coberturas especiais desde o início do ano –, a mídia ainda está um pouco silenciosa em relação à cobertura do evento.


Neste ano, o Grupo Globo também irá transmitir um novo campeonato de futebol de mulheres: a Supercopa de Futebol Feminino. O torneio teve sua primeira edição em 2022 e, para este ano, já há confrontos e tabela liberada pela CBF. O campeonato se iniciou no dia 4 de fevereiro e inaugurou o calendário de transmissões de futebol feminino na Globo.


Saiba como assistir a Supercopa do Brasil Feminina 2023. Foto: Reprodução Rodrigo Gazzanel/ Ag. Corinthians.

Todavia, esse campeonato despertou comentários e indignação de mulheres envolvidas na modalidade por conta da premiação. A Supercopa Masculina deste ano teve a premiação de R$ 10 milhões para o campeão e de R$ 5 milhões para o vice-campeão – os maiores valores já pagos na competição. Para as mulheres, contudo, às vésperas do início da competição, a CBF ainda não tinha divulgado o valor dos prêmios. Como na edição de 2022 não houve prêmio, ocorreram muitos comentários e chacotas nas redes sociais.


Segundo reportagem de página esportiva, a técnica do Atlético Mineiro teria ironizado em suas redes sociais que a premiação da Supercopa Feminina seria “andar de ônibus”. Outra atleta também divulgou em suas redes que a premiação do ano passado havia sido “50 medalhas e 1 troféu”. O debate nas redes sociais tem se apresentado entre, de um lado, pessoas que defendem uma maior valorização do futebol feminino – inclusive, reivindicando premiações semelhantes às do masculino – e, de outro, aqueles que não veem sentido nas reclamações.


No fim das contas, foi divulgado um pagamento para o torneio no valor de 500 mil reais para o time vencedor e de 300 mil para o segundo colocado. Após as cobranças nas redes, a própria CBF divulgou a notícia sobre o valor da recompensa em sua página, chamando a premiação para o torneio de histórica.


Sem entrar no mérito do debate, acredito que, a partir do que foi exposto neste texto, podemos chegar a duas conclusões: a primeira e mais direta é que o futebol de mulheres ainda tem um caminho importante a percorrer no sentido da igualdade de condições e, também, de premiações. A segunda diz respeito à história do futebol de mulheres. A tentativa – inclusive fomentada pela FIFA – de apagamento de competições e práticas do futebol de mulheres, faz com que a modalidade perca ainda mais sua bagagem e credibilidade aos olhos de parcelas da sociedade. Alguns grupos apareceram em comentários de redes sociais – diante da demora da CBF em divulgar o valor da premiação – justificando o seu não pagamento. O principal argumento utilizado por eles era o de que o futebol de mulheres é recente e que ainda precisava se aprimorar e adquirir mais tempo de jogo para que a igualdade aconteça.


Isso, como sabemos, não é verdade: as mulheres praticam futebol no Brasil desde, pelo menos, o início do século XX e, apesar das dificuldades e proibições no país e no mundo, seguiram se dedicando ao esporte. A duras penas, elas conseguiram reconhecimento e a proposição de campeonatos que, a cada ano, se multiplicam e atraem cada vez mais público e renda. Qual seria, então, a justificativa para a demora na divulgação do valor, ou ainda, para o pagamento de um valor tão inferior – chamado de “histórico” – para a competição feminina? Essa, sim, é uma pergunta que deveria fomentar inúmeros debates e que, ao fim e ao cabo, reflete a discriminação de gênero presente de maneira geral nos esportes e, de maneira específica, no futebol.


A busca pela visibilidade e igualdade no futebol de mulheres é algo que precisa ser constante. Mesmo quando existe uma conquista, a dificuldade em obter igualdade de condições se apresenta. É somente com o conhecimento da história e da historicidade dessa modalidade, de suas proibições e permanências, que poderemos ampliar a luta por respeito e igualdade no futebol.


Créditos da imagem destacada: Final do Campeonato Brasileiro Feminino A-1 - Corinthians x Palmeiras. Créditos: Staff Images Woman/CBF. Reprodução.


 

Notas:

[i] “Turim vai ter em julho a primeira Copa do Mundo de futebol para as mulheres”. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 12 de março de 1970, p. 22. [ii] “Mais uma”. Jornal dos Sports. Rio de Janeiro, 16 de julho de 1970, p. 2. [iii] O termo “Copa do Mundo” é usado aqui entre aspas pois o nome do campeonato está diretamente relacionado àqueles organizados pela FIFA. No caso das copas mencionadas, não é a entidade responsável pela organização.

[iv] Uso aqui o termo “Copas Clandestinas” como mencionado por Jean Williams, em seu livro que menciona os mundiais. Nos documentos da própria FIFA, o evento é referido como “Os assim chamados Campeonatos Mundiais femininos” (Tradução livre). Cf. WILLIAMS, Jean. Globalising Women’s football. Europe, Migration and profissionalization. Berna: Peter Lang AG, Internationaler Verlag der Wissenschaften, 2013.

[v] El Informador. Guadalajara, 3 de junho de 1971, p. 5.

[vi] El Informador. Guadalajara, 2 de setembro de 1971, p. 1. [vii] “Um futebol diferente”. Jornal dos Sports. Rio de Janeiro, 14 de julho de 1971, p. 2.

[viii] “Elas também dão no couro”. Jornal dos Sports. Rio de Janeiro, 19 de junho de 1971, p. 2.



Como citar este artigo:

FERNANDES, Nathália. Das “Copas Clandestinas” às edições televisionadas: o caminho das competições de futebol de mulheres. História da Ditadura, 10 abr. 2023. Disponível em: [https://www.historiadaditadura.com.br/post/das-copas-clandestinas-as-edicoes-televisionadas]. Acesso em: [inserir data].

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