• Ramon Feliphe

As artes de curar no Vale do Jequitinhonha

Atualizado: 9 de dez. de 2021

Dom divino, feitiçaria, saberes transmitidos oralmente de geração em geração: esses são exemplos da gama de denominações para as práticas populares de cura que guardam aspectos importantes das culturas branca, indígena e negra, misturadas durante o período da colonização da região do Vale do Jequitinhonha, em finais do século XVII. Esse processo foi complexo e nada tranquilo. Ministradas com o objetivo de cura ou prevenção de certos males, as práticas são realizadas até os dias atuais na região, e envolvem benzeções, rezas, garrafadas, banhos externos, entre outras. Esses saberes são analisados no artigo Por uma história da saúde do Vale do Jequitinhonha: reflexões sobre práticas populares de cura, escrito por mim e por Keila Carvalho, historiadora e professora da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Nesse estudo, argumentamos que, apesar do processo histórico de repressão aos “curadores” não médicos, as práticas populares de cura seguem presentes na sociedade e constituem elemento fundamental da identidade regional.


Nosso artigo apresenta um breve apanhado bibliográfico sobre o confronto entre o saber médico oficial e as práticas populares de cura no Brasil, especialmente entre o final do século XIX e início do século XX. Em seguida, observamos como esse processo se desdobrou na porção que atualmente corresponde à região do Alto Vale do Jequitinhonha, no norte de Minas Gerais. Por fim, com o auxílio da História Oral, relacionamos o contexto histórico arrolado sobre as práticas de cura com o relato de experiências extraídas de entrevistas com moradores de dois municípios da região – Couto de Magalhães de Minas e Diamantina –, para refletir sobre a permanência dessas práticas.

Continuidades e rupturas entre repressão e permanência: A repressão aos agentes de cura não oficiais foi protagonizada por intelectuais e médicos, e contou fortemente com a atuação da imprensa no início do século XX. Keila Carvalho e eu argumentamos, no entanto, que os processos sofridos pelos agentes de cura não médicos, bem como a caracterização negativa de suas práticas, não implicaram necessariamente na aceitação passiva e imediata do conhecimento médico oficial pela sociedade. Os diversos discursos contra os “charlatães” não obtiveram progressos imediatos, no sentido de inserir a medicina acadêmica entre os costumes usuais da população brasileira. Pelo contrário, esse processo foi gradual e marcado por continuidades e rupturas, pois a população continuava se valendo de mandingas, rezas, orações e, em alguns casos, ervas medicinais, entre outros meios, a fim de alcançar o bem-estar físico ou espiritual.

Observamos exemplos desses embates na região na edição de 15 de dezembro de 1907 do jornal diamantinense A Idéa Nova, quando foi noticiado na primeira página que o “africano e feiticeiro” Alexandre Cuanga teria “larga clientela entre grande parte do povo supersticioso, pois teria sido preso várias vezes por charlatanice”. A procedência de Alexandre foi destacada no jornal como forma de desqualificá-lo. Segue trecho da matéria:


Uma mulher, moradora na rua do Amparo, convenceu-se que estava enfeitiçada e que tinha uma lagartixa no cérebro, no lugar em que outras mulheres tem os miolos (...). Enfim a infeliz enlargatixada chamou o Cuanga, pagou-lhe naturalmente e dele recebeu uma garrafa de cachaça, preparada com umas raízes (...). Mal provou o cálice, caiu, quase veio desta para melhor. O dr. Antônio Mota, chamado a tempo, receitou-lhe um calmante e levou o remédio do feiticeiro para analisá-lo. 

A distinção entre aquele que pode matar – o feiticeiro – e aquele que pode salvar – o médico –, é muito clara. A “anormalidade” na descrição que o jornal faz dos sintomas da mulher nos indica que no processo de repressão a esses agentes na Diamantina do início do século XX lançou mão de concepções das próprias crenças populares como forma de combatê-las. A ideia de que corpos poderiam ser alvos de feitiços era uma delas, o que demonstra que, mais do que uma disputa ou uma concepção do discurso médico oficial como triunfante, houve estratégias que ora distanciavam e ora aproximavam o saber oficial e as artes de curar.

No artigo, argumentamos ainda que se os processos-crimes analisados para fins do nosso estudo pouco informam sobre a perspectiva dos agentes populares alvos da repressão. A metodologia da História Oral (H.O.) constitui-se assim como um recurso indispensável para dar visibilidade às histórias, receitas, memórias e conhecimento dos indivíduos que atualmente perpetuam e ressignificam as práticas de cura na região, especialmente graças a transmissão oral. Além disso, a H.O. ajuda a identificar mudanças nessas tradições ao longo do tempo, até mesmo como forma de resistir aos ataques sofridos, como o já citado caso de Cuanga. Um exemplo da riqueza cultural desses relatos é verificado em uma das nove entrevistas que realizamos, por exemplo, nos foram indicadas vinte e três espécies de plantas utilizadas para diversos fins, desde males do corpo aos do espírito, demonstrando o amplo conhecimento que esses agentes possuem da flora nativa da Serra do Espinhaço, que circunscreve a região. Abaixo o registro de algumas das espécies cultivadas para fins medicinais na casa dos moradores entrevistados


Espécies vegetais de uso múltiplo citadas por moradores de Couto de Magalhães de Minas e Diamantina, MG. 1) Arruda; 2) Babosa; 3) Bálsamo; 4) Bardana; 5) Boldo-baiano; 6) Boldo do Chile; 7) Capim-cidreira; 8) Carqueja; 9) Confrei; 10) Erva-cidreira; 11) Alfavaca; 12) Jaborandi; 13) Alevante; 14) Hortelã- roxa; 15) Funcho; 16) Saião. Fontes: Registros fotográficos realizado na casa de moradoras de Couto Magalhães de Minas.


Entender como esse conhecimento está estruturado na região pode ajudar, por exemplo, na preservação das características da Serra do Espinhaço, que oferece os atributos naturais para a manutenção das práticas de cura e que se caracteriza pelo grande número de espécies endêmicas, muitas delas ameaçadas de extinção. Este espaço muito particular, que abriga o Vale do Jequitinhonha, atualmente é considerado pela UNESCO como Reserva da Biosfera.

A analisar as práticas populares de cura nos permite ampliar as formas de contar a história do Vale do Jequitinhonha, que ainda tem um forte enfoque na égide da mineração. Por fim, o estudo indica que as práticas populares relacionadas à cura não param de recompor sua encenação, apresentam uma dinâmica de longa duração e um entendimento próprio sobre saúde e doença, bem como das interações humanas com o meio ambiente.

Referências Bibliográficas

CARVALHO, Keila Auxiliadora; SOUZA, Ramon Feliphe. Por uma história da saúde do Vale do Jequitinhonha: reflexões sobre práticas populares de cura. Revista Caminhos da História, v. 26, n. 2, p. 10-31, 2021.

  1. A Idéa Nova, 15/12/1907, p. 1.

  2. Áreas internacionalmente reconhecidas pelo Programa o Homem e a Biosfera (Man and the Biosphere Programme – MaB), da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), as reservas da biosfera são demarcadas principalmente por seus valiosos atributos naturais.





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