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  • Foto do escritorAugusta da Silveira de Oliveira

O “Escândalo” de Angela RoRo: a imprensa ataca a lesbianidade

Atualizado: 1 de set. de 2022

Em 1981, a cantora Angela RoRo lançou o álbum Escândalo!, seu terceiro de estúdio, pelo selo Polydor. Neste agosto, mês da visibilidade lésbica, 41 anos depois do lançamento do disco, podemos analisar seu contexto de produção, de que forma a cantora se inseriu no debate público sobre sexualidade e o papel da mídia em publicizar o caso, associando a imagem de RoRo à da lésbica violenta.


Capa do álbum Escândalo!, Angela RoRo, 1981.

O título da música que dá nome ao disco, de autoria de Caetano Veloso e encomendada pela própria Angela, aparece no centro da capa, assemelhando-se à capa de um tabloide. Lançado em dezembro de 1981, o disco é uma resposta da artista à repercussão na mídia do relacionamento entre ela e a também cantora Zizi Possi, iniciado no ano anterior e marcado por conflitos até o seu término.

O encarte do disco, além dos habituais créditos, fotos e letras das canções, conta com um texto da própria Angela, reproduzido abaixo:

Julgar o trabalho de criação de uma pessoa é tarefa quase tão impossível quanto julgar suas ações e sentimentos. Elogiar genuína ou apelativamente também não passa de função fictícia e efêmera, por essas razões resolvi escrever o release sobre meu terceiro disco. Uma outra razão é a de que grande número de pessoas tenha já abusado do direito de criticar e julgar, não só meu trabalho, mas minha pessoa a ponto de me deixarem tão só para escrever esse release.
Antes de mais nada, dentro de um processo de criação, o vital e absoluto elemento para tal; é a criatura humana. Criação que cria com dedos ávidos a modelar com força, ímpeto e delicadeza o barro do seu próprio criador.
E eu apresento a vocês, mais do que nunca exposta, a mulher criadora, criatura encantada, fascinante, seduzida e abandonada e feliz por ser achada em um estado de graça óbvio dos poetas. Levando em consideração ser apenas uma cidadã musical-universal, não espero utopicamente, ansiosa por uma compreensão filosófica ou ao menos um reles reconhecimento histórico; apenas vomito sem controle algum o que consigo destilar da vida

Angela possivelmente alude, ao dizer que grande número de pessoas já havia abusado do direito de criticar e julgar sua pessoa, à maneira como a mídia tratou da situação, o que se manteve após o lançamento do disco. A letra de Caetano para a canção “Escândalo” também referencia o tratamento recebido por Angela:

Se ninguém tem dó, ninguém entende nada O grande escândalo sou eu aqui só

Já em março de 1980, Angela havia falado para Ronaldo Bôscoli na Revista Manchete que tinha um caso com uma cantora. Angela, nas palavras de Bôscoli, “vive em constantes e perigosos desafios extracena”. Bôscoli enfatiza suas façanhas, obra do excesso de álcool, que teriam adiado sua carreira até o ano de 1979, quando lançou seu primeiro disco. Em 1980, Angela ainda lançou outro disco, Só nos resta viver.

No ano seguinte, em maio, Angela voltou às páginas das revistas e jornais, dessa vez acompanhada por Zizi. De acordo com a Revista Manchete que se referiu ao relacionamento somente como uma “amizade colorida”, a relação teria terminado, com Angela deixando de residir no apartamento que ambas dividiam no prédio Tambá. Na semana anterior à publicação, Angela teria voltado ao apartamento para buscar roupas e outros objetos. A revista relata que “o pau comeu na casa de Zizi”, para onde a polícia foi chamada logo em seguida. Com as duas na delegacia, a versão que prevaleceu é a de que Angela teria agredido tanto os policiais quanto Zizi, feito negado por Angela até os dias de hoje.


João Silva para a Revista Manchete, 1981. Reprodução.

A mídia passou a insinuar que os excessos já relatados por Angela anteriormente seriam indicativos de um comportamento violento, do qual Zizi seria vítima. Angela teria arrombado a porta do apartamento, mesmo a cantora afirmando que tinha a chave. Desmentiu a versão dos policiais que alegaram que ela estava bêbada, e afirmou que o exame de corpo delito de Zizi não havia apontado nenhum indício de agressão. A postura de Angela RoRo, de buscar esclarecer os fatos, contrasta com a de Zizi que, após afirmar que se tratava de “uma briga de duas amigas, um fato normal”, não tocou mais no assunto e pediu para não ser inquirida a respeito.

