• Nathália Fernandes

A volta das torcidas aos estádios e as relações de gênero

Atualizado: 4 de mai.

O leitor e a leitora que acompanham esta coluna vão perceber que, neste texto, saio do campo para as arquibancadas. Isto se deve a um motivo importante: a volta dos torcedores aos estádios, depois de mais de um ano afastados em função da pandemia de Covid-19. Em alguns estados do Brasil, como o Rio de Janeiro, foi permitido o retorno de 100% do público já no final de 2021, enquanto outros encerraram o ano com suas capacidades reduzidas. De todo modo, com o retorno das torcidas para as arquibancadas retornam também antigos problemas, sobretudo para as torcedoras mulheres, como o assédio e os preconceitos recorrentes nestes espaços.

Se engana aquele ou aquela que pensa que a presença feminina nas arquibancadas é algo recente. Elas estão presentes nos espaços torcedores desde, pelo menos, o início do século XX – inclusive, é atribuído à presença das damas nas arquibancadas o mito de criação do vocábulo “torcida”. Ao longo do século passado, as mulheres marcaram sua presença nas mais diferentes formas do torcer e, apesar de na maioria dos casos estarem em menor número, não deixaram de acompanhar ou torcer pelo seu time, a despeito de diferentes barreiras e preconceitos.

Durante a pandemia, estados como Rio de Janeiro (por meio da Lei 8.743/2020) e Ceará (por meio da Lei 17.279/2020) sancionaram uma legislação que visa reduzir os casos de assédio nas arquibancadas. Na teoria, as leis – que seguiram o ditado antes tarde do que nunca – vieram para tentar minimizar o assédio, sobretudo, através de campanhas educativas e monitoramento dos casos. Como foram promulgadas durante o período de pandemia – quando as torcedoras e torcedores estavam afastados das arquibancadas –, foi preciso esperar um tempo para que se pudesse colocá-las em prática. Esse momento chegou com o retorno das torcidas aos estádios.

Os textos das duas leis são praticamente iguais. No caso do Rio de Janeiro, foi elaborada com o auxílio de torcedoras. Neste estado, alguns times já possuíam em suas torcidas grupos de mulheres que promoviam campanhas contra o assédio nas arquibancadas, como o Vascaínas contra o Assédio, que, além de distribuição de materiais educativos, chamavam a atenção através das redes sociais e da participação em programas televisivos.

Além de movimentos regionais, desde 2017, pelo menos, torcedoras de todas as partes do país se uniram para formar o grupo Mulheres de Arquibancada (MDA), que também promove campanhas contra o assédio e o machismo nas arquibancadas, tendo realizado alguns encontros nacionais. O primeiro deles, em 2017, foi realizado no Museu do Futebol, em São Paulo, e teve transmissão pelo YouTube.

Campanha pelo respeito às torcedoras em GreNal pelo Gauchão 2018 - Foto: Grêmio Oficial. Reprodução.

Infelizmente, nem as legislações estaduais pioneiras, nem os movimentos de mulheres existem por conta de casos isolados ou atuais. Casos de assédio e preconceitos contra as torcedoras nas arquibancadas são recorrentes e existem há tempos. Para demonstrar isso, apresento a seguir duas reportagens do Jornal dos Sports e da Revista Placar, periódicos esportivos de importante circulação no Rio de Janeiro e que trazem, respectivamente, uma narração de episódio e uma charge que nos permitem perceber casos de assédio e de preconceito com as mulheres nas arquibancadas.

Torcedoras e assédios – reportagens recorrentes.

Ainda na década de 1960, a reportagem do Jornal dos Sports transcrita abaixo, intitulada “Fla cantou como nunca”, apresenta um episódio vivido por algumas torcedoras na arquibancada.


O lado rubro-negro ficou agitado quando uma mulher passou com uma bandeira vascaína. Foi vaiada e salva de maiores problemas por um rubro-negro mais gentil que lhe deu cobertura. Outro mais fanático agrediu o próprio companheiro por ajudar o inimigo. No meio da agitação, duas belezas flamenguistas pedem licença para conseguir um lugar mais confortável na arquibancada. E a turma rubro-negra esquece a guerra para brindar suas apetitosas torcedoras com os fiu-fius indispensáveis. 

