O Agente Secreto: Brasil, década de 1970, onde os fracos não têm vez
- Wallace Andrioli

- há 3 dias
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“Não devemos reduzir a história do Brasil entre 1964 e 1985 à história da ditadura militar.” Essa frase do historiador Carlos Fico, um dos maiores especialistas na mais longeva ditadura brasileira, aponta para a necessidade de compreensão tanto de certas vivências cotidianas naqueles anos, que não eram necessariamente atravessadas por questões decorrentes do regime político vigente, quanto de processos que extravasam os marcos de ascensão e queda dos militares, ainda que eventualmente assumindo feições particulares entre 1964 e 1985 (ou em algum momento dentro desse recorte cronológico).
Kleber Mendonça Filho leva isso em conta, de alguma forma, ao ambientar a narrativa de O Agente Secreto no ano de 1977. Seu cinema costuma ser muito afeito a exibir pacientemente elementos que compõem o cotidiano, logo, a reconstituição cuidadosa da segunda metade da década de 1970 produz aqui um passado vivo, que respira. Ao mesmo tempo, o filme lida com práticas e relações sociais que não foram inventadas pela ditadura e que sobreviveriam a ela – nesse sentido, a presença irresistível de Robério Diógenes como o delegado Euclides, representante dos pequenos poderes autoritários atuantes historicamente na sociedade brasileira para além de governos, é uma das forças de O Agente Secreto.

O diretor também retoma interesses muito recorrentes em seu cinema, como aquele pelas marcas que o passado deixa no presente. Desde O Som ao Redor (2012) ele vem inserindo fragmentos de outras temporalidades na diegese fílmica, mas O Agente Secreto é fruto de uma relação mais intensa com os arquivos, explicitada em Retratos Fantasmas (2023), e a produção de História e memória a partir deles. Conforme descasca as camadas de seu filme, Kleber revela o desejo não só de contar uma história dos anos 1970, mas de refletir sobre como os vestígios dela chegam aos dias de hoje, o que fica, o que se perde, o que é lembrado e como é lembrado. E o mais importante: O Agente Secreto não se estrutura num flashback, ou seja, o ponto de partida não é o presente que rememora, artifício narrativo tão corriqueiro; só após o passado setentista já estar vivo, ter cor, som, carne e cheiro na tela, é que a personagem Flávia (Laura Lufési) e seu olhar retrospectivo são apresentados.
O resultado disso é tanto uma desconstrução muito bem feita de expectativas de gênero (o thriller de espionagem anunciado no título e não concretizado por completo), quanto uma demonstração impressionante de consciência representacional. O Agente Secreto consegue ser, nos termos do historiador Robert Rosenstone, simultaneamente “drama histórico comercial”, ao apresentar com intensidade dramática e de forma envolvente o passado vivido como presente por seus personagens, ou seja, permeado por angústias, alegrias, desespero, aventuras, sofrimentos e heroísmo, e “drama histórico inovador”, por propor um olhar crítico e autoconsciente para a própria construção desse passado, lacunar e indiciária.
É uma pena, então, que Kleber se entregue a duas tentações do cinema progressista brasileiro contemporâneo: usar o período histórico representado para forçar uma conexão com episódios recentes (a patroa negligente causadora da morte de uma criança pobre, referência irritantemente explícita ao caso célebre quase idêntico ocorrido no Recife em 2019) e chapar, social e moralmente, o núcleo positivo de seus personagens. Por mais carismáticos e adoráveis que sejam o protagonista Marcelo/Armando (Wagner Moura) e coadjuvantes como Dona Sebastiana (Tânia Mara) e Seu Alexandre (Carlos Francisco), todos, até o gato que habita o condomínio dos “refugiados”, se encaixam em algum lugar de exclusão/perseguição. Nesse sentido, o diretor recusa qualquer ambiguidade ou complexidade. Em tempos algorítmicos e de rejeição ao diferente que tensiona certezas, é sintomático que um filme como esse faça essa escolha. Cada um com seus iguais.

Falta, portanto, na construção dos personagens e de suas relações a sofisticação que sobra na articulação narrativa, na ambientação e na encenação. O Agente Secreto é um filme que sobrepõe temporalidades com brilhantismo, não tem a menor pressa para encerrar sequências que pedem para durar e trabalha com enorme competência na chave do anticlímax. O longo trecho no Cinema São Luiz exemplifica bem os dois primeiros aspectos: da entrada do protagonista na sala de projeção para conversar com o sogro até sua saída no rumo de um bloco carnavalesco (cena linda, por sinal), muito tempo de filme passa, muita coisa acontece (motivações e riscos revelados, personagens apresentados), passado, presente e futuro se misturam (é especialmente prazeroso o momento em que os gritos da plateia que vê A Profecia no São Luiz, em 1977, são ouvidos por Flávia hoje, num headphone), mas a unidade dramática é rigorosamente preservada.
Já o caminho anticlimático é poderoso, pois representa a resistência à tentação populista do crescendo de emoções que conduz à catarse, especialmente atraente para um aficionado por cinema de gênero como Kleber. Caminho, aliás, que posiciona O Agente Secreto na companhia invejável da obra-prima Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), também sobre um homem perseguido por assassinos cujo destino final é revelado mas não mostrado nem totalmente explicado – quebra de expectativas gigantesca, desestabilizadora. A aproximação do filme dos Coen reforça a sensação de implacabilidade da violência na sociedade brasileira como uma força direcionada contra os mais fracos, os “frouxos” que andam desarmados, nas palavras do pistoleiro Augusto (Roney Villela), aqueles que geralmente tombam pelo caminho e têm suas histórias esquecidas, obscurecidas, contadas pela metade.
Como citar este artigo:
ANDRIOLI, Wallace. O Agente Secreto: Brasil, década de 1970, onde os fracos não têm vez. História da Ditadura, 26 nov. 2025. Disponível em: https://www.historiadaditadura.com.br/post/o-agente-secreto-brasil-decada-de-1970-onde-os-fracos-nao-tem-vez. Acesso em: [inserir data].



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