A revista O Cruzeiro também relatou o caso em 30 de maio, dando mais ênfase à suposta dicotomia entre RoRo e Zizi. Duas fotos acompanhavam a matéria. Abaixo da foto de Zizi, lê-se a legenda “A meiga e suave Zizi Possi”. Na página seguinte, a foto de Angela RoRo acompanha a legenda “Angela mostrou mais uma vez sua agressividade”. Também referindo-se ao relacionamento como amizade, embora “cheia de intimidades em seus desdobramentos”. O Cruzeiro atribuiu a Angela “impulsividade que lhe é característica”, assinala a cantora como frequentadora assídua da noite carioca e com histórico de “vida agitada e gênio violento”. Zizi, em contrapartida, é retratada como “alegre e descontraída”, uma jovem professora de música que teria saído de São Paulo para estudar em Salvador, “curtindo o som e a arte”.

Depois da repercussão do caso, Angela se envolveu na produção do disco que viria a ser Escândalo, lançado no final desse mesmo ano. A mídia, no entanto, não parou de noticiar sua suposta agressividade. Em 1º de dezembro de 1981, O Cruzeiro publicou uma pequena matéria intitulada “Quem tem medo de Angela Rô Rô???”.


O Cruzeiro: Revista (RJ), n. 2501, p. 48. Reprodução.

No texto, insinua-se sobre o comportamento violento da cantora, especulando sobre a possibilidade de que ela matasse alguém, inclusive Zizi, em quem teria aplicado “surras”. Mais uma vez, discute-se o sobre o suposto alcoolismo e os excessos de Angela. Não há nenhuma comprovação ou discussão sobre sua carreira, apenas a afirmação de que, apesar de “já ter aprontado o diabo”, Angela surpreendentemente seguia prestigiada na gravadora Polygram, dona do selo Polydor. A insistência em delatar comportamento perigoso contribui para uma imagem de Angela como predadora. A lésbica perigosa é RoRo, enquanto Zizi é sua vítima passiva, retratada como “pobre”, meiga e suave.

No mesmo ano, em junho, Angela tinha inicialmente resistido em adotar a categoria “lésbica” para se identificar. Na entrevista exclusiva concedida ao número inaugural do ChanacomChana, publicação lésbica editada pelo Grupo Ação Lésbica-Feminista (GALF) em São Paulo, Angela assumia ter mais tendências homossexuais do que heterossexuais. Apesar disso, quando questionada se se colocava como lésbica publicamente, Angela afirmou:

[...] Agora... eu não me disse lésbica em hora nenhuma. Não me envolvam, eu me envolvo. Não é preconceito, sabe, com essa palavra. Eu acho que vocês têm uma motivação para estarem usando esse termo. Mas acho essa motivação fraca porque é vulnerável. No momento pode funcionar, e espero que funcione, mas realmente eu usaria outros – mulher, pessoa, ser humano. (p. 2)

ChanacomChana, n. 0, janeiro 1981. Acervo Bajubá. Reprodução.

Embora a cantora tenha revisto essa posição posteriormente, em sua primeira entrevista a um veículo expressamente lésbico e feminista, manteve a ideia de que movimentos sociais precisavam falar para uma coletividade, mesmo reconhecendo o valor de uma organização, a exemplo do GALF, que buscava lutar contra a opressão das lésbicas. O próprio fato de o GALF ter buscado Angela para a edição número zero do ChanacomChana denota o papel representativo que RoRo ocupava entre a comunidade lésbica.