Sem analisar as rivalidades clubísticas em jogo no contexto, é possível argumentar sobre o comportamento torcedor nessa pequena passagem. O fato narrado se inicia com a presença de uma torcedora do Vasco no lado flamenguista da arquibancada, o que despertou incômodos e xingamentos por parte do torcedor vascaíno. A leitora ou o leitor mais assíduo nas arquibancadas pode argumentar que, atualmente, tal comportamento também seria inaceitável pelo agrupamento torcedor do time rival. Contudo, chamo atenção especificamente para o final da reportagem: “E a turma rubro-negra esquece a guerra para brindar suas apetitosas torcedoras com os fiu-fius indispensáveis” (grifo meu). Esse tipo de tratamento feito pela própria imprensa às torcedoras nos permite inferir que o assédio era um comportamento normal – ou pelo menos, normalizado – nas arquibancadas do período, fazendo com que o jornalista se sentisse confortável em usar tais expressões para relatar o episódio.

Já a Revista Placar, em editorial de abril de 1978, apresentou uma charge que trazia dois homens conversando. Um deles alegava que levava a mulher ao estádio, mas que não queria que ela ouvisse, visse ou gritasse certas coisas que ele – o marido – considerava impróprias. O outro homem questiona, então, porque o primeiro levava a esposa para esse ambiente. Nisso o marido responde, no último quadrinho da charge, que a esposa, chamada por ele de “coitadinha”, precisava se divertir. O último quadrinho ainda apresenta a imagem da esposa de óculos e com um pano tapando a boca.

Essa charge, com tom de sátira, apresenta alguns pontos interessantes. O primeiro deles diz respeito à ideia corrente nas arquibancadas de que as mulheres ocupam aquele espaço apenas para acompanhar maridos, irmãos ou alguma figura masculina que realmente aprecie o esporte que está sendo disputado no campo. Outro diz respeito à forma como aquela mulher precisa se “comportar” no estádio para agradar a figura masculina que a acompanha. Ambos os apontamentos nos permitem inferir o preconceito sofrido pelas torcedoras nas arquibancadas para exercer seu direito de torcer, uma vez que a intenção da charge é trazer um alívio cômico para a revista, dialogando com o público que se entende consumidor dela: o masculino.

O caso de preconceito ilustrado pela charge acima é apenas uma das barreiras que as mulheres que buscam torcer pelo seu time enfrentam e enfrentavam nas arquibancadas do Rio de Janeiro e do restante do país. Contudo, para nos focarmos somente no tema que dá origem a este texto – o assédio – gostaria de retornar ao tempo presente e nos voltarmos à reflexão sobre o retorno das torcedoras aos estádios.

O retorno aos dias atuais – os assédios no Mineirão.

As legislações promulgadas no ano de 2020, como rapidamente demonstrado aqui, são mais do que necessárias. Não só porque, historicamente, as torcedoras sofrem diversas intercorrências no seu cotidiano torcedor, mas porque casos de assédio são relatados nos diversos estádios do país ainda hoje.


Legenda: Frase faz parte da cartilha virtual lançada pela Prefeitura do Recife contra assédio sexual de mulheres em estádios de futebol. Foto: Prefeitura do Recife/Divulgação.

No mês de novembro de 2021, por exemplo, dois casos de assédio foram noticiados pela imprensa. Os casos em questão aconteceram no estádio Governador Magalhães Pinto, o Mineirão, em Minas Gerais. o dia 3, a estudante Karinne Marques, de 21 anos, denunciou ter sofrido assédio dentro do estádio. Segundo a vítima, um homem passou a mão em seu corpo durante o jogo do Atlético Mineiro contra o Grêmio. Para piorar, a estudante ainda alegou ter sido vítima de deboche por parte das autoridades policiais do local ao relatar o crime. Segundo ela, os responsáveis pela segurança a tentaram fazer desistir da ocorrência. Infelizmente, em diversos casos de assédio, dentro e fora dos ginásios esportivos, as vítimas são coagidas ou desencorajadas a prosseguir com suas denúncias. Em muitos casos, são atendidas por policiais homens, que acabam corroborando para o sentimento de humilhação sofrido. É também por esse motivo que uma das demandas das torcedoras reunidas no primeiro encontro das Mulheres de Arquibancada, em 2017, versava sobre a necessidade de um braço da Delegacia da Mulher nos estádios.

Na semana seguinte, outra torcedora também sofreu um grave assédio nas dependências do Mineirão. Débora Cotta, de 25 anos, afirmou ter sido beijada a força por um homem na arquibancada durante a partida do Galo contra o Corinthians. A torcedora também fez um relato nas redes sociais denunciando o descaso das autoridades policiais do estádio sobre o caso.

Tais episódios nos fazem perceber que as situações de assédio pelas quais passam as torcedoras dentro dos estádios são das mais variadas formas e já as atormentam há muito tempo. Por esse motivo, pleitos como o realizado pelas torcedoras durante o encontro do MDA em 2017 são tão relevantes, assim como as legislações promulgadas em 2020 contra o assédio nos estádios.

Ainda longe de um encerramento...

Por enquanto, não tivemos muito tempo para avaliar a eficiência das legislações estaduais que visam coibir esse tipo de comportamento. Contudo, duas coisas podemos afirmar: a primeira delas diz respeito ao fato de que os dois casos noticiados na grande mídia aconteceram em um estado onde não existe legislação semelhante. Não quero com isso sacramentar que não aconteceram casos de assédio nas arquibancadas cearenses e cariocas.


Talvez os casos nesses locais somente não tenham sido divulgados. Sabemos que mudanças de mentalidade e comportamento levam tempo para serem efetuadas, tempo que a legislação ainda não teve para se provar. Entretanto – e isso nos leva à segunda afirmação –, o relato de tais casos e, principalmente, o relato do descaso das autoridades policiais diante desses crimes servem também para ratificar a importância de legislações mais duras contra o assédio e a violência contra a mulher nos estádios. Bem como, punições mais severas, tanto para quem pratica quanto para as autoridades policiais e seguranças que reagem de maneira inadequada às denúncias, reforçando a violência sofrida pelas torcedoras.


Para muitas torcedoras, voltar aos estádios infelizmente ainda significa se deparar com situações de desrespeito nas arquibancadas, situações pelas quais elas já passam há bastante tempo. Esperamos que essas legislações estaduais sejam o primeiro passo para atitudes mais eficazes no combate de toda forma de discriminação e desrespeito dentro e fora das quatro linhas.


 

Referências bibliográficas:


BANDEIRA, Gustavo Andrada. Uma história do torcer no presente: elitização, racismo e heterossexismo no currículo de masculinidade dos torcedores de futebol. Curitiba: Appris, 2019.

HOLLANDA, Bernardo Borges Buarque de; MALAIA, João M. C.; TOLEDO, Luiz Henrique de; MELO, Victor Andrade de. A torcida brasileira. Rio de Janeiro: 7Letras, 2012.

MALAIA, João Manuel Casquinha. FORTES, Rafael. ‘Brasil Grande, estádios gigantescos’: toponímia dos estádios públicos da ditadura civil-militar brasileira e os discursos de reconciliação, 1964-1985. Revista Tempo, 2021.

PESSANHA, Nathália Fernandes. Arquibancada Feminina: relações de gênero e formas de ser torcedora nas arquibancadas do Rio de Janeiro. Dissertação (Mestrado) Universidade Federal Fluminense. Programa de Pós-Graduação em História. Niterói, 2020.

  1. Algumas considerações sobre a presença de torcedores nos estádios no início do século, pode ser encontrada em: HOLLANDA, Bernardo B. Buarque de; MALAIA, João M.C; TOLEDO, Luiz Henrique de.; MELO, Victor Andrade de. A torcida Brasileira. Rio de Janeiro: 7Letras, 2012.

  2. Analiso o encontro do MDA, bem como questões de gênero presentes nas arquibancadas, em dissertação defendida em março de 2020. Disponível em: https://ludopedio.org.br/biblioteca/arquibancada-feminina/

  3. “Fla cantou como nunca”. Jornal dos Sports, 02/05/1968, p. 10

  4. Revista Placar, 06/04/1978.

  5. Diversos estádios no Brasil foram construídos durante o período da ditadura civil-militar e foram batizados com o nome do político ou mecenas envolvidos na sua construção. Caso o leitor(a) tenha se interessado por este tópico, recomendo a seguinte leitura: CF. MALAIA, João Manuel Casquinha. FORTES, Rafael. ‘Brasil Grande, estádios gigantescos’: toponímia dos estádios públicos da ditadura civil-militar brasileira e os discursos de reconciliação, 1964-1985. Revista Tempo, 2021.

Como citar este artigo:

FERNANDES, Nathália. A volta das torcidas aos estádios e as relações de gênero. História da Ditadura, 1 fev. 2022. Disponível em: https://www.historiadaditadura.com.br/post/avoltadastorcidasaosestadioseasrelacoesdegenero. Acesso em: [inserir data].


87 visualizações

Posts recentes

Ver tudo