Lésbica assumida ou não, a imprensa tradicional continuava repercutindo seu caso com Zizi. Na ocasião do lançamento do disco Escândalo, em 5 de dezembro de 1981, a Revista Manchete noticiou o fato de que Angela teria comparecido ao show de Zizi, gerando um conflito entre as duas, que só cessou no intervalo do show, quando foi exigido que Angela fosse retirada. Na mesma matéria, Angela relata o ocorrido:

Mandei comprar ingressos e fiquei em casa com um amigo, Cláudio, conversando e bebendo vinho. Como tivesse sobrado meia garrafa, botamos na mochila dele e saímos. Quando estramos no teatro, as luzes já estavam apagadas. Sentamos, no maior silêncio. Mas comecei a participar do espetáculo, como uma espectadora comum, que estivesse adorando o que se passava no palco: cantei junto, aplaudi e gritei “Eu te amo!”. Acontece que sou extrovertida e essa é minha maneira de opinar, tanto para elogiar como para protestar. A primeira parte do show terminou com a música “My Sweet Lord”, que adoro, e que cantei, inteirinha, lá do meu lugarzinho. Foi quando as luzes se acenderam, para o intervalo.

Zizi não quis se pronunciar, apesar de estar processando Angela, e, na referida matéria, falou, por meio do seu advogado, que Angela havia chegado ao teatro embriagada, proferindo palavrões e ofensas que “induziram o público presente a acreditar que Zizi é adepta a prática do homossexualismo”. Homossexual, no caso, seria Angela. Ela mesma demonstra naturalidade ao falar sobre o tema para a Manchete:

[...] Agora, quanto a esse negócio de homossexualismo, não acho que seja parte ruim, nem mesmo negativa, já que todos nós temos esse lado, desenvolvido e assumido, ou não. Principalmente quando é assumido de forma digna. E sempre fui discreta sexualmente falando. Para o palco, levo a cantora e compositora; quanto à vida particular, só a mim pertence.

Angela também acusou Zizi de estar faturando com a situação, mas identificou a retórica utilizada por ela e pela imprensa ao tratar do caso: “Aí, sim, a pobre moçoila seduzida pela terrível bêbada e perigosa homossexual vai conhecer a glória pública”. A imprensa, na matéria de O Cruzeiro de meses antes, não poupou Angela da imagem da lésbica violenta, da qual Zizi representava a antítese.

Enquanto Zizi nunca se pronunciou formalmente, Angela voltou ao caso algumas vezes ao longo dos anos, principalmente para criticar a imprensa e as consequências negativas que o fato teve em sua carreira. Ao falar para o Pasquim, em março de 1982, Angela afirmou que desde maio de 1981 sofria um boicote nacional nas rádios e nos programas de televisão, pois “publicamente, fiquei como um monstro, uma mulher lésbica, bêbada e violenta”. Ainda afirmou: “Em suma: não bati em moçoila nenhuma, como também nunca a seduzi. Que grande sapatão sou eu! A moça se omitiu, assinou embaixo dessa versão, por ser mais confortável para ela na carreira profissional”. Angela buscou se defender, mesmo com o repórter do Pasquim insinuando que ela teria dado força à imagem de pessoa violenta que a ajudou a fazer sucesso, ao que Angela rebateu dizendo que nunca alimentou os excessos que cometeu.

A história do álbum Escândalo também é contada na entrevista ao Pasquim, com Angela afirmando que esse havia sido um esforço coletivo de produtores, arranjadores e compositores que a ajudaram a “rir do seu drama”. Na estreia do show homônimo, em 17 de março de 1982, Angela falou ao jornal Ultima Hora que saiu do incidente de cabeça erguida e com dignidade. Aceitou, de certa forma, a imagem atribuída pela imprensa, dando a entender que isso estava superado: “Quem ia querer dentro de casa uma lésbica bêbada e violenta?”. A matéria de Mauro Dias evidencia que Angela parecia muito tranquila, embora admitisse que foi verbalmente agressiva no passado. As bandeiras da paz, do amor e da generosidade predominavam na retórica da cantora. Angela imaginou o novo show como estar debutando outra vez, quando poderia mostrar sua arte novamente depois do duro boicote que sofreu.


Jornal Última Hora (RJ), 17 de março 1982. Reprodução.

No que diz respeito à sexualidade, em oposição à mídia que associava a lesbianidade à violência, Angela reiterou que não havia exotismo ou imoralidade na relação que teve com Zizi, que teria traído sua confiança e se beneficiado da imagem atribuída a ela. Não só uma imagem violenta, mas uma violência associada à masculinização. Angela seria a lésbica sedutora e perigosa, “sapatão”, e Zizi a moça indefesa e feminina, vítima de seus avanços. A cantora buscou desfazer essa oposição ao dizer ao Pasquim que era o “sapatão mais feminino”, na tentativa de desfazer a imagem masculinizada atrelada ao comportamento violento. Depois de ter falado ao ChanacomChana sem querer adotar uma identidade fixa, ao Pasquim falou de “lesbianismo” mais abertamente, mas disse que assumir isso era balela, que não tinha vergonha do que fazia e que não haveria de esconder de ninguém.

Na estreia do show “Escândalo”, para a Ultima Hora, Angela dava os passos para desfazer-se da “mística de cantora maldita”. No entanto, sempre lamentou o fato de Zizi jamais ter desmentido que ela a teria agredido em 1981. Na ocasião, a cantora afirmou:

Eu tenho essa coisa, tenho um bom caráter, uma boa índole. Escândalo não sofre nenhum ranço da história terminada. Se eu sofri, se eu fui escândalo, meu amorzinho, quem sabe sou eu e ninguém sabe melhor do que eu. Tive que rebolar, mesmo. Mas como gosto muito de mim, tenho muita confiança em mim, bola pra frente que o futuro está aí mesmo.

Na letra de Caetano para a música “Escândalo”, a intérprete admite que “já marquei demais, tô sabendo”, mas em 1982 o futuro estava à espera de Angela. Ao viver abertamente, Angela RoRo integra a história lésbica brasileira como símbolo de resistência à imprensa lesbofóbica e violenta, sedenta pela espetacularização das relações privadas e pela perpetuação de estereótipos nocivos. Não mais alvo dos boicotes das emissoras, Angela galvanizou seu lugar representativo na Música Popular Brasileira, no mesmo momento em que outras cantoras evitaram tratar do tema da sexualidade. Em 1999, 28 anos depois de ser entrevistada pelo GALF para o ChanacomChana, RoRo foi homenageada e se apresentou num evento do Coletivo de Feministas Lésbicas de São Paulo que comemorava os 20 anos de organização lésbica no Brasil. Os movimentos lésbicos no Brasil e a trajetória de Angela RoRo andam lado a lado e Escândalo também faz parte dessa história. Neste agosto de visibilidade lésbica, é fundamental celebrar e relembrar esses marcos.


 

REFERÊNCIAS


BATISTA, Tarlis. Ângela Ro Ro/Zizi Possi: Uma amizade desbotada. Manchete (RJ), Rio de Janeiro, ed. 1517, p.18-19, 16 mai. 1981.

BERG, Marli. Zizi e Ro-Ro: inimizade colorida. Manchete (RJ), Rio de Janeiro, ed. 1546, P. 140-141, 05 dez. 1981.

DEPOIMENTO a Ronaldo Bôscoli Ângela Ro Ro “Só eu seguro as minhas barras”. Manchete (RJ), Rio de Janeiro, ed. 1457, p. 52-53, 22 mar. 1980.

DIAS, Mauro. Escândalo. Ultima Hora, Rio de Janeiro, 17 mar. 1982.

ESCÂNDALO. Intérprete: Angela RoRo. Compositor: Caetano Veloso. In: ESCÂNDALO!. Intérprete: Angela RoRo. Rio de Janeiro: Polydor/Polygram, 1981. 1 disco de vinil, lado A, faixa 3 (4 min).

ESCÂNDALO!. Rio de Janeiro: Polydor/Polygram, 1981. 1 disco de vinil.

NÃO me envolvam, eu me envolvo. ChanacomChana, São Paulo, n. 0, jan. 1981.

QUEM tem medo de Angela Rô Rô??? O Cruzeiro: Revista, Rio de Janeiro, ed. 2501, 01 dez. 1981. Disponível em: < > . Acesso em: 9 ago. 2022

O Incrível Ricky entrevista Angela Rô Rô. O Pasquim, Rio de Janeiro, ed. 662, 4 a 10 mar. 1982.

SANTOS, Antonieta. Conflito separa Ro-Ro de Zizi. O Cruzeiro: Revista, Rio de Janeiro, ed. 0033, 30 mai. 1981.



Como citar este artigo:

DE OLIVEIRA, Augusta da Silveira. O “Escândalo” de Angela RoRo: a imprensa ataca a lesbianidade. História da Ditadura, 29 ago. 2022. Disponível em: https://www.historiadaditadura.com.br/post/o-scandalodeangelaroroaimprensaatacaalesbianidade. Acesso em: [inserir data].